Mundo de ficçãoIniciar sessãoAs crianças, quem eu mais estava ansiosa para conhecer, nem me deram bola.
Bárbara tinha oito anos de idade e era muito bonita. A garotinha possuía cabelos loiros e olhos cinzentos, bem parecidos com os do pai. Já Mattew, de três anos, tinha cabelos e olhos escuros, provavelmente herdados da mãe. Eram tão diferentes que nem pareciam irmãos.
O meu primeiro momento com eles foi bem curto e aconteceu no mesmo dia que cheguei, no finalzinho da tarde. A menina nem me deu atenção, mal olhou para o meu rosto, mesmo eu dizendo o quanto estava feliz por finalmente conhecê-la. O menorzinho foi um pouquinho mais receptível, mas ainda não dava para dizer que ele tinha gostado de mim.
Mesmo sendo bastante curto, esse primeiro contato mostrou-me que não seria muito fácil lidar com aquelas crianças, principalmente com a mais velha. Mas, com toda a minha experiência, eu sabia que isso — não ser aceita logo de início — não era algo incomum, principalmente sendo uma babá estrangeira.
Na mente dos dois, eu não passava de uma desconhecida, uma intrusa que tinha invadido a casa deles. Não conseguiria mudar isso da noite para o dia. A única forma de lidar com essa questão, era dar tempo ao tempo e torcer para que eles me aceitassem o quanto antes.
Durante a manhã, Dani me acompanhou e foi me explicando a rotina das crianças, assim como algumas das preferências do pai delas, o senhor Trevellyan. Coisas como “sempre amarre o cabelo da Bárbara, antes de colocá-la para tomar o café da manhã” e “não deixe que eles comam nada fora da dieta pré-estabelecida”.
Nessa última frase, eu senti uma leve indireta. Foi como se Daniela olhasse para o meu corpo, fora do padrão de beleza, e dissesse “não dê nenhuma das porcarias que você come para eles”.
Ou talvez eu só estivesse sendo um pouco paranoica.
— Quando eles terminarem de tomar café da manhã e já estiver no horário, é só avisar o Brendo e ele levará vocês — continuou ela, enquanto eu organizava a mesa para que as crianças pudessem comer. — Entendeu tudo?
No momento em que ela disse “é só avisar o Brendo e ele levará vocês”, eu notei que, muito provavelmente, não teria um carro só pra mim — como me havia sido prometido naquela conversa por vídeo. Em vez disso, eu teria um motorista, o que, definitivamente, não era a mesma coisa, já que ele não estaria disponível sempre que eu precisasse.
Balancei a cabeça, mostrando que havia compreendido.
Acomodei as crianças à enorme mesa da cozinha. Primeiro sentei o Mattew na cadeirinha e, logo em seguida, fiz com que Bárbara se sentasse à mesa também.
— Não! — ela disse e se levantou da mesa, assim que Dani se afastou da gente. — Eu não quero comer.
Aproximei-me da menina e me abaixei, ficando frente a frente com ela. Por mais que a autoridade fosse algo indispensável quando o assunto é cuidar de crianças, eu queria que, naquele momento, ela me enxergasse de igual para igual, que me compreendesse e, consequentemente, me aceitasse.
— Por que não, querida? Parece estar tão gostoso — respondi, tentando, sem sucesso, convencê-la a comer. Peguei uma colherada do cereal e comi, fazendo caras e bocas. Voltei o meu olhar para ela e sorri, como se aquela fosse a comida mais maravilhosa do mundo. — Viu só? Está muito gostoso, Bárbara. Por que você não prova um pouquinho?
Ela simplesmente balançou a cabeça, mostrando-me que não comeria e que a minha estratégia do “igual pra igual” era péssima.
Respirei fundo e voltei a minha atenção para o Mattew, que diferente da irmã mais velha, estava se alimentando, bebendo uma vitamina que Daniela destacou ser essencial para o crescimento dele.
Ana, a cozinheira da casa, chamou-me até um canto da cozinha e sussurrou: — É normal, ela sempre faz birra pra se alimentar. Você não é a primeira babá que está tendo problemas com isso.
Como eu não fazia o estilo que gostava de fofocas, agradeci a cozinheira pela informação e me afastei, tornando a me aproximar de “Em” — o apelido pelo qual Daniela a chamava.
— Você precisa comer — tornei a insistir, voltando a minha atenção para a loira, que continuava fazendo careta. — Pelo menos um pouquinho, meu amor.
Bárbara tornou a balançar a cabeça e mexer os seus bracinhos, recusando-se a comer.
— O meu pai disse que eu não preciso comer quando não estou com fome — rebateu ela com uma expressão de choro estampada no rosto. — E eu não quero!
Eu tinha certeza de que se dissesse “você precisa comer” mais uma vez, a menina começaria a chorar, trazendo Dani de volta para a cozinha. E tudo o que eu não queria, era um problema com as crianças já no meu primeiro dia de trabalho.
Se o pai dela havia dito aquilo, quem era eu para obrigá-la, não é mesmo?
— Você tem certeza não está com fome? — indaguei, certificando-me de que não mandaria aquela criança com o estômago roncando de fome para a escola.
Ela negou com um aceno de cabeça, dando-me a certeza de que eu precisava para finalmente desistir de alimentá-la.
— Se o seu pai te disse isso, então tudo bem.
Quando o horário da escola se aproximou, eu limpei a boca do Mattew e deixei as duas crianças prontas para sair. Eu não precisei nem chamar o motorista, que apareceu de forma espontânea, facilitando muito o meu trabalho.
O trajeto da casa até as duas escolas não era muito grande. E, assim que nós chegamos, eu segui todas as orientações de Daniela, deixando as crianças dentro do local e então retornei para o carro, que me levou de volta para a casa dos Trevellyan.
Como o meu trabalho englobava apenas as crianças, eu não tinha muito o que fazer durante o período em que elas estavam estudando. Sendo assim, eu aproveitei esse tempo livre para escrever um pouco mais do meu livro.
Eu ainda estava bem no começo, mais especificamente quando Isabela Visconde — a protagonista — reencontrava Felipo Rodriguez, o primeiro namorado dela, que agora se tornara um caubói marrento e arrogante. Consegui escrever apenas alguns parágrafos, pois não estava me sentindo muito inspirada e sentia que a história ainda não estava muito bem planejada.
Também dei uma olhadinha no grupo de babás da “Go Baby”. As meninas estavam combinando uma festa na sexta-feira à noite e, por mais que eu não fosse muito de ir a festas, fiquei tentada a participar daquela. Eu queria conhecer mais gente, fazer amizade com outros brasileiros, exatamente como aquelas intercambistas azaradas sempre nos instruíam em seus vídeos.
A escola das crianças funcionava em tempo integral. E, sem elas por perto, o meu dia passou bem rápido. Quando me dei conta, já estava saindo da mansão com Brendo para pegá-las. Nós passamos primeiro na de Mattew e, em seguida, fomos para a de Bárbara que, ao me ver, esboçou uma expressão de desagrado ao notar que eu continuava sendo a babá dela.
Dentro do carro, eu tentei puxar assunto com a menina, perguntando o que ela havia feito na escola, se ela possuía amigos e outras coisas nessa mesma linha de pensamento, mas não obtive resposta da parte dela. Mattew, que tinha apenas três anos de idade, falava mais do que ela e isso só comprovava o quanto Bárbara me odiava.
Assim que chegamos em casa, fui instruída novamente por Dani, que me explicou que eu deveria fazer algum tipo de atividade com as crianças. Nas exatas palavras dela, “algo saudável e educativo”.
Eu até tentei brincar com um jogo — que eu considerava saudável e educativo —, mas nenhum dos dois estava muito interessado nisso. Bárbara ficou no celular, fingindo não ser capaz de me ouvir, enquanto Mattew assistia a um desenho animado em seu tablet.
Tentei chamar a atenção deles diversas vezes, mas falhei miseravelmente em todas elas. E, com isso, acabei desistindo e deixando que cada brincasse da forma que queria.
Isso fez com que eu me sentisse uma péssima babá.







