Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV: HELENA
Eu saí daquele prédio como se estivesse atravessando uma zona de guerra em silêncio. Meus pés, em seus scarpins de sola vermelha, pareciam não tocar o chão da calçada da Avenida da Liberdade. O ar de Lisboa, que sempre me pareceu tão leve e aristocrático, agora entrava nos meus pulmões como se fosse feito de vidro moído. Eu ainda carregava o cesto. Aquele maldito cesto de vime com as flores que eu mesma escolhera, com o queijo que ele gostava e a garrafa de vinho que celebraria nada além da minha própria estupidez. Eu parecia uma personagem de um conto de fadas que se perdeu e foi parar num filme de terror. Parei junto a uma árvore antiga, sentindo minhas pernas fraquejarem. As risadas de Gustavo e daquela mulher — Vanessa — ainda ecoavam na minha cabeça, sobrepondo-se ao barulho dos carros e ao falatório dos turistas. Não era apenas o fato de ele ter uma amante. No nosso círculo, eu sempre soube que isso era uma possibilidade sombria. O que me destruiu foi a intimidade. O tom de voz. A cumplicidade que ele nunca teve comigo. Com as mãos tremendo, peguei o celular na bolsa. Eu não podia ligar para a minha mãe — ela me diria para ignorar e manter as aparências. Não podia ligar para o Diego — ele era o braço direito do meu marido. Disquei o número da Marina. — Marina? — Minha voz saiu tão baixa que eu mal a reconheci. — Helena? O que foi? Você está com uma voz estranha... — Eu ouvi, Marina. Eu estava lá. Eu fui fazer uma surpresa no escritório e... eu ouvi tudo. Houve um silêncio pesado do outro lado da linha. Um silêncio que me disse, em segundos, que eu era a última pessoa em Portugal a saber da minha própria desgraça. — Onde você está agora? — Marina perguntou, o tom subitamente prático e preocupado. — Estou na Avenida da Liberdade. Perto da banca de jornais... eu não consigo caminhar, Marina. Minhas pernas não obedecem. — Não saia daí. Fica exatamente onde você está. Eu vou pegar o carro e chego em dez minutos. Desliguei. O celular escorregou da minha mão para dentro do cesto, pousando sobre as flores murchas. Olhei para as vitrines de luxo ao meu redor. Tudo o que eu via eram fachadas. A loja da Louis Vuitton, a Prada, os hotéis cinco estrelas... tudo era apenas uma camada fina de verniz escondendo a realidade. Assim como eu. Eu era a vitrine mais cara daquela avenida, e agora alguém tinha jogado uma pedra no vidro. Sentei-me em um dos bancos de pedra. O sol de Lisboa brilhava intensamente, indiferente à minha ruína. Eu me sentia patética. Uma mulher de trinta e poucos anos, com acesso a contas bancárias ilimitadas, mas que não tinha um lugar para onde ir onde não fosse "a esposa de Gustavo Lacerda". — Senhora? A senhora está bem? — Um rapaz que passava com uma mochila nas costas parou, preocupado. — Estou — menti, forçando o sorriso de porcelana que eu treinara a vida inteira. — Só estou esperando uma amiga. O sol está um pouco forte. Ele assentiu, incerto, e seguiu caminho. Eu voltei a mergulhar nos meus pensamentos. Vanessa. Quem era ela? Marina sabia. Diego provavelmente sabia até o tipo de café que ela tomava. E eu? Eu era a fiel. Eu era a que tentava agradar. Eu era a que passava as noites esperando o som da chave na fechadura, rezando para que ele estivesse apenas cansado. Dez minutos depois, o SUV de Marina parou bruscamente junto ao meio-fio. Ela nem esperou o manobrista ou o sinal. Saltou do carro e veio em minha direção, os olhos fixos nos meus. Marina não disse nada de imediato. Ela apenas tirou o cesto das minhas mãos e o colocou no banco de trás do carro. Depois, ela me abraçou. Foi naquele abraço, no meio da avenida mais movimentada de Lisboa, que eu finalmente quebrei. Não chorei com soluços, mas as lágrimas escorreram quentes e silenciosas, manchando a seda do meu vestido. — Vamos sair daqui — Marina sussurrou. — Vamos para um lugar onde ninguém conheça os nossos sobrenomes. Entramos no carro. O ar-condicionado estava no máximo, mas eu ainda sentia calor. Marina dirigia com uma determinação que eu nunca tinha visto nela. Ela não foi para Cascais, nem para a minha cobertura no Chiado. Ela dirigiu em direção a Alfama, estacionando em um beco estreito onde os carros mal passavam. — Por que estamos aqui? — perguntei, limpando o rosto com um lenço. — Porque aqui ninguém se importa com quem é o CEO do ano, Helena. Aqui, somos apenas duas mulheres tomando um café ruim em um balcão qualquer. Descemos e entramos em uma pequena tasca de esquina. O cheiro de bacalhau e azeite era forte. Sentamos em uma mesa de madeira gasta, longe da janela. — Marina, você sabia, não sabia? — Fui direto ao ponto. Meus olhos agora estavam secos, mas queimavam. Marina olhou para as próprias mãos, onde o anel de casamento dela também brilhava, uma algema de ouro idêntica à minha. — Eu ouvi rumores, Helena. No clube, nos jantares... Mas o Gustavo sempre foi tão cuidadoso. Ninguém tinha provas. E eu... eu queria acreditar que era apenas inveja das pessoas. Vocês pareciam tão... sólidos. — Sólidos — repeti a palavra com nojo. — Somos uma mentira, Marina. Eu passei anos sendo a bússola dele, tentando mantê-lo no trilho, tentando ser a mulher que ele queria que eu fosse. E ele estava rindo dela no escritório. Ele a chamou para o "lugar de sempre". — Eu sei quem ela é — Marina disse, baixinho. — O nome dela é Vanessa. Ela é uma consultora de riscos que ele contratou há dois anos. Ela está em todas as viagens internacionais. — Dois anos? — O número me atingiu como um soco. — Eu perdi dois anos da minha vida sendo fiel a um fantasma? — Helena, escute. Eu também não estou em uma posição muito melhor. O Caio está destruindo as nossas finanças. Estamos todos vivendo em castelos de areia. Mas você... você é diferente. Você tem a fundação no seu nome. Você tem o respeito dos acionistas. O Gustavo precisa da sua imagem para manter o império de pé. Olhei para Marina. Pela primeira vez, não vi apenas a minha amiga socialite. Vi uma aliada de guerra. — O que você está sugerindo? — perguntei. — Que você não dê a ele o que ele espera. Ele espera que você chore, que faça um escândalo e que depois aceite um colar de diamantes como pedido de desculpas para manter as aparências. É o que todas fazem. Mas você não é todas, Helena. — Eu não vou trair ele, Marina — eu disse, com firmeza. — Eu não vou me rebaixar ao nível dele. — Eu sei que não. Mas ser fiel não significa ser cega. E não significa ser vítima. Se ele quer jogar com a Vanessa, deixe-o jogar. Mas enquanto ele se distrai com ela, você vai retomar o controle da sua vida. Vamos descobrir o que essa mulher realmente quer. Porque eu garanto a você: mulheres como a Vanessa não querem apenas o marido de alguém. Elas querem o império. Bebi um gole da água que o garçom trouxe. O gosto era metálico. Olhei para a rua estreita de Alfama, onde uma vizinha estendia roupa no varal, alheia ao meu drama. — Ele acha que eu sou fraca — eu disse, sentindo uma nova força, fria e cortante, nascer dentro de mim. — Ele acha que eu sou apenas a "doce Helena" que escolhe flores e organiza jantares. — Então mostre a ele que a doce Helena sabe como podar um jardim — Marina disse, apertando a minha mão. — Começando pelas ervas daninhas. Saímos da tasca. O sol já estava começando a baixar, pintando o céu de Lisboa com tons de laranja e violeta. Eu não era mais a mesma mulher que tinha saído de casa naquela manhã. A lealdade que eu tanto prezava ainda estava lá, mas agora ela era para mim mesma. Gustavo Lacerda achava que tinha o controle de tudo. Ele achava que eu ficaria em casa, esperando por ele, com o jantar pronto e o perdão nos olhos. Ele estava muito enganado. A peça de teatro ainda não tinha acabado, mas eu tinha acabado de decidir que não seria mais a coadjuvante. — Me leve para casa, Marina — eu disse, ao entrar no carro. — Tenho um jantar para organizar. E desta vez, eu vou escolher o cardápio com muito cuidado. Eu não ia quebrar o meu casamento hoje. Eu ia fazer algo muito pior: eu ia dar ao Gustavo exatamente o que ele queria — o meu silêncio — até que eu estivesse pronta para tirar dele a única coisa que ele realmente amava. O poder. Lisboa continuava linda lá fora, mas agora, eu via as sombras entre os prédios. E eu estava aprendendo a caminhar nelas.






