Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu detestava estar sendo tão ruim em algo que eu gostava de fazer — em algo que eu sabia que era boa.
Às dezenove horas, depois do banho das crianças, o meu expediente chegou ao fim.
Mesmo com todos aqueles problemas, tentei ser positiva em relação ao dia seguinte. Ainda que as crianças não tivessem me aceitado — principalmente a Bárbara —, havia conseguido cumprir todo o cronograma deles e não precisei de nenhum auxilio extra de Daniela, o que significava que, para um primeiro dia, não devia ser tão ruim assim.
O ponto alto da minha noite foi o meu banho demorado de banheira — o primeiro da minha vida. Perdi a conta de quantos minutos passei debaixo daquela água. Eu só fui sair de lá quando a pele dos meus dedos já estava bem enrugada.
Depois disso, curti um momento sozinha no meu quarto, aproveitei para comer chocolate e outras coisas gordurosas, para me desintoxicar de toda aquela comida excessivamente saudável. E, antes de dormir — mais especificamente no momento em que tornei a pensar em Pedro e em todas as pessoas que havia deixado no Brasil —, sussurrei pra mim mesma: “você consegue, Lyara. Essa é a porra do recomeço que você tanto queria”.
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Depois de me deitar na cama para dormir, dificilmente saio de cima dela até a manhã do dia seguinte. Sou extremamente preguiçosa nesse sentido. E, por esse mesmo motivo, eu sempre costumo deixar uma garrafinha de água próximo da minha cama, para no caso de acordar no meio da noite e sentir a minha garganta muito seca.
Por não estar na minha casa e devido a minha rotina diferenciada, acabei não me programando e esqueci esse detalhe.
Isso me obrigou a descer as escadas para ir até a cozinha.
Ainda que não fosse legal estar vagando no meio da noite em uma casa que não era minha, eu não conseguiria dormir com a minha garganta seca; também não me forçaria a beber água quente da torneira do banheiro.
Dani, a governanta da casa, havia me dito para ficar “à vontade” e era exatamente isso o que eu estava fazendo.
Fui para a cozinha e peguei um copo de água gelada no filtro moderno e luxuoso deles. Depois de tomar tudo em grandes goles, decidi levar um copo cheio para o quarto, para que eu não precisasse descer novamente, caso acordasse outra vez.
Caminhei de volta para a escada e, quando pisei no primeiro degrau dela, ouvi o som risadas animadas. E, nesse instante, apressei os meus passos e subi o mais rápido que eu consegui. Eu nem me importei com as gotas de água que derramei no chão devido à minha afobação, simplesmente me esforcei para não ser vista vagando sozinha por ali.
Estava me escondendo e não tinha a menor ideia do por que — não tinha feito nada errado —, mas, ainda assim, continuei seguindo em passos apressados até o meu quarto, onde eu me tranquei.
A voz grossa no meio daquelas risadas parecia pertencer ao senhor Trevellyan — aquele tom era inconfundível, mesmo para mim que só o havia ouvido uma única vez. Entre os sons contagiantes, eu também identifiquei uma voz feminina, mas essa, mesmo que familiar, eu não tinha a mínima ideia a quem pertencia.
Eu não sabia muito sobre Don Trevellyan.
Tinha conhecimento de que ele era um “pai solteiro” — no sentido de estar criando os
filhos sozinho —, de que a mãe das crianças havia falecido e de que ele não havia se casado novamente. Naquelas conversas por vídeo, antes de eu embarcar para os Estados Unidos, Dani não havia me explicado essa história muito bem e, naquele tempo, eu também não dei muita importância.
Talvez fosse a namorada dele ou uma das mulheres com quem o senhor Trevellyan costumava se envolver. Até porque, tratando-se de um homem tão atraente quanto ele, certamente mulher não devia faltar. De uma coisa eu tinha certeza, a fila devia ser enorme, repleta de garotas magrinhas, que poderiam facilmente ser capas de alguma revista famosa.
Já deitada em minha cama, eu ouvi alguns passos no corredor. Eles, muito provavelmente, seguiam para o quarto do meu chefe, que ficava bem ao lado do meu. Descobri esse detalhe no dia que eu cheguei aos Estados Unidos, mais especificamente no momento em que eu esbarrei nele, que caminhava sem camisa e todo suado depois de um tempo malhando em sua academia particular.
Peguei o meu celular e notei que já havia passado das três da manhã. Em algumas horas, eu já teria que estar de pé novamente para começar a trabalhar. Mas, obviamente, isso não me impediu de matar um tempo nas redes sociais, descobrindo o que as pessoas estavam fazendo lá no Brasil.
Confesso que estava mais interessada em saber como o Pedro estava se virando. E a julgar pela página do meu ex-noivo, a resposta era “incrivelmente bem”. Ele postava fotos com garotas, um monte de bebida e festas. E, em todas elas, aparentava estar se divertindo como nunca.
E isso me colocava para baixo.
Eu não queria o mal dele, de forma alguma. Mas vê-lo tão bem — e sem mim — não era uma coisa muito boa, pois me mostrava que Pedro estava vivenciando um sentimento de felicidade que eu não fui capaz de lhe proporcionar. Não que mantê-lo feliz fosse uma obrigação exclusivamente minha. Você não entra em um relacionamento para que outra pessoa o torne feliz, esse tipo de pensamento é egoísta e só mostra o quanto você é dependente. No entanto, era impossível não questionar se ele estava ganhando de outras mulheres todas as coisas que eu não pude lhe dar.
Eu continuaria a minha reflexão sobre vida e relacionamento se um barulho não tivesse roubado completamente a minha atenção.
Não era um som qualquer.
Era um gemido; um bem alto, por sinal.
Levantei-me da cama na ponta dos pés, cuidando ao máximo para não fazer barulho — não que eles fossem ouvir alguma coisa naquele momento — e aproximei-me da parede. Lentamente encostei o meu ouvido ali, em uma tentativa de ouvir um pouco melhor tudo o que acontecia no quarto ao lado. Os gemidos ficaram ainda mais altos e isso fez com que eu imaginasse a cena que acontecia atrás daquela parede.
As vozes, carregadas de prazer, e o barulho da cama rangendo me excitaram demais. E ainda que isso não fosse algo muito correto ou bacana da minha parte, eu continuei colada na parede, ouvindo o senhor Trevellyan foder aquela mulher.
Pela forma que aquela cama rangia — assim como os altos gemidos —, as estocadas dele eram fortes e constantes. O meu chefe devia estar partindo-a ao meio. E isso fez com que eu imaginasse a voz dele sussurrando coisas safadas em inglês ao pé do meu ouvido. Tinha absolutamente tudo em mente, a voz grave, o cheiro forte e aquele corpo escultural colado ao meu.
Tudo isso não deixava a minha mente, tampouco me ajudava a se afastar da parede.
Ouvi algo que se parecia muito com um “me fode!”. Aquela frase me deixou molhada, tão úmida a ponto de me dar vontade de voltar para a cama e resolver aquela situação sozinha, com o auxílio da minha mão. E eu realmente teria feito isso, se não tivesse imaginado a cena antes e constatado o quanto eu estava sendo patética.







