Mundo de ficçãoIniciar sessão(POV: GUSTAVO)
O vidro duplo do meu escritório na Avenida da Liberdade bloqueava o ruído dos elétricos e dos turistas que subiam em direção ao Marquês de Pombal, mas não conseguia silenciar a estática na minha própria mente. Eu tinha acabado de desligar uma chamada com os investidores de Singapura. Eles queriam garantias. Queriam ver a "solidez" da família Lacerda antes de libertarem os próximos cinquenta milhões de euros para o projeto das Docas. Solidez. Uma palavra irónica para quem vive num castelo de cartas. Ouvi o clique seco da porta. Não precisei de levantar os olhos para saber quem era. O perfume de Vanessa — algo que misturava especiarias e uma audácia que eu ainda não tinha conseguido domar — precedia a sua presença. Ela não era como a Helena, que entrava como uma brisa suave, pedindo desculpas por existir. Vanessa entrava como um exército de ocupação. — Você está com aquela cara de quem está a calcular quanto vale a cabeça de cada sócio, Gustavo — disse ela, atirando a sua mala de designer sobre a poltrona de pele. — O mercado está nervoso, Vanessa. E o Caio está a tornar-se um passivo que eu não posso mais carregar. Vanessa aproximou-se, sentando-se na borda da minha secretária de carvalho. Ela cruzou as pernas, a seda do vestido deslizando com um som que, em qualquer outro dia, seria o meu único foco. Mas hoje, a pressão nas minhas têmporas era maior que o meu desejo. — O Caio é um homem morto que se esqueceu de cair — ela sussurrou, inclinando-se para a frente. — O que me preocupa não é ele. É a sua "outra metade". A Helena tem estado muito ativa na fundação. Ela está a fazer perguntas sobre as transferências para a conta de consultoria em Malta. Senti um músculo no meu maxilar travar. — A Helena faz o que eu digo para ela fazer. Ela acredita na nossa fachada porque a alternativa seria admitir que a vida dela é um vazio dourado. Ela não é uma ameaça. — Não subestime uma mulher que foi educada para ser perfeita, Gustavo. A perfeição é apenas uma forma muito polida de esconder a fúria. Eu olhei para Vanessa. Ela era o meu braço direito, a mulher que conhecia os caminhos tortuosos que eu percorria para manter o império de pé. Ela era o oposto da lealdade cega; Vanessa era leal à oportunidade. E era exatamente por isso que eu confiava nela. No nosso mundo, a traição é previsível quando se conhece o preço de cada um. O problema é que o preço de Vanessa parecia estar a subir. — O que você quer, Vanessa? — perguntei, recostando-me na cadeira. — Eu quero o que me foi prometido. O lugar de direito. Cansei-me de ser a "consultora sigilosa" que você encontra em hotéis discretos em Sintra ou que entra por portas laterais. Quero que o projeto das Docas tenha a minha assinatura oficial. E quero que você comece a preparar o terreno para o que é inevitável. — O divórcio não é uma opção agora. Os bancos retirariam o apoio em vinte e quatro horas se a "Família Lacerda" se desintegrasse. Vanessa sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos. Era um brilho frio, de quem sabe algo que eu ainda ignorava. — Os bancos apoiam resultados, não certidões de casamento. Além disso, há coisas que nem o seu controlo de danos pode evitar. Fatos biológicos, por exemplo. Eu ia perguntar o que ela queria dizer com aquilo, mas o meu telemóvel vibrou. Uma notificação de segurança da recepção. Helena estava no edifício. — Você tem de sair. Agora — eu disse, a voz subitamente rouca. — Medo, Gustavo? — Ela levantou-se com uma elegância letal. — Não se preocupe. Vou sair pela garagem. Mas não se esqueça: quinta-feira, no lugar de sempre. E desta vez, não se atrase. Eu detesto esperar pelo que já é meu por direito. Ela saiu, deixando para trás o rasto do seu perfume e uma sensação de presságio que eu não conseguia sacudir. (POV: VANESSA) Saí do escritório dele sentindo o sangue pulsar nas minhas mãos. O Gustavo acha que me conhece. Ele acha que sou apenas mais uma peça que ele move no tabuleiro de Lisboa, uma ferramenta útil para os seus desvios financeiros e para os seus momentos de escape. Ele não percebe que eu já não estou a jogar o jogo dele. Estou a criar o meu próprio. Desci pelo elevador de serviço, evitando o átrio principal. Eu não tinha medo da Helena, mas a surpresa é uma arma que não se deve gastar antes do tempo. Vi, pelo reflexo do vidro da garagem, a silhueta dela a sair de um táxi na entrada principal. Ela levava um cesto de vime. Flores? Comida? Que patético. Helena Lacerda é uma pintura de museu: bonita de se ver, mas estática, presa num tempo que já não existe. Ela acredita que a lealdade é uma moeda de troca, que se ela for a esposa perfeita, o Gustavo acabará por "voltar" para ela. Ela não entende que o Gustavo nunca esteve lá. Ele nunca amou a Helena; ele amou o que a família dela representava para os negócios dele. Caminhei em direção ao meu carro, um descapotável que o próprio Gustavo tinha pago através de uma das empresas de fachada. Senti um leve enjoo, uma tontura que me obrigou a apoiar-me na porta por um segundo. Respirei fundo, a mão instintivamente descendo até o meu ventre ainda liso. Fatos biológicos. O Gustavo acha que pode planear cada detalhe da sua sucessão. Ele acha que pode controlar quem herda o nome Lacerda. Mas a natureza não obedece a contratos assinados com caneta de ouro. Eu tenho o que a Helena nunca conseguiu dar-lhe, ou o que ele nunca quis dela. Eu tenho a continuidade. Eu sei que o Caio está a afundar-se e que a Marina está a um passo de descobrir que o marido é um viciado em jogo. Sei que o Diego, aquele advogado com cara de santo, guarda segredos que poderiam fazer Lisboa arder. Todos eles estão agarrados a tábuas de salvação que já estão a apodrecer. Eu sou a única que está a construir um barco novo. Conduzi em direção ao Guincho, precisando de ver o mar. Enquanto acelerava pela Marginal, via as ondas do Atlântico a baterem com força contra as rochas de Cascais. Lisboa é uma cidade de fachadas, de azulejos bonitos que escondem paredes húmidas e a cair. O casamento do Gustavo é exatamente assim. Ele acha que a nossa risada no escritório hoje foi um sinal de que tudo continua sob o seu comando. Ele não percebeu que aquela risada era de triunfo. O meu triunfo. Quando a Helena ouvir o que eu tenho para dizer — e ela vai ouvir, no momento em que for mais conveniente para mim — as flores que ela levou hoje vão ser o menor dos seus problemas. Eu não sou uma amante que se contenta com as sobras. Eu sou a mulher que vai herdar o banquete. E se para isso eu tiver de ver a Helena ser destruída, que seja. No mundo que o Gustavo construiu, só sobrevive quem não tem medo de se sujar. Coloquei os meus óculos escuros, sentindo o vento de Cascais a chicotear o meu rosto. A quinta-feira estava a chegar. E, no "lugar de sempre", o Gustavo ia descobrir que a sua consultora preferida tinha acabado de apresentar a conta final. E o preço não era em euros; era em sangue, nome e destino.






