Capítulo 2

POV: HELENA

​A neblina de Lisboa subia preguiçosa sobre o Rio Tejo, mas da janela da nossa cobertura no Chiado, a vista parecia uma pintura a óleo que eu não tinha mais o direito de tocar. O sol de outono tentava romper as nuvens, refletindo-se nos azulejos do prédio vizinho, mas dentro de mim, o inverno já se tinha instalado há meses.

​Eu passei a manhã coordenando os detalhes da gala beneficente da Fundação Lacerda. Como esposa de Gustavo Lacerda, o homem que estava a reconstruir metade da zona portuária de Lisboa, o meu papel era ser a moldura perfeita para o seu quadro de sucesso.

​— Sra. Lacerda, os vinhos do Alentejo já chegaram para a prova — anunciou a governanta, interrompendo o meu silêncio.

​— Obrigada, Maria. Já desço — respondi, sem me desviar do espelho.

​Eu usava um conjunto de alfaiataria bege, impecável, mas excessivamente sóbrio. Gustavo dizia que Lisboa não era São Paulo; aqui, a elegância residia na discrição, no "velho dinheiro". Ele queria que eu parecesse uma aristocrata, não uma modelo. Eu sentia que, a cada dia, ele tentava apagar um pouco mais das minhas cores para que eu não ofuscasse a sua presença.

​O meu telemóvel vibrou. Era uma mensagem de Marina.

​“Helena, estás pronta para o circo de hoje à noite? O Caio está com um humor de cão por causa das ações da construtora. Diz-me que haverá champanhe suficiente para nos anestesiar.”

​Sorri com amargura. Pelo menos Marina era honesta sobre a nossa miséria. Respondi rapidamente, tentando manter a fachada até com a minha melhor amiga: “Sempre há champanhe, Marina. E sorrisos de porcelana também. Vemo-nos na Quinta.”

​Passei a tarde entre listas de convidados e fornecedores. Eu gostava de Gustavo, ou pelo menos, da ideia do homem que ele fora quando nos mudámos para Portugal. No início, havia uma promessa de uma vida nova, longe das pressões das nossas famílias. Mas Lisboa apenas mudou o cenário; a peça de teatro continuava a mesma.

​Quando Gustavo chegou a casa, o sol já se tinha posto. Ele entrou no escritório sem me saudar, a voz alta enquanto discutia prazos com alguém ao telemóvel em inglês. Esperei à porta, com um copo de água e o seu remédio para a azia — um pequeno gesto de cuidado que ele costumava ignorar, mas que eu insistia em manter. Era a minha forma de dizer: eu ainda estou aqui.

​— Gustavo? — chamei baixinho, quando ele desligou.

​— O quê? — Ele olhou para mim como se eu fosse um e-mail indesejado. — Já estás pronta? Temos de sair em quinze minutos. O embaixador não gosta de atrasos.

​— Estás cansado? Posso pedir para cancelarem a nossa entrada triunfal e irmos mais tarde…

​— Não sejas ridícula, Helena — ele cortou, tirando o relógio de pulso para o trocar por um Patek Philippe. — Este evento é sobre a minha imagem. A tua função é estar ao meu lado e garantir que a mulher do embaixador faça a doação que prometeu. Consegues fazer isso ou vais passar a noite a reclamar de cansaço?

​Aquelas palavras foram como pequenas bofetadas. Eu não estava cansada fisicamente; estava exausta de ser tratada como uma assistente de luxo.

​— Só me preocupo contigo, Gustavo. Mal jantaste ontem.

​Ele deu um passo na minha direção, mas não para me abraçar. Ele apenas ajustou o meu colar, apertando-o um pouco mais do que o necessário contra a minha garganta.

​— Se te preocupas comigo, garante que tudo corra bem hoje. O resto… o resto é ruído.

​O trajeto até Cascais foi feito em silêncio absoluto. O motorista conduzia o Mercedes preto com uma perícia silenciosa, enquanto Gustavo revia documentos no tablet. Eu olhava pela janela para a Marginal, vendo as luzes de Carcavelos passarem num borrão. Eu sentia-me como aquelas mansões antigas que víamos pelo caminho: grandiosas por fora, mas com as fundações a desfazerem-se com a maresia.

​Ao chegarmos à Quinta da Marinha, as luzes dos flashes começaram. Gustavo mudou instantaneamente. O homem frio e apático deu lugar ao CEO carismático. Ele colocou a mão possessivamente na minha cintura e sussurrou:

​— Sorri, Helena. É para isso que te pago as joias.

​Entrámos no salão sob o olhar atento da elite lisboeta. Marina e Caio já lá estavam. Marina, deslumbrante num vestido esmeralda, piscou para mim, mas notei o brilho forçado nos seus olhos. Caio parecia ter envelhecido dez anos numa semana; as mãos tremiam levemente ao segurar a taça de cristal.

​— Helena, querida! — exclamou a condessa de Sintra, aproximando-se. — Estás radiante. O Gustavo é um homem de sorte.

​— Eu sou a sortuda, Condessa — respondi, as palavras saindo mecanicamente. — Ter um marido que se dedica tanto a transformar esta cidade é um privilégio.

​Gustavo apertou a minha cintura, um sinal de aprovação. Eu tinha feito o meu trabalho. Mas por dentro, eu queria gritar. Queria rasgar o vestido de seda, atirar o champanhe à cara de todos aqueles hipócritas e correr até à Praia do Guincho para sentir o vento gelado limpar a mentira que eu me tornara.

​No meio da conversa fútil sobre mercados imobiliários e iates em Vilamoura, os meus olhos cruzaram-se com os de um homem que estava perto do bar. Ele não usava o smoking tradicional; vestia uma camisola de gola alta preta sob um blazer de linho escuro. Não parecia pertencer àquela elite de gravatas borboleta. Ele observava-me não com admiração, mas com uma curiosidade quase clínica, como se conseguisse ver através do meu sorriso de fachada.

​— Quem é aquele? — perguntei a Marina, num sussurro, enquanto os nossos maridos discutiam taxas de juro.

​Marina seguiu o meu olhar e arqueou as sobrancelhas.

— Ah, aquele é o Diogo Vaz. Um fotógrafo de guerra que herdou uma fortuna e agora se dedica a "expor as feridas do mundo", ou algo pretensioso assim. O Gustavo detesta-o porque ele escreveu um artigo criticando a gentrificação dos bairros históricos.

​Senti um arrepio. Diogo Vaz não desviou o olhar. Ele levantou a taça de vinho tinto — vinho tinto num evento de champanhe, outra quebra de protocolo — num brinde silencioso apenas para mim.

​Pela primeira vez em anos, alguém me via. Não a Sra. Lacerda, não a joia da sociedade, mas a mulher que estava a afogar-se em terra firme.

​— Helena! — a voz de Gustavo chicoteou ao meu ouvido. — O embaixador está a chegar. Endireita as costas e deixa de olhar para o nada.

​Voltei ao meu papel. A peça tinha de continuar. Mas, enquanto caminhava para cumprimentar o embaixador, a sensação do olhar de Diogo nas minhas costas era a única coisa que me fazia sentir que o meu coração ainda batia.

​Eu ainda era fiel. Eu ainda amava o homem que Gustavo fora um dia. Mas em Lisboa, as marés mudam depressa, e eu sentia que a minha resistência estava a chegar ao fim.

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