Ana já tinha aprendido a reconhecer o som do portão antes mesmo de Dora anunciar alguém. A casa era grande, silenciosa, e exatamente por isso qualquer ruído fora do padrão parecia mais alto do que deveria.
Naquela tarde, Kali dormia depois do almoço. A soneca longa, aquela que consolidava o humor do resto do dia. Ana estava na sala menor, revisando anotações do semestre que começaria em breve. Os livros estavam abertos, mas sua atenção oscilava entre as páginas e o monitor de notícias no celular.
Natan Roman aparecia ali com frequência demais para ser coincidência.
Matérias curtas, fotos em eventos, manchetes sobre aquisições. O nome dele tinha uma presença pública que Ana não esperava, e isso criava uma sensação estranha: ele era, ao mesmo tempo, o homem que atravessava o corredor com a filha no colo e alguém que parecia inalcançável até para quem morava sob o mesmo teto.
Ela não gostava desse tipo de sensação. Fazia o mundo parecer desequilibrado.
Quando o interfone tocou,