Anny
Descobri que o silêncio também pode ser barulhento. Acordei com a luz entrando pelas cortinas pesadas e um cheiro de hospital misturado com perfume caro.
Por um segundo, esqueci onde estava. Pensei que ainda era o quartinho do anexo, que a governanta ia bater na porta mandando eu sair para arrumar a mesa do café.
Aí virei o rosto e vi o teto alto, o lustre discreto, a varanda com cortinas claras. Mansão. Suíte de hóspede. Cela de luxo.
Alguém girou a maçaneta sem bater. A porta se abriu e uma mulher de jaleco entrou empurrando um carrinho.
— Bom dia, Anny. — disse, como se a gente fosse velha conhecida. — Sou a enfermeira Patrícia. Vou acompanhar você a partir de agora.
Ela colocou uma bandeja na mesa de apoio: café, frutas, pão, suco. Ao lado, dois copinhos com comprimidos e um papel plastificado cheio de horários.
Sentei na cama, o corpo ainda pesado de sono e preocupação.
— O que é isso? — perguntei, apontando para o papel.
Ela se aproximou.
— Seu cronograma. — explicou. —