Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV: HELENA
Acordei com a luz cinzenta de Lisboa invadindo o quarto pelas frestas das cortinas de veludo. O lado esquerdo da cama estava impecável, frio. Gustavo provavelmente já estava no escritório ou em alguma reunião estratégica nas Docas antes mesmo do sol nascer. Para ele, o tempo era uma moeda que ele não estava disposto a gastar comigo. Levantei-me e senti o peso do dia anterior ainda nos ombros. O evento na Quinta da Marinha tinha sido um sucesso para os negócios, mas um desastre para a minha alma. Cada sorriso forçado que dei parecia ter deixado uma cicatriz invisível no meu rosto. Desci para a cozinha e encontrei apenas o silêncio da cobertura. Maria, a governanta, já tinha deixado a mesa do café posta. Sentei-me sozinha, olhando para a torrada que parecia tão sem graça quanto a minha rotina. Eu ainda amava o Gustavo, ou pelo menos a lembrança do homem que me pedia para fugir com ele para a Europa quando ainda estávamos na faculdade. Onde tinha ido parar aquele rapaz que escrevia bilhetes em guardanapos? O Gustavo de hoje só escrevia memorandos e ordens de transferência bancária. Meu celular vibrou sobre o mármore da mesa. Era um link de um site de fofocas enviado por Marina. “O casal de ouro de Lisboa: Gustavo e Helena Lacerda roubam a cena em gala beneficente.” A foto nos mostrava de mãos dadas, ele olhando para o horizonte com o queixo erguido e eu, ao seu lado, como o acessório perfeito. Sorri amargamente. Se as pessoas soubessem que aquela mão na minha cintura era apenas um aviso para eu não sair do roteiro, a legenda seria outra. Tomei um gole do café, que já estava frio. Eu não ia trair o Gustavo. Nunca foi do meu feitio. Eu acreditava no "na alegria e na tristeza", mas a tristeza estava ficando longa demais e a alegria parecia um conceito abstrato que eu só via em filmes. Eu queria ser fiel não apenas ao meu contrato de casamento, mas ao que eu sentia. O problema é que era difícil ser fiel a alguém que nem sequer te enxergava como uma pessoa. Por volta das onze horas, decidi que precisava sair de casa. Liguei para Marina e combinamos de nos encontrar em uma cafeteria discreta no Príncipe Real. Eu precisava de uma voz amiga, alguém que não estivesse interessado na minha "posição social". Quando cheguei, Marina já estava lá, escondida atrás de óculos escuros enormes e remexendo nervosamente em uma fatia de bolo de pistache. — Você está com uma cara péssima — disse ela, assim que me sentei. — Obrigada, Marina. É sempre bom contar com a sua sinceridade — respondi, tentando brincar, mas sem força para rir. — Não me entenda mal, Helena. Você está linda, como sempre. Mas seus olhos... parece que você não dorme há um século. O Gustavo ainda está agindo como um robô? Suspirei, pedindo um chá ao garçom. — Ele está focado. Ele diz que é por nós, pelo nosso futuro. Mas que futuro é esse onde a gente não se fala? Ontem, ele me disse que eu sou apenas uma estratégia. Marina tirou os óculos, revelando olheiras que nem a melhor maquiagem do mundo conseguia esconder. — Pelo menos ele fala de estratégia. O Caio nem fala mais. Ele chega em casa, bebe meia garrafa de uísque e apaga no sofá. Ontem descobri que ele cancelou o nosso seguro viagem para as férias na Grécia. Ele disse que foi um erro do banco, mas eu sei que não foi. Olhei para a minha amiga e vi o mesmo reflexo de desespero que eu sentia. Éramos o grupo de amigos "perfeito". Homens poderosos, mulheres deslumbrantes, casas que pareciam museus. E, no entanto, éramos todos miseráveis à nossa maneira. — Marina, o que aconteceu com a gente? — perguntei, baixinho. — A gente cresceu, Helena. E descobrimos que o topo da montanha é muito gelado. Ficamos em silêncio por um tempo, apenas observando o movimento das pessoas na rua. Jovens artistas, turistas perdidos, idosos caminhando sem pressa. Eu sentia inveja daquela simplicidade. — E aquele fotógrafo de ontem? — Marina perguntou de repente, mudando de assunto com um brilho malicioso nos olhos. — O Diogo Vaz. Ele não parava de te seguir com os olhos. Senti meu rosto esquentar, uma reação que eu não tinha há anos. — Ele é apenas um provocador, Marina. O Gustavo o detesta. — Justamente por isso ele é interessante. Ele é real, Helena. Ele faz coisas, ele sente coisas. Diferente dos nossos maridos, que só processam dados. — Eu sou casada, Marina. E gosto do Gustavo. Eu quero que as coisas funcionem. — Eu sei que você quer. Você é a mulher mais leal que eu conheço. Mas tome cuidado. A lealdade a um homem que não te merece pode acabar se tornando uma traição a si mesma. Aquelas palavras de Marina ficaram ecoando na minha cabeça durante todo o caminho de volta. "Traição a si mesma". Eu nunca tinha pensado por esse ângulo. Ser fiel ao Gustavo significava anular meus desejos, minha voz, minha identidade? Cheguei em casa e decidi fazer uma surpresa. Gustavo tinha dito que teria uma tarde cheia, mas eu sabia que ele faria uma pausa para o almoço. Preparei algo leve, pessoalmente, e fui até o escritório dele na Avenida da Liberdade. Eu queria mostrar que eu ainda era a parceira dele, que eu não era apenas uma estratégia, mas a mulher dele. Quando cheguei à recepção, a secretária dele, uma mulher jovem de olhar afiado, me barrou com um sorriso profissional. — Sra. Lacerda, que surpresa. O Sr. Gustavo está em uma reunião de portas fechadas. — Eu espero, Sofia. É apenas um almoço. — Receio que vá demorar. Ele pediu para não ser interrompido por ninguém. Eu ia insistir, ia dizer que eu não era "ninguém", mas a porta do escritório se abriu fresta. Ouvi a voz de Gustavo, mas não era o tom autoritário que ele usava comigo. Era uma risada. Uma risada leve, solta. Algo que eu não ouvia há anos. — Você é impossível, Vanessa — ele disse. — Quinta-feira, no lugar de sempre? Congelei no corredor. O cesto com o almoço pareceu pesar uma tonelada nas minhas mãos. A porta se fechou novamente antes que eu pudesse ver quem estava lá dentro. A secretária me olhou com uma mistura de pena e desconforto. — Sra. Lacerda? Quer que eu avise que a senhora esteve aqui? Olhei para o cesto, para as flores que eu tinha colhido no jardim, e para o brilho do meu anel de casamento. Meu coração batia tão forte que eu achei que ia desmaiar, mas minha postura permaneceu rígida. A lealdade que eu tanto prezava parecia, naquele momento, um fardo pesado demais. — Não, Sofia — respondi, com a voz firme, apesar do tremor interno. — Não avise nada. Eu só... me enganei de endereço. Saí do prédio e caminhei sem rumo pela Avenida da Liberdade. As pessoas passavam por mim, mas eu não via nada. Eu era fiel. Eu era a esposa perfeita. Eu tentava agradar todos os dias. E, enquanto eu me esforçava para salvar um casamento de fachada, o homem que eu amava estava rindo com outra, em algum lugar de sempre. Eu não ia traí-lo. Não porque ele merecesse minha fidelidade, mas porque eu não queria me tornar como ele. Mas, naquele momento, sob o sol de Lisboa que parecia zombar da minha dor, eu percebi que o meu "casamento sem amor" tinha acabado de ganhar uma camada muito mais perversa de realidade.






