Capítulo 6

​POV: HELENA

​Eu saí daquele prédio como se estivesse atravessando uma zona de guerra em silêncio. Meus pés, em seus scarpins de sola vermelha, pareciam não tocar o chão da calçada da Avenida da Liberdade. O ar de Lisboa, que sempre me pareceu tão leve e aristocrático, agora entrava nos meus pulmões como se fosse feito de vidro moído.

​Eu ainda carregava o cesto. Aquele maldito cesto de vime com as flores que eu mesma escolhera, com o queijo que ele gostava e a garrafa de vinho que celebraria nada além da minha própria estupidez. Eu parecia uma personagem de um conto de fadas que se perdeu e foi parar num filme de terror.

​Parei junto a uma árvore antiga, sentindo minhas pernas fraquejarem. As risadas de Gustavo e daquela mulher — Vanessa — ainda ecoavam na minha cabeça, sobrepondo-se ao barulho dos carros e ao falatório dos turistas. Não era apenas o fato de ele ter uma amante. No nosso círculo, eu sempre soube que isso era uma possibilidade sombria. O que me destruiu foi a intimidade. O tom de voz. A cumplicidade que ele nunca teve comigo.

​Com as mãos tremendo, peguei o celular na bolsa. Eu não podia ligar para a minha mãe — ela me diria para ignorar e manter as aparências. Não podia ligar para o Diego — ele era o braço direito do meu marido.

​Disquei o número da Marina.

​— Marina? — Minha voz saiu tão baixa que eu mal a reconheci.

​— Helena? O que foi? Você está com uma voz estranha...

​— Eu ouvi, Marina. Eu estava lá. Eu fui fazer uma surpresa no escritório e... eu ouvi tudo.

​Houve um silêncio pesado do outro lado da linha. Um silêncio que me disse, em segundos, que eu era a última pessoa em Portugal a saber da minha própria desgraça.

​— Onde você está agora? — Marina perguntou, o tom subitamente prático e preocupado.

​— Estou na Avenida da Liberdade. Perto da banca de jornais... eu não consigo caminhar, Marina. Minhas pernas não obedecem.

​— Não saia daí. Fica exatamente onde você está. Eu vou pegar o carro e chego em dez minutos.

​Desliguei. O celular escorregou da minha mão para dentro do cesto, pousando sobre as flores murchas. Olhei para as vitrines de luxo ao meu redor. Tudo o que eu via eram fachadas. A loja da Louis Vuitton, a Prada, os hotéis cinco estrelas... tudo era apenas uma camada fina de verniz escondendo a realidade. Assim como eu. Eu era a vitrine mais cara daquela avenida, e agora alguém tinha jogado uma pedra no vidro.

​Sentei-me em um dos bancos de pedra. O sol de Lisboa brilhava intensamente, indiferente à minha ruína. Eu me sentia patética. Uma mulher de trinta e poucos anos, com acesso a contas bancárias ilimitadas, mas que não tinha um lugar para onde ir onde não fosse "a esposa de Gustavo Lacerda".

​— Senhora? A senhora está bem? — Um rapaz que passava com uma mochila nas costas parou, preocupado.

​— Estou — menti, forçando o sorriso de porcelana que eu treinara a vida inteira. — Só estou esperando uma amiga. O sol está um pouco forte.

​Ele assentiu, incerto, e seguiu caminho. Eu voltei a mergulhar nos meus pensamentos. Vanessa. Quem era ela? Marina sabia. Diego provavelmente sabia até o tipo de café que ela tomava. E eu? Eu era a fiel. Eu era a que tentava agradar. Eu era a que passava as noites esperando o som da chave na fechadura, rezando para que ele estivesse apenas cansado.

​Dez minutos depois, o SUV de Marina parou bruscamente junto ao meio-fio. Ela nem esperou o manobrista ou o sinal. Saltou do carro e veio em minha direção, os olhos fixos nos meus. Marina não disse nada de imediato. Ela apenas tirou o cesto das minhas mãos e o colocou no banco de trás do carro. Depois, ela me abraçou.

​Foi naquele abraço, no meio da avenida mais movimentada de Lisboa, que eu finalmente quebrei. Não chorei com soluços, mas as lágrimas escorreram quentes e silenciosas, manchando a seda do meu vestido.

​— Vamos sair daqui — Marina sussurrou. — Vamos para um lugar onde ninguém conheça os nossos sobrenomes.

​Entramos no carro. O ar-condicionado estava no máximo, mas eu ainda sentia calor. Marina dirigia com uma determinação que eu nunca tinha visto nela. Ela não foi para Cascais, nem para a minha cobertura no Chiado. Ela dirigiu em direção a Alfama, estacionando em um beco estreito onde os carros mal passavam.

​— Por que estamos aqui? — perguntei, limpando o rosto com um lenço.

​— Porque aqui ninguém se importa com quem é o CEO do ano, Helena. Aqui, somos apenas duas mulheres tomando um café ruim em um balcão qualquer.

​Descemos e entramos em uma pequena tasca de esquina. O cheiro de bacalhau e azeite era forte. Sentamos em uma mesa de madeira gasta, longe da janela.

​— Marina, você sabia, não sabia? — Fui direto ao ponto. Meus olhos agora estavam secos, mas queimavam.

​Marina olhou para as próprias mãos, onde o anel de casamento dela também brilhava, uma algema de ouro idêntica à minha.

​— Eu ouvi rumores, Helena. No clube, nos jantares... Mas o Gustavo sempre foi tão cuidadoso. Ninguém tinha provas. E eu... eu queria acreditar que era apenas inveja das pessoas. Vocês pareciam tão... sólidos.

​— Sólidos — repeti a palavra com nojo. — Somos uma mentira, Marina. Eu passei anos sendo a bússola dele, tentando mantê-lo no trilho, tentando ser a mulher que ele queria que eu fosse. E ele estava rindo dela no escritório. Ele a chamou para o "lugar de sempre".

​— Eu sei quem ela é — Marina disse, baixinho. — O nome dela é Vanessa. Ela é uma consultora de riscos que ele contratou há dois anos. Ela está em todas as viagens internacionais.

​— Dois anos? — O número me atingiu como um soco. — Eu perdi dois anos da minha vida sendo fiel a um fantasma?

​— Helena, escute. Eu também não estou em uma posição muito melhor. O Caio está destruindo as nossas finanças. Estamos todos vivendo em castelos de areia. Mas você... você é diferente. Você tem a fundação no seu nome. Você tem o respeito dos acionistas. O Gustavo precisa da sua imagem para manter o império de pé.

​Olhei para Marina. Pela primeira vez, não vi apenas a minha amiga socialite. Vi uma aliada de guerra.

​— O que você está sugerindo? — perguntei.

​— Que você não dê a ele o que ele espera. Ele espera que você chore, que faça um escândalo e que depois aceite um colar de diamantes como pedido de desculpas para manter as aparências. É o que todas fazem. Mas você não é todas, Helena.

​— Eu não vou trair ele, Marina — eu disse, com firmeza. — Eu não vou me rebaixar ao nível dele.

​— Eu sei que não. Mas ser fiel não significa ser cega. E não significa ser vítima. Se ele quer jogar com a Vanessa, deixe-o jogar. Mas enquanto ele se distrai com ela, você vai retomar o controle da sua vida. Vamos descobrir o que essa mulher realmente quer. Porque eu garanto a você: mulheres como a Vanessa não querem apenas o marido de alguém. Elas querem o império.

​Bebi um gole da água que o garçom trouxe. O gosto era metálico. Olhei para a rua estreita de Alfama, onde uma vizinha estendia roupa no varal, alheia ao meu drama.

​— Ele acha que eu sou fraca — eu disse, sentindo uma nova força, fria e cortante, nascer dentro de mim. — Ele acha que eu sou apenas a "doce Helena" que escolhe flores e organiza jantares.

​— Então mostre a ele que a doce Helena sabe como podar um jardim — Marina disse, apertando a minha mão. — Começando pelas ervas daninhas.

​Saímos da tasca. O sol já estava começando a baixar, pintando o céu de Lisboa com tons de laranja e violeta. Eu não era mais a mesma mulher que tinha saído de casa naquela manhã. A lealdade que eu tanto prezava ainda estava lá, mas agora ela era para mim mesma.

​Gustavo Lacerda achava que tinha o controle de tudo. Ele achava que eu ficaria em casa, esperando por ele, com o jantar pronto e o perdão nos olhos.

​Ele estava muito enganado. A peça de teatro ainda não tinha acabado, mas eu tinha acabado de decidir que não seria mais a coadjuvante.

​— Me leve para casa, Marina — eu disse, ao entrar no carro. — Tenho um jantar para organizar. E desta vez, eu vou escolher o cardápio com muito cuidado.

​Eu não ia quebrar o meu casamento hoje. Eu ia fazer algo muito pior: eu ia dar ao Gustavo exatamente o que ele queria — o meu silêncio — até que eu estivesse pronta para tirar dele a única coisa que ele realmente amava. O poder.

​Lisboa continuava linda lá fora, mas agora, eu via as sombras entre os prédios. E eu estava aprendendo a caminhar nelas.

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