Mundo de ficçãoIniciar sessão*Capítulo 6 — Por Mariah Torres*
Na manhã seguinte, acordei com o céu ainda escuro no apartamento das minhas irmãs. Banho rápido. Calça jeans, blusa azul de manga longa. Rabo de cavalo simples. Nada em mim podia gritar. Milena me entregou uma caneca de chá, quente demais para a minha garganta, fria demais para o meu peito. — O carro da mansão já está lá embaixo — disse, sem tirar os olhos de mim. — Você não precisa provar nada. Só existir. Desci. O carro preto, vidros fechados, motor ligado. Entrei sem olhar para trás. Se olhasse, voltava. #### Quando saltei na entrada lateral, a neblina ainda mordia o jardim. As luzes externas desenhavam facas de sombra no caminho de pedra. A mansão dormia, mas vigiava. A mesma funcionária de ontem me recebeu com um aceno curto. Subi. Silêncio. Respeitoso. Pesado. Passei pelo lustre de cristal que engolia o hall e pela escadaria que se abria em duas, como uma boca. Era impossível não me sentir pequena. Parei diante da porta de Leonor. Bati. Nada. Girei a maçaneta. O quarto era um país diferente dentro da fortaleza. Brinquedos em fila, livros nas prateleiras, penteadeira com espelhos em forma de coroa. Na escrivaninha, arco-íris e dinossauros dividiam o mesmo papel. Leonor dormia. Cabelos castanhos espalhados, pijama cor-de-rosa de estrelinhas. Um coelhinho de pelúcia grudado no peito. Mesmo dormindo, a testa dela estava franzida. Uma guerra em miniatura. Me aproximei. O peito apertou. Tão pequena. Tão igual a mim há vinte anos. — O que te machuca, pequena? — pensei, sem som. A porta rangeu. Virei. Alex Helk estava encostado no batente. Braços cruzados. Terno sem gravata. Olhos que não piscavam. Não ouvi ele chegar. Ninguém ouve. — Você chegou cedo — a voz era baixa, tranquila. Perigosa por isso. — Ela teve um pesadelo essa noite. Não dormiu bem. Assenti. Tentei não recuar. — Queria acordá-la com cuidado. Ele entrou. Olhou para a sobrinha. E por um segundo, a pedra virou vidro. O olhar amoleceu. Depois voltou a ser muralha. — Ela sonha com a mãe às vezes. Acorda assustada. Não fala disso com ninguém. Nem comigo. Nem com o pai. — Ela parece muito doce. — É. E muito esperta. Vai te testar. Só está acostumada com o pai. E com silêncio. — Posso acordá-la? — Pode. Mas com calma. Leonor odeia ser acordada de forma brusca. Ele saiu como entrou. Sem ruído. Me deixando sozinha com a menina e com o peso do sobrenome dele no quarto. Sentei na beirada da cama. Toquei o ombro dela, de leve. — Leonor, bom dia, princesa. Está na hora de acordar. Ela se mexeu. Abriu os olhos devagar. Direto nos meus. — Você voltou... — Sim, princesa. Tudo bem se eu ficar com você hoje? Ela olhou para mim. Depois para o coelho. — O coelho gosta de você. — E você? — Ainda não sei. Sorri. Doía, mas sorri. — Que tal escovar os dentes e colocar uma roupa bem linda para tomarmos café? — Só se você fizer um penteado de princesa. — Combinado. #### Escovei os dentes dela. Escolhemos um vestido azul com laço nas costas. Trancei o cabelo dela com dedos que tremiam. Princesa pronta. Na cozinha dos funcionários, Esther já esperava. Café servido. Nada fora do lugar. Leonor não falou. Comeu em silêncio. Mas os olhos dela me seguiam. Mediam. Pesavam. Queria saber se eu quebrava fácil. — Ela gosta de observar antes de confiar — Esther disse, pondo suco na xícara. — Mas quando confia... é pra sempre. Assenti. Entendia. Eu era igual. Depois do café, Esther me entregou um envelope. — Rotina diária de Leonor. O senhor Helk ainda não retornou. Se aprovar seu desempenho, deve chamá-la nos próximos dias. — Ele costuma aparecer com frequência? — Não. Mas quando aparece, todos sabem. #### Leonor me puxou pela mão até o jardim interno. Sol tímido entre as folhas. Ela correu para a estufa de vidro, para o balanço na árvore. Riu uma vez. Baixinho. Foi o som mais alto que ouvi naquela casa. Fiquei olhando. Ela era leve. Mas carregava uma tristeza antiga nas costas. Eu conhecia aquela postura. Mais tarde, desenhamos na varanda. Ela me entregou um papel. Uma menina com asas. Tortas. Grandes. — É você. Uma fada — disse, sem sorrir. Sincera demais pra ter cinco anos. O lápis tremeu na minha mão. No fim da tarde, depois de pintar, correr e me mostrar cada canto permitido da mansão, Leonor bocejou. Levei-a para o quarto. Cobertor até o queixo. Fiquei ao lado até a respiração dela afundar. Antes de apagar, ela sussurrou: — Boa noite, fada Mariah. Fechei a porta com o coração na garganta. Talvez, naquele lugar de silêncio, eu tivesse encontrado um começo. Talvez eu não estivesse mais tão sozinha. #### Esther me esperava no corredor. Mãos cruzadas. Olhar menos navalha que de manhã. — Bom trabalho hoje! — disse. — Obrigada! — Ela dormiu tranquila. Isso não acontece sempre. Não era elogio. Era permissão. Um “fica” sem dizer a palavra. Saí pela mesma porta da manhã. Olhei o céu. Estrelas tímidas. Presentes. Como eu. Como Leonor. O amanhã já não me assustava tanto. Esther me levou até a ala leste. Silenciosa. Janelas para o jardim. O quarto era simples. Cama de casal, lençóis claros, cortinas suaves, escrivaninha com luminária acesa. Na cômoda, um vaso com flores frescas. Boas-vindas sem bilhete. Desfiz a mala. E alguma coisa dentro de mim se desfez junto. Se organizou. Eu não voltaria para o apartamento das minhas irmãs. A mansão agora era casa. E pela primeira vez desde que tudo desabou, dormir num lugar novo não me deixou em alerta. Encostei a cabeça no travesseiro. Pela porta dupla no fim do corredor, nenhum som. Mas eu sabia: ele ia voltar. E quando voltasse, todos saberiam. Inclusive eu.






