POV: HELENA A neblina de Lisboa subia preguiçosa sobre o Rio Tejo, mas da janela da nossa cobertura no Chiado, a vista parecia uma pintura a óleo que eu não tinha mais o direito de tocar. O sol de outono tentava romper as nuvens, refletindo-se nos azulejos do prédio vizinho, mas dentro de mim, o inverno já se tinha instalado há meses. Eu passei a manhã coordenando os detalhes da gala beneficente da Fundação Lacerda. Como esposa de Gustavo Lacerda, o homem que estava a reconstruir metade da zona portuária de Lisboa, o meu papel era ser a moldura perfeita para o seu quadro de sucesso. — Sra. Lacerda, os vinhos do Alentejo já chegaram para a prova — anunciou a governanta, interrompendo o meu silêncio. — Obrigada, Maria. Já desço — respondi, sem me desviar do espelho. Eu usava um conjunto de alfaiataria bege, impecável, mas excessivamente sóbrio. Gustavo dizia que Lisboa não era São Paulo; aqui, a elegância residia na discrição, no "velho dinheiro". Ele queria que eu parece
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