Mundo de ficçãoIniciar sessãoPara o mundo, Helena Lacerda era apenas a vitrine perfeita de um casamento de elite. Silenciosa, elegante e submissa, ela observava enquanto seu marido, Gustavo, e seu sócio, Diego, construíam um império de mentiras e traições. O que eles não sabiam é que Helena não estava apenas observando; ela estava calculando cada erro, cada desvio e cada fraqueza. Quando a traição de Gustavo com a ambiciosa Vanessa ameaça tudo, Helena decide que é hora de parar de ser o troféu e começar a ser a jogadora. Em um jogo perigoso que envolve a máfia de Macau, espionagem industrial e um desejo sombrio que renasce entre as cinzas do seu casamento, ela mostrará que a vingança é um prato que se serve com inteligência, poder e uma frieza letal. Eles achavam que ela era inofensiva. Agora, eles terão que se ajoelhar diante da nova dona do jogo.
Ler maisPOV: HELENA
O relógio de carrilhão no hall de entrada bateu sete horas. Eu tinha exatamente sessenta minutos antes que Gustavo cruzasse a porta. Para muitos, uma hora é tempo de sobra; para mim, era o tempo necessário para montar o palco de uma peça que nunca recebia aplausos. Ajeitei os arranjos de lírios brancos na mesa de jantar. Gustavo detestava rosas — dizia que eram clichês e dramáticas demais. Ele preferia a assepsia dos lírios, o cheiro de limpeza que não exigia emoção. Eu mesma tinha escolhido o cardápio: filé ao poivre com risoto de aspargos. O prato favorito dele desde que éramos apenas dois herdeiros prometidos em um noivado de negócios. Subi para o quarto e encarei meu reflexo. Eu não era uma mulher feia; pelo contrário, os jornais de Lisboa costumavam me chamar de "a joia da sociedade". Mas, olhando para o espelho, eu só via as rachaduras. Escolhi um vestido de seda azul marinho, discreto e caro. Borrifei o perfume que ele me deu no último aniversário — um aroma amadeirado que ele considerava "respeitável". Eu ainda gostava dele. Era um gosto doloroso, nutrido pelas lembranças de quando éramos mais jovens e ele, pelo menos, sorria quando eu entrava na sala. Eu acreditava que, se eu fosse perfeita o suficiente, se a casa estivesse impecável e eu fosse a esposa troféu que os negócios dele exigiam, ele voltaria a me enxergar. Ouvi o som do portão eletrônico. Meu coração, pateticamente, acelerou. Desci as escadas a tempo de vê-lo entregar a pasta para o mordomo. Gustavo estava impecável, nem um fio de cabelo fora do lugar, mas seus olhos estavam fixos no celular. — Oi, querido. O jantar está pronto — eu disse, aproximando-me para um beijo no rosto. Ele inclinou a cabeça o mínimo necessário para que meus lábios tocassem o ar perto de sua orelha. O cheiro de escritório e café gelado emanava dele. — Não posso demorar, Helena. Tenho uma conferência com os investidores de Dubai às nove — ele disse, sem olhar para mim. — E por que essa mesa está tão cheia de flores? Parece um velório. Senti a primeira pontada no peito. O esforço de passar a tarde escolhendo os lírios foi descartado em uma frase. — Achei que traria um pouco de vida para a sala. Fiz o risoto que você gosta. Ele finalmente guardou o celular no bolso do paletó e me encarou. Sua expressão não era de raiva, era pior: era de tédio. — Helena, eu pago um chef internacional para a nossa cozinha para que você não precise se preocupar com o fogão. Se eu quisesse um jantar caseiro, teria ficado na fazenda do meu pai. Use seu tempo para algo mais produtivo, como organizar o leilão beneficente de sábado. A aparência da nossa fundação é o que importa agora. Ele passou por mim, subindo as escadas para se trocar. Eu fiquei ali, parada entre os lírios brancos, sentindo o calor do risoto na cozinha tornar-se um peso morto. Eu era a "joia da sociedade", mas naquela casa, eu era apenas parte da mobília. Uma peça cara, bem polida, mas que ele não se daria ao trabalho de limpar se pegasse poeira. Respirei fundo, engolindo a vontade de gritar. Peguei meu celular e vi uma notificação no I*******m. Uma foto de Marina e Caio em um evento, sorridentes. "O casal do ano", dizia a legenda. Sorri amargamente. Se as pessoas soubessem que os sorrisos eram apenas porcelana prestes a quebrar. Sentei-me à mesa sozinha, o silêncio da mansão sendo interrompido apenas pelo som do meu garfo batendo no prato de cristal. Eu ainda tentava agradar. Eu ainda era fiel. Mas, pela primeira vez, o silêncio daquela casa começou a parecer uma sentença de prisão perpétua. POV: GUSTAVO A água quente do chuveiro batia nos meus ombros, mas não conseguia relaxar a tensão acumulada. O fechamento da compra da nova área Portuária estava me custando noites de sono. Eu não tinha tempo para sutilezas. Quando desci, Helena ainda estava sentada à mesa. Ela tinha aquela expressão de expectativa no rosto, algo que me irritava profundamente. Ela queria conexão, queria conversas sobre o dia, queria... amor. Eu não tinha espaço para amor no meu balanço financeiro. — O vinho está bom? — ela perguntou, tentando puxar assunto. — É um Bordeaux 2015, Helena. É claro que está bom. Eu mesmo escolhi a adega — respondi, cortando a carne com precisão cirúrgica. — Falou com a Marina hoje? — Mandei mensagem. Ela parece ocupada com a reforma da cobertura. — Mantenha-a por perto — eu disse, apontando o garfo para ela. — O Caio está passando por uma fase instável na empresa. Preciso que você saiba de tudo o que acontece naquela casa. Se eles caírem, não quero que nos puxem junto. Helena baixou os olhos para o prato. — Às vezes parece que nossa amizade com eles é apenas estratégica, Gustavo. — E o que neste mundo não é estratégica, Helena? — Deixei o garfo de lado e a encarei seriamente. — Nosso casamento foi uma estratégia. Sua vida confortável é uma estratégia. Pare de ser sentimental. Isso não combina com o sobrenome que você carrega. Terminei meu vinho em um gole só. O celular vibrou no bolso. Uma mensagem de Vanessa: "A saudade está ficando cara, doutor. Quando vem pagar a conta?" Senti um canto da boca se elevar. Aquilo era simples. Sem cobranças de "como foi seu dia", sem olhares de carência, sem lírios brancos. Apenas transação e prazer. — Vou para o escritório — anunciei, levantando-me. — Não me espere acordada. E peça para a empregada tirar essas flores amanhã. O cheiro me dá dor de cabeça. Saí da sala sem olhar para trás. Eu sabia que Helena ficaria ali, chorando silenciosamente ou bebendo o resto da garrafa. Ela era previsível. E a previsibilidade era a única coisa que eu ainda suportava nela.POV: HELENA O teto de vidro do átrio principal da Holding Lacerda parecia refletir a luz de uma nova era naquela quarta-feira de manhã. Assim que os meus saltos de verniz tocaram o mármore italiano da entrada, o burburinho nos corredores cessou. Os funcionários alinharam-se instintivamente, abrindo caminho com uma mistura de respeito e puro temor reverencial. Eles sabiam o que tinha acontecido no Palácio de Queluz. Sabiam que os Vasconcelos tinham sido engolidos vivos. E agora, a Arquiteta estava de volta ao escritório. Vestia um terninho de alfaiataria sob medida em tom azul-marinho profundo. O caimento era impecável, limpo e imponente. Mas o acessório mais importante daquele visual era invisível para o mercado de ações. Na lateral direita da minha cintura, perfeitamente dissimulada sob o corte estruturado do blazer, a Glock 43X preta exercia uma pressão discreta, fria e confortável contra a minha pele. Cada passo que eu dava no corredor em direção à sala da presidência vinh
POV: HELENAO som do estetoscópio sendo guardado na maleta de couro do Dr. Albuquerque foi o sinal definitivo de que o meu confinamento de luxo tinha chegado ao fim. Era terça-feira de manhã. A luz do sol cortava os janelões da suíte master da mansão do Chiado, mas a minha mente estava a quilômetros dali, monitorando o silêncio suspeito que vinha de Tires.— Tudo perfeito, Helena — o médico sorriu, anotando os índices no tablet hospitalar. — Os exames de sangue estão impecáveis, os batimentos do herdeiro estão fortes e o hematoma subcoriônico foi completamente absorvido. Você está oficialmente fora de risco. Pode voltar à sua rotina na Holding e às suas atividades normais. Só não abuse do estresse tático.— O estresse tático é o que me mantém viva, Doutor — respondi, fechando o meu robe de seda branca e descendo da cama com a postura ereta e firme de sempre.Assim que o Dr. Albuquerque foi escoltado pela segurança até a saída, Gustavo entrou no quarto. Ele vestia uma calça tática
POV: VANESSAA segunda-feira chegou com o peso de uma sentença de morte. A iluminação do pavilhão de isolamento estava oscilando, um sinal claro de que o "blackout de manutenção" que o Santos prometera tinha começado. O zumbido elétrico dos circuitos de segurança cortava o silêncio da galeria, criando uma atmosfera estática, sufocante.Eu estava sentada no beliche frio, os meus olhos fixos na porta de ferro da cela 4. Cada minuto parecia uma hora. A minha mente, ainda ancorada na vida de privilégios que eu tinha com Gustavo, lutava contra a realidade da minha situação atual. Eu era a ex-esposa do homem mais poderoso de Lisboa, uma mulher que comandou frotas inteiras de logística, e agora eu estava aqui, reduzida a um número, esperando que um guarda de prisão corrupto viesse cobrar o seu preço.O som metálico da chave girando na fechadura da galeria fez o meu estômago dar um nó. O Santos não usou a entrada principal. Ele veio pelos fundos, pelas sombras do corredor de serviço onde
POV: MARINA As telas da sala de reuniões da Holding Lacerda ainda piscavam com os gráficos de fechamento da noite anterior, mas o cenário de hoje era de pura execução. Eram 08:30 da manhã e o cheiro de café expresso forte dominava o ambiente. Na mesa de jacarandá, a pasta de couro preta com os ativos liquidados do grupo Vasconcelos estava aberta. O Eduardo Vasconcelos passou os últimos dez anos tentando me subestimar nos corredores da Bolsa de Lisboa, mas hoje ele nem sequer conseguiu me olhar nos olhos quando entrou para assinar a transição compulsória. — O volume de transferência está em 42%, Marina — Caio disse da ponta da mesa, o notebook tático conectado direto à rede de Frankfurt. — O firewall deles tentou bloquear a migração das patentes de logística na última hora, mas eu usei o mesmo protocolo de backdoor que nós desenvolvemos na crise. Eles estão completamente desarmados. — Excelente, Caio — respondi, assinando a última via digital do termo de transição. — A Helena
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