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Senti falta apenas de uma televisão, mas poderia resolver isso facilmente com o meu notebook. E não poderia reclamar de nada, principalmente depois de alguns dos relatos que eu tinha lido na internet — o motivo para a existência do “segundo medo”. Em um deles, o quarto para a babá não tinha nem luz, a coitada tinha que se virar com um abajur velho. Baseado nisso, eu estava no paraíso com o meu quarto luxuoso. Não precisaria dividir nem mesmo o banheiro com outras pessoas. 

Usei o meu tempo livre para mandar uma mensagem para a minha mãe, dizendo que havia chegado bem e que já estava estabelecida na casa da família. Deixei bem claro para a dona Lúcia que, até então, eu não tinha cruzado com nenhum psicopata louco — e nem havia sido mandada para um bordel —, que ela e o meu pai podiam ficar tranquilos.

Também mandei uma mensagem para o grupo de babás da “Go Baby”. 

Quando ainda estava pesquisando — logo depois da minha mãe me assustar com inúmeras histórias bizarras envolvendo intercâmbios, relatos que pareciam terem sido extraídos de um site de lendas urbanas —, eu li que, a primeira coisa que devíamos fazer, era entrar em contato com outros brasileiros que estavam no programa; de preferência pessoas que estivessem na mesma cidade ou região em que estávamos. 

Nessas histórias com um péssimo final, algumas intercambistas haviam sido expulsas da casa onde trabalhavam e só não dormiram na rua porque tinham amigas para hospedá-las. 

E isso me fez pensar na possibilidade de precisar de ajuda. Dessa forma, assim que a minha viagem foi marcada pela agência, dei um jeito de entrar em um grupo virtual com outros integrantes do programa. 

“Então gente, eu cheguei há algumas horas e fui bem recebida pela minha nova família. Estou muito animada, meninas”. 

Depois de enviar essa mensagem, eu peguei o meu notebook e tentei escrever um pouco. 

Por mais que eu amasse dar aulas, o que eu mais gostava de fazer era escrever, e isso, de certa forma, acabou me levando a cursar Letras. Mas como viver de literatura era algo bem complicado no Brasil, eu acabei tendo que encontrar um “plano B”. E como sempre adorei crianças, a ideia de lecionar não me pareceu das piores. 

“Tudo o que ela mais queria — e precisava —, era de um recomeço, de uma fuga bem sucedida da sua problemática vida na capital”; eu escrevi, notando o quanto se encaixava perfeitamente na realidade em que me encontrava, ainda que eu fosse completamente diferente da minha protagonista. 

Após passar algumas horas dentro do quarto, achei melhor dar uma circulada. Falar com Daniela ou ver se as crianças já haviam chegado da escola. Por mais que eu só fosse iniciar o meu trabalho no dia seguinte, não me parecia uma boa ideia ficar trancada dentro do quarto, bancando a garota antissocial. 

Fechei o meu notebook, orgulhosa por ter escrito um capítulo inteiro do meu novo livro de caubói. 

Levantei-me da cama e caminhei até a porta, dizendo mentalmente: “seja legal, Lyara... Conquiste essas pessoas, garota”.

Viajando nos meus pensamentos — que ainda consistiam em agradar a família —, cruzei a porta de forma tão apressada e distraída, que nem percebi que alguém estava passando por ali ao mesmo tempo. 

O meu corpo colidiu contra o da outra pessoa. As minhas mãos foram parar em uma superfície dura, quente e suada. Demorou um tempinho para que eu percebesse que se tratava do peito de alguém — de um cara bem musculoso, diga-se de passagem. 

Voltei o meu olhar para cima, encarando um homem alto e loiro. Os olhos cinzentos dele fixaram-se em meu rosto, provavelmente estranhando aquele momento bizarro que estávamos tendo no corredor. 

Eu demorei mais alguns segundos para perceber que ainda estava com a minha mão direita em seu peito. 

Talvez, se ele estivesse usando uma camisa, a situação fosse menos constrangedora. Eu não tinha ideia, mas, naquele momento, parecia a porcaria de um filme de terror — um daqueles sexys, antes das pessoas começarem a morrer. 

Afastei a minha mão e dei um passo para trás, sussurrando um “desculpe” silencioso. 

Como eu me afastei um pouquinho, consegui observá-lo por completo e me perdi em seu corpo. Ele era grande — essa, definitivamente, era a palavra certa para descrevê-lo —, dono de coxas e braços grossos e com um abdome completamente definido, de tirar o fôlego. 

Se eu fosse chutar, diria que era o personal trainer deles. 

“Que saúde!” a minha mente gritou, quase me fazendo pronunciar isso em voz alta. 

Eu, que nunca fui chegada em caras bombados — secretamente, associava todos aqueles músculos com burrice —, estava atraída. 

— Você é a babá, não é? — indagou ele, tirando a minha atenção de seu peitoral suado e levando-a de volta ao seu rosto. 

O homem à minha frente pagou na mesma moeda que a minha, engolindo-me com os seus olhos claros penetrantes. E o olhar analítico dele deixou-me sem jeito, pois foi como se ele tivesse o poder de visão “Raio-X” e estivesse me vendo sem as roupas. 

Depois de um longe período em silêncio, balancei a minha cabeça, finalmente respondendo: — Sim, eu sou. 

Ele ficou parado, com uma expressão confusa e, só então, notei que havia respondido à sua

pergunta em português. 

Óbvio que ele não entenderia nada. 

Merda. 

Merda. 

Merda. 

Eu mal tinha chegado e já estava queimando o meu filme com as pessoas daquela casa. 

— Sim, eu sou a babá — tornei a falar, dessa vez em um idioma que ele compreendia. — Estendi a minha mão, tornando tudo ainda mais constrangedor. — Lyara. 

Ele a apertou. 

— Don — respondeu ele, ainda segurando a minha mão. — Don Trevellyan. “Don Trevellyan”. 

Em outras palavras, o meu chefe, um homem que eu imaginava possuir uns quarenta e cinco anos, completamente grisalho e flácido, que cheirava a tabaco e naftalina. 

Nesse instante, todo aquele encanto — e tesão — que eu estava sentindo por ele desapareceu. 

Tudo o que me restou, foi um enorme constrangimento. 

Eu sorri e tentei me afastar dele, mas o senhor Trevellyan foi na mesma direção que eu, fazendo com que eu me esbarrasse nele outra vez. Completamente nervosa, tentei a outra direção e, novamente, o meu chefe também optou por ela. 

— Eu acho melhor tentarmos um de cada vez — ele comentou, mantendo-se parado do lado direito do corredor. Ao notar que eu não daria o primeiro passo, Trevellyan estendeu o braço e prosseguiu: — Primeiro as babás. 

Sorri em agradecimento e finalmente consegui me afastar dele.

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