Mundo ficciónIniciar sesiónPor Mariah Torres
Aquela tarde estava abafada. O tipo de calor que gruda na pele e sufoca por dentro. O céu estava escuro, como se o mundo inteiro soubesse o que eu ainda não sabia: eu estava prestes a morrer. Não de forma literal ainda. Mas por dentro algo já se despedaçava em mim. Saí da faculdade sem dizer uma palavra para Clara. Ela me acompanhou até o portão, me observando com olhos que diziam mais do que qualquer pergunta. — Você tá pálida. Tá tudo bem? — ela disse, com a voz baixa, quase temendo a resposta. — Tô só com dor de cabeça — menti, como sempre. Ela assentiu, mas sabia. Todo mundo sabia. As marcas não estavam apenas nos braços ou no rosto. Estavam no olhar, no andar apressado, no jeito como eu me encolhia quando o celular tocava. Hoje foi o dia. O dia em que eu assinaria a minha própria libertação. Ou minha sentença. Fui ao cartório com as pernas trêmulas. Cada passo era uma lembrança. Em cada esquina, uma voz do passado tentando me convencer a voltar atrás. "Você não vai conseguir." "Eu Te Amo." "Você é fraca." Mas eu fui. Assinei os papéis. Entreguei os documentos. Senti minhas mãos suarem sobre o balcão de madeira. A caneta escorregou duas vezes. Mas a assinatura saiu. Trêmula. Mas minha. “Está feito”, pensei. Em teoria, aquele papel me libertava. Mas liberdade, eu descobri, que não vem com apenas com um carimbo oficial. Ela vem com dor. Com perdas. Com cicatrizes. E naquela noite viria com sangue. #### Cheguei em casa antes dele. A casa estava escura. O ar parado, pesado. Era como se as paredes soubessem. Como se o chão estivesse se preparando para mais uma história que ninguém contaria. Corri para o quarto. Guardei os papéis no fundo da gaveta, embaixo de roupas que ele jamais tocava. Minhas mãos tremiam. Meu peito subia e descia rápido demais. Olhei para o espelho. Não reconheci meu reflexo. Havia uma sombra nos meus olhos. Algo entre o medo e a morte. Então ouvi. A chave girando na fechadura. Meus batimentos pararam por um segundo. Daniel entrou. Devagar. Como quem saboreia o silêncio antes da destruição. O olhar dele encontrou o meu. E naquele instante, soube que ele sabia. — Foi no cartório escondida? A voz dele era baixa. Perigosamente calma. — Eu... eu só fiz o que tinha que ser feito. — disse, tentando manter a voz firme, mas ela falhou no meio da frase. Ele se aproximou. A cada passo dele, eu dava um passo para trás. — Você acha que pode me deixar? Que pode acabar com a nossa história? — Daniel, não existe mais “nossa história”. Só existe o que você me faz. E eu não aguento mais. — Ah, você não aguenta? — ele sorriu. Mas não era um sorriso humano. Era selvagem. Doente. Antes que eu pudesse reagir, os livros que estavam na minha mão voaram para longe. O primeiro tapa veio seco. Estalou alto. Minha cabeça girou. O rosto queimava. A boca sangrava. Ele me empurrou. Caí com o quadril no chão. — Você é minha, Mariah. MINHA! Você não entende isso? — Eu sou uma pessoa, Daniel. Não a porra de um animal! — gritei. Erro. O chute veio em seguida. Direto nas costelas. Senti algo estalar. A dor me fez gritar. Mas não havia ninguém para ouvir. Ele se ajoelhou ao meu lado, os olhos dilatados. — Olha só no que você me obriga a me transformar! — cuspiu. Eu tentava me arrastar. Mas o corpo não respondia. A dor era tudo o que existia. Ele puxou meu cabelo, me levantou como uma boneca de pano e me jogou na parede. A visão ficou turva. O som ficou longe. Mas eu ainda sentia. Sentia o medo me dominando. O desespero me engolindo. Minha mente gritava: “Levanta. Corre. Sobreviva.” Mas meu corpo… Meu corpo estava se despedindo. Quando ele finalmente parou, eu já não sentia mais o rosto. Só o gosto metálico do sangue e o amargo da humilhação. Ele subiu as escadas, resmungando. Como se tudo aquilo fosse uma briga comum de casal. Como se eu não estivesse no chão, arrebentada. Como se meu sangue não tivesse importância. Fiquei ali por horas. Ou minutos. O tempo perdeu o sentido. Só existia dor. E um silêncio cortante. Quando consegui me mover, tudo doía. Cada costela. Cada músculo. Até respirar era um esforço. Arrastei-me até o quarto. Peguei o celular com os dedos manchados de sangue. Escrevi uma única palavra. "Socorro." Mariana respondeu em segundos. "Manda seus documentos. Vou comprar sua passagem ainda hoje. Você vai embora amanhã, no primeiro vôo. Não diga nada a ele. Apenas arrume sua mala. Confia em mim." Desabei. Ali, no chão, com o corpo moído, descobri o que era a salvação. Não vinha de Deus. Nem da justiça. Vinha das mãos femininas que me amavam. Mariana era minha irmã. Mas, naquele momento, ela era minha âncora. Me levantei como pude. Lavei o rosto. Vi os hematomas se formando. Meu olho direito começava a inchar. A boca cortada. As costelas eu nem sabia se estavam inteiras. Abri o armário. Peguei a mochila. Coloquei roupas simples. Meus documentos. O colar da mamãe. Um livro da faculdade que me lembrava de quem eu era antes de tudo. E escrevi um bilhete. Com letra tremida. Mas com alma firme. > “Você nunca mais vai me alcançar.” Deixei sobre o travesseiro. Olhei ao redor. Era minha casa. Mas não era lar. Era prisão. Sentei no chão. Encostei na parede. Fechei os olhos. E pela primeira vez em muito tempo… Chorei por mim. Não pelas dores. Mas por tudo o que me tiraram. A juventude. A fé. A inocência. Naquela madrugada, cada batida do relógio era um anúncio: “Você ainda está viva.” E eu me agarrei nisso. Mesmo destruída. Mesmo com medo. Eu estava viva. E onde há vida... Há chance. Quando os primeiros raios de sol atravessaram a janela, fechei os olhos e fiz um pedido silencioso. Que esse fosse meu último nascer do sol naquela casa. Que fosse meu recomeço. Que eu nunca mais precisasse me esconder para respirar. Porque, naquele dia, eu quase morri. Mas sobrevivi. E, a partir daqui... Vou aprender a viver.






