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Como eu nunca havia pisado em um avião antes — nem mesmo em voos para lugares próximos da cidade em que eu vivia no Brasil —, eu estava com um pouquinho de medo. 

Sempre que tentava imaginar, via aquelas cenas bobas e exageradas de filmes, em que o avião começa a balançar ao adentrar uma tempestade e as máscaras de oxigênio caem, apavorando todo mundo. A parte mais estranha — e estúpida — era que nessas possibilidades aterrorizantes, a minha maior preocupação não era acabar no fundo de um oceano ou explodir junto com o avião, mas de me apavorar a ponto de não conseguir colocar a porcaria da máscara de oxigênio e morrer asfixiada. 

Mas, no final, tudo ocorreu bem. Não houve nenhuma turbulência, tempestade ou máscaras caindo, nem qualquer outra coisa parecida que me desse motivo para ficar assustada. 

A viagem ocorreu de forma muito tranquila. Eu tirei a minha primeira foto na janelinha do avião, relaxei o corpo na minha poltrona e coloquei o meu fone de ouvido, tentando aproveitar ao máximo aquela nova experiência. E, estranhamente, acabei adormecendo, o que facilitou bastante as coisas. 

Acordei perto do horário da aterrissagem, o único momento em que eu realmente senti medo. Entretanto, assim que as rodas do avião colidiram contra a pista de pouso, tremendo toda a aeronave, o alívio percorreu o meu corpo e eu voltei a relaxar. 

Estava em terra firme. 

E, ao me dar conta disso, foi impossível controlar o sorriso que brotou em meus lábios. Tinha conseguido. 

Eu estava oficialmente nos Estados Unidos da América. 

Deixei de enrolar e fui para o desembarque, onde pegaria a minha mala e me encontraria com Daniela, a governanta que havia falado comigo, apresentado as crianças e comentado sobre como funcionaria o meu trabalho na casa do senhor Trevellyan. 

Assim que cheguei lá, notei que a tal da governanta não havia aparecido como combinamos e isso me deixou receosa, dando espaço para a voz de dona Lúcia ecoar em minha mente. 

“Você nunca ouviu falar em tráfico de mulheres, querida?” relembrei, temendo a possibilidade de cair em uma enrascada das grandes. 

Um homem engravatado segurava um papel com o meu nome escrito de forma errada. Tinha um “H” no “Lyara”. 

O meu inglês era fluente — e ótimo —, mas, por uma fração de segundos, eu me esqueci de tudo, até de como começar a falar. As palavras desapareceram da minha mente, como se eu não tivesse a capacidade de pronunciar um simples “olá”. 

Levantei a mão, chamando a atenção do cara baixinho. 

— Eu sou a Lyara — finalmente consegui dizer, antes de forçar um sorriso. — Do Go Baby. 

Ele retribuiu o sorriso, mas não disse nada, limitando-se a pegar a minha mala. Eu não recebi um “bem-vinda” ou “como foi a viagem, Lyara?” e nem nada parecido, simplesmente seguimos para o estacionamento. 

Por mais que ainda não tivesse visto o pai das crianças, eu sabia que não devia se tratar daquele cara. Se ele era tão ocupado a ponto de não conseguir falar comigo naquela conversa por vídeo, também não teria tempo para me buscar no aeroporto. Era uma questão de lógica. 

O homem moreno abriu a porta traseira do carro para mim, mostrando-me que devia ser o motorista da família ou algo bem próximo disso. 

Como andava no banco de trás somente em táxis, foi bem estranho ficar ali sozinha, enquanto o banco do carona estava vazio. E como eu sempre fui péssima em puxar assunto — até mesmo com pessoas que eu conhecia —, resolvi manter-me calada, preservando o meu inglês. 

Demoramos alguns minutos e, nesse meio tempo, eu não consegui controlar os meus olhos, que se perderam pelas ruas daquela linda cidade. Tudo parecia ser tão bonito e diferente, que me deixou extremamente animada para as memórias que eu construiria ali. 

Eu nunca fui uma brasileira com complexo de vira-lata — amava o Brasil com todo o meu coração —, mas o simples fato de saber que não conhecia ninguém naquele lugar, que tudo era novo, como uma página em branco, me deixava ansiosa para o meu recomeço. 

Quando o veículo parou, eu olhei pelo vidro do carro e encarei uma mansão que parecia pertencer a uma celebridade. No mesmo instante, voltei o meu olhar para o outro lado da rua, procurando por uma casa mais humilde, pois ainda não estava acreditando que trabalharia mesmo ali. 

Definitivamente, aquele não parecia o perfil de uma família que me contrataria. 

A minha dúvida foi respondida assim que o carro tornou a andar e entramos na propriedade, mostrando-me que não havia nenhum engano. Aquela seria mesmo a minha nova casa — a palavra “mansão” soava mais apropriada, devido à tamanha imponência do lugar. 

Era mesmo enorme, muito provavelmente a maior “casa” em que eu já havia estado; e eu ainda não tinha nem analisado o interior dela. 

Isso, entretanto, deixou-me em dúvida: não sabia se trabalhar para pessoas tão ricas era mesmo uma coisa boa. 

Antes de me acompanhar até a porta da mansão, o motorista abriu a porta do carro para mim, onde fomos recepcionados pela Daniela, a governanta com quem eu já tinha conversado algumas vezes. 

Com um vestido azul florido, ela parecia ainda mais bonita pessoalmente. Os seus olhos eram tão verdes quanto um par de esmeraldas e o cabelo dourado fazia com que o meu parecesse completamente desidratado, como um punhado de palha seca. 

— Bem-vinda, minha querida — ela disse com um sorriso gentil, instantes antes de me convidar para entrar. — Como foi de viagem? 

Cruzei a porta e forcei um sorriso, respondendo à pergunta: — Foi bem... — Os meus olhos correram pelo interior da casa e isso, por um curto instante, roubou todas as minhas palavras. Despertei-me do transe e completei a frase: — Bem tranquila. 

Eu não consegui disfarçar o quanto estava surpresa com todo aquele luxo. Nunca tinha visto uma casa tão linda antes — e nem tanto dinheiro sendo desperdiçado —, tinha até medo de me esbarrar em algum vazo e ter que trabalhar por dois anos inteiros sem receber para pagar pelo prejuízo. 

Depois de me dar boas-vindas à América do Norte uma vez mais, “Dani” — a forma com que ela me pediu para ser chamada —, apresentou-me a casa, fazendo-me perceber que era ainda mais incrível e grande do que eu havia pensado. 

Havia uma academia particular com mais aparelhos que a de perto da minha casa, uma piscina externa e outra interna, com água quente e alguns outros ambientes que só podiam ser usados pelo senhor Trevellyan e as crianças — ela fez questão de frisar isso sempre que passávamos por um deles.

E toda essa riqueza me fez questionar o óbvio — o porquê de eu estar ali. O dono daquela propriedade poderia contratar a pessoa mais qualificada do mundo para cuidar dos filhos dele, não havia nenhuma lógica chamar uma estranha do Brasil para isso. 

Por mais renomado mundialmente que o programa de intercâmbio “Go Baby” fosse, eu sabia que, na prática, ele servia apenas como uma forma de mão de obra barata para americanos. Oferecia babás bem abaixo do valor de mercado. E talvez fosse esse o único motivo para que alguns colocassem uma pessoa estrangeira dentro de suas casas — principalmente com a má fama que os Estados Unidos tinham perante os estrangeiros —, ainda que nunca não fossem  admitir isso. 

Depois de uma breve conversa com Dani, ficou acertado que eu usaria aquele dia para me estabelecer, arrumando todas as minhas coisas no quarto reservado para mim e, já no seguinte, começaria a trabalhar. 

Como as crianças ainda não haviam chegado da escola, eu também não consegui vê-las, mas aproveitei o tempo para conhecer o meu quarto. 

E, assim que empurrei a porta, o meu segundo medo foi descartado. 

O quarto era tão bonito quanto nas fotos que eu havia visto. 

Não se tratava de um quartinho nos fundos, em uma área reservada apenas para os empregados. O cômodo ficava no segundo andar da casa, próximo ao quarto das crianças — de acordo com Daniela. Era uma suíte, tinha uma cama de casal, um guarda-roupa grande, frigobar, mesa, poltrona e uma decoração muito bonita. 

Era mais luxuoso do que qualquer quarto de hotel em que eu já havia me hospedado. 

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