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O Dia em Que Quase Morri

*Capítulo 2 — Por Mariah Torres*

Aquela tarde estava abafada. O tipo de calor que gruda na pele e sufoca por dentro.

O céu estava escuro. Eu estava prestes a morrer.

Não de forma literal. Ainda!

Mas por dentro algo já se despedaçava.

Saí da faculdade sem falar com Clara. Ela me seguiu até o portão da Universidade.

— Você tá pálida. Tá tudo bem? — a voz baixa, com medo da resposta.

— Só dor de cabeça — menti. Como sempre.

Ela assentiu. Todo mundo sabia. As marcas não estavam só nos braços. Estavam no jeito como eu me encolhia quando o celular tocava.

Hoje era o dia. Assinar minha libertação. Ou minha sentença.

Fui ao cartório. Cada passo era uma lembrança.

“Você não vai conseguir.” “Eu te amo.” “Você é fraca.”

Mas eu fui.

A caneta escorregou duas vezes na minha mão suada. A assinatura saiu trêmula. Mas minha.

Em teoria, aquele papel me libertava. Na prática, liberdade não vem com carimbo. Vem com dor. Com sangue. E naquela noite viria com os dois.

####

Cheguei em casa antes dele. A casa estava escura. O ar parado. Como se as paredes soubessem.

Guardei os papéis no fundo da gaveta, embaixo das roupas que ele nunca tocava. Minhas mãos tremiam. No espelho, uma sombra nos meus olhos. Algo entre o medo e a morte.

Então ouvi. A chave girando na fechadura.

Daniel entrou devagar. Saboreando o silêncio antes da destruição. O olhar dele achou o meu. E eu soube: ele sabia.

— Foi no cartório escondida?

A voz baixa. Perigosamente calma.

— Eu só fiz o que tinha que ser feito — tentei manter a voz firme. Falhou no meio.

Ele se aproximou. Cada passo dele, um passo meu pra trás.

— Você acha que pode me deixar? Acabar com a nossa história?

— Daniel, não existe mais “nossa história”. Só existe o que você me faz. E eu não aguento mais.

— Ah, você não aguenta? — Ele sorriu. E não havia nada de humano ali.

Os livros voaram das minhas mãos.

O primeiro tapa estalou seco. Minha cabeça girou. O rosto queimou. A boca encheu de sangue.

Ele me empurrou. Caí com o quadril no chão.

— Você é minha, Mariah. MINHA! Não entende?

— Eu sou uma pessoa, Daniel. Não a porra de um animal! — gritei.

Erro.

O chute veio nas costelas. Algo estalou. Gritei. Não havia ninguém pra ouvir.

Ele se ajoelhou ao meu lado, olhos dilatados.

— Olha só no que você me obriga a me transformar!

Tentei me arrastar. O corpo não respondia. A dor era tudo.

Ele puxou meu cabelo, me levantou como boneca de pano e me jogou na parede. A visão turvou. O som ficou longe. Mas eu sentia. O medo me engolindo.

“Levanta. Corre. Sobreviva.” A mente gritava. O corpo se despedia.

Quando parou, eu já não sentia o rosto. Só gosto de sangue e o amargo da humilhação. Ele subiu as escadas resmungando. Como se fosse uma briga comum de casal. Como se meu sangue não importasse.

Fiquei ali. Minutos. Horas. O tempo perdeu o sentido.

Quando consegui me mover, até respirar doía.

Me arrastei até o quarto. O sangue no dedo não deixava a digital funcionar. Limpei na calça. Digitei uma palavra.

"Socorro."

Mariana respondeu em segundos.

"Manda os documentos. Consegui um voo pra Cartagena hoje à noite. De lá a gente vê como te tira do país. Não fala com ele. Confia em mim."

Desabei.

Ali, no chão, com o corpo moído, descobri o que era salvação.

Não vinha de Deus. Nem da justiça. Vinha das mãos femininas que me amavam.

Me levantei como pude. Lavei o rosto. Os hematomas já subiam. Olho inchando. Boca cortada. Costelas gritando.

Abri o armário. Mochila. Roupas simples. Documentos. O colar da mamãe. Um livro da faculdade que lembrava quem eu era antes de tudo.

Pensei em deixar um bilhete. “Você nunca mais vai me alcançar.” Escrevi na cabeça. Rasguei. Ele não merecia nem minha letra.

Olhei ao redor. Era minha casa. Mas não era lar. Era prisão.

Sentei no chão. Encostei na parede. Fechei os olhos.

E pela primeira vez em muito tempo, chorei por mim.

Não pelas dores. Mas por tudo o que me tiraram. A juventude. A fé. A inocência.

Naquela madrugada, cada batida do relógio dizia:

“Você ainda está viva.”

E eu me agarrei nisso.

Mesmo destruída. Mesmo com medo.

Eu estava viva.

Quando os primeiros raios de sol atravessaram a janela, fiz um pedido silencioso: que fosse meu último nascer do sol naquela casa.

Porque, naquele dia, eu quase morri.

Mas sobrevivi.

E agora ele vai aprender o que acontece quando você tenta matar quem já não tem nada a perder.

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