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Desejo em Silêncio

*Capítulo 8 — Por Mariah Torres*

A água morna deslizava pelos cabelos de Leonor enquanto ela empurrava os patinhos de borracha pela banheira. Cheiro de lavanda no ar. Risada dela batendo nas paredes douradas.

Eu sorria. Com ela, era fácil esquecer que eu tinha cicatriz.

— Se espirrar mais água, vou virar peixe! — ameacei, fingindo brava.

Ela gargalhou. E por um segundo, a mansão não pareceu uma fortaleza.

Banho feito. Pijama azul de estrelas. Cabelo penteado. Cama-castelo.

— Conta uma história? — ela pediu, os olhos já pesados.

Sentei na beirada. Inventei uma menina corajosa que achava um jardim secreto. Leonor dormiu com a mãozinha presa no meu dedo.

Fiquei ali. Olhando ela respirar. O peito doeu. De amor. De promessa.

Saí em silêncio. Meu quarto ainda era estranho, mas hoje parecia menos cela.

Short de algodão, camiseta larga. Me joguei na cama. A ansiedade martelava.

Peguei o celular. Disquei.

Duas chamadas.

— ALELUIA, VAGABUNDA! — Milena berrou, e eu gargalhei antes do oi.

— Mana! Finalmente! — Mariana gritou ao fundo.

— Presente! Já tô com a taça na mão! — Ícaro entrou, teatral.

— Vocês são insuportáveis — reclamei, rindo.

— Importante é: já te jogaram contra a parede ou não? — Milena foi direto.

— Se o patrão for tudo isso, espero que a dignidade tenha ficado no portão — Mariana emendou.

— Conta, mulher! — Ícaro implorou.

Suspirei. Um sorriso idiota escapou.

— Tive meu primeiro contato oficial com o chefe hoje.

— E...? — os três em coro.

— E... ele tira o fôlego.

— Define — Milena mandou.

— Alto. Ombros feitos pra carregar pecado. Mãos grandes. Voz rouca. Olhar que faz seu joelho dobrar antes do cérebro entender.

— MEU DEUS — Mariana gritou. — Eu já pedia arrego!

— Eu batia na porta falando “vim me reportar, senhor” — Ícaro debochou.

— Mana... — Milena baixou a voz. — Se esse homem mandar você calar a boca, você cala até os pensamentos.

Ri, me virando na cama. Mas era verdade. Só de lembrar do olhar dele, a pele arrepiava.

— Vocês não entendem. Ele não precisa falar. O corpo dele manda. A presença dele te puxa pra um buraco que você nem vê.

— Esse é o tipo que te desmonta com o olhar e te reconstrói na cama do jeito que ele quer — Mariana sussurrou.

— Tô ouvindo e passando mal — Milena riu.

— Inveja define — Ícaro decretou.

Mordi o lábio.

— Pior é que quando ele disse “não gosto de surpresas”, eu quase perdi o ar.

Grito coletivo no telefone.

— MARIAH, VOCÊ TÁ FERRADA! — Milena berrou.

— Você já tá de joelhos na cabeça — Mariana gargalhou.

— E eu apoio. De joelhos, de pé, do jeito que ele quiser — Ícaro completou.

Desligamos. O silêncio caiu no quarto. Pesado. Gostoso. Pior.

Fiquei ali. Sozinha. Penumbra. Corpo quente. Pele em alerta. Pensamento preso nele.

Leon.

O jeito que os olhos dele atravessam. Sem pedir licença. Sem pena.

A voz. Firme. Cortante. Cada palavra era uma ordem mesmo quando era pergunta.

Fechei os olhos. Apertei o travesseiro. A respiração falhou. Virei de lado e o lençol gelado não resolveu nada. O calor subia pela barriga, descia baixo, latejava onde eu não queria admitir.

Merda.

Ele mal me tocou. Mal falou. E eu já perdi uma guerra que nem aceitei lutar.

Deitada no escuro, encarei a verdade: Leon Helk não é só um chefe.

É tempestade. E eu tô no olho dela.

O pior é que não quero sair da chuva.

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