capítulo 3

POV: HELENA

​Acordei com a luz cinzenta de Lisboa invadindo o quarto pelas frestas das cortinas de veludo. O lado esquerdo da cama estava impecável, frio. Gustavo provavelmente já estava no escritório ou em alguma reunião estratégica nas Docas antes mesmo do sol nascer. Para ele, o tempo era uma moeda que ele não estava disposto a gastar comigo.

​Levantei-me e senti o peso do dia anterior ainda nos ombros. O evento na Quinta da Marinha tinha sido um sucesso para os negócios, mas um desastre para a minha alma. Cada sorriso forçado que dei parecia ter deixado uma cicatriz invisível no meu rosto.

​Desci para a cozinha e encontrei apenas o silêncio da cobertura. Maria, a governanta, já tinha deixado a mesa do café posta. Sentei-me sozinha, olhando para a torrada que parecia tão sem graça quanto a minha rotina. Eu ainda amava o Gustavo, ou pelo menos a lembrança do homem que me pedia para fugir com ele para a Europa quando ainda estávamos na faculdade. Onde tinha ido parar aquele rapaz que escrevia bilhetes em guardanapos? O Gustavo de hoje só escrevia memorandos e ordens de transferência bancária.

​Meu celular vibrou sobre o mármore da mesa. Era um link de um site de fofocas enviado por Marina.

​“O casal de ouro de Lisboa: Gustavo e Helena Lacerda roubam a cena em gala beneficente.”

​A foto nos mostrava de mãos dadas, ele olhando para o horizonte com o queixo erguido e eu, ao seu lado, como o acessório perfeito. Sorri amargamente. Se as pessoas soubessem que aquela mão na minha cintura era apenas um aviso para eu não sair do roteiro, a legenda seria outra.

​Tomei um gole do café, que já estava frio. Eu não ia trair o Gustavo. Nunca foi do meu feitio. Eu acreditava no "na alegria e na tristeza", mas a tristeza estava ficando longa demais e a alegria parecia um conceito abstrato que eu só via em filmes. Eu queria ser fiel não apenas ao meu contrato de casamento, mas ao que eu sentia. O problema é que era difícil ser fiel a alguém que nem sequer te enxergava como uma pessoa.

​Por volta das onze horas, decidi que precisava sair de casa. Liguei para Marina e combinamos de nos encontrar em uma cafeteria discreta no Príncipe Real. Eu precisava de uma voz amiga, alguém que não estivesse interessado na minha "posição social".

​Quando cheguei, Marina já estava lá, escondida atrás de óculos escuros enormes e remexendo nervosamente em uma fatia de bolo de pistache.

​— Você está com uma cara péssima — disse ela, assim que me sentei.

​— Obrigada, Marina. É sempre bom contar com a sua sinceridade — respondi, tentando brincar, mas sem força para rir.

​— Não me entenda mal, Helena. Você está linda, como sempre. Mas seus olhos... parece que você não dorme há um século. O Gustavo ainda está agindo como um robô?

​Suspirei, pedindo um chá ao garçom.

— Ele está focado. Ele diz que é por nós, pelo nosso futuro. Mas que futuro é esse onde a gente não se fala? Ontem, ele me disse que eu sou apenas uma estratégia.

​Marina tirou os óculos, revelando olheiras que nem a melhor maquiagem do mundo conseguia esconder.

— Pelo menos ele fala de estratégia. O Caio nem fala mais. Ele chega em casa, bebe meia garrafa de uísque e apaga no sofá. Ontem descobri que ele cancelou o nosso seguro viagem para as férias na Grécia. Ele disse que foi um erro do banco, mas eu sei que não foi.

​Olhei para a minha amiga e vi o mesmo reflexo de desespero que eu sentia. Éramos o grupo de amigos "perfeito". Homens poderosos, mulheres deslumbrantes, casas que pareciam museus. E, no entanto, éramos todos miseráveis à nossa maneira.

​— Marina, o que aconteceu com a gente? — perguntei, baixinho.

​— A gente cresceu, Helena. E descobrimos que o topo da montanha é muito gelado.

​Ficamos em silêncio por um tempo, apenas observando o movimento das pessoas na rua. Jovens artistas, turistas perdidos, idosos caminhando sem pressa. Eu sentia inveja daquela simplicidade.

​— E aquele fotógrafo de ontem? — Marina perguntou de repente, mudando de assunto com um brilho malicioso nos olhos. — O Diogo Vaz. Ele não parava de te seguir com os olhos.

​Senti meu rosto esquentar, uma reação que eu não tinha há anos.

— Ele é apenas um provocador, Marina. O Gustavo o detesta.

​— Justamente por isso ele é interessante. Ele é real, Helena. Ele faz coisas, ele sente coisas. Diferente dos nossos maridos, que só processam dados.

​— Eu sou casada, Marina. E gosto do Gustavo. Eu quero que as coisas funcionem.

​— Eu sei que você quer. Você é a mulher mais leal que eu conheço. Mas tome cuidado. A lealdade a um homem que não te merece pode acabar se tornando uma traição a si mesma.

​Aquelas palavras de Marina ficaram ecoando na minha cabeça durante todo o caminho de volta. "Traição a si mesma". Eu nunca tinha pensado por esse ângulo. Ser fiel ao Gustavo significava anular meus desejos, minha voz, minha identidade?

​Cheguei em casa e decidi fazer uma surpresa. Gustavo tinha dito que teria uma tarde cheia, mas eu sabia que ele faria uma pausa para o almoço. Preparei algo leve, pessoalmente, e fui até o escritório dele na Avenida da Liberdade. Eu queria mostrar que eu ainda era a parceira dele, que eu não era apenas uma estratégia, mas a mulher dele.

​Quando cheguei à recepção, a secretária dele, uma mulher jovem de olhar afiado, me barrou com um sorriso profissional.

​— Sra. Lacerda, que surpresa. O Sr. Gustavo está em uma reunião de portas fechadas.

​— Eu espero, Sofia. É apenas um almoço.

​— Receio que vá demorar. Ele pediu para não ser interrompido por ninguém.

​Eu ia insistir, ia dizer que eu não era "ninguém", mas a porta do escritório se abriu fresta. Ouvi a voz de Gustavo, mas não era o tom autoritário que ele usava comigo. Era uma risada. Uma risada leve, solta. Algo que eu não ouvia há anos.

​— Você é impossível, Vanessa — ele disse. — Quinta-feira, no lugar de sempre?

​Congelei no corredor. O cesto com o almoço pareceu pesar uma tonelada nas minhas mãos. A porta se fechou novamente antes que eu pudesse ver quem estava lá dentro.

​A secretária me olhou com uma mistura de pena e desconforto.

— Sra. Lacerda? Quer que eu avise que a senhora esteve aqui?

​Olhei para o cesto, para as flores que eu tinha colhido no jardim, e para o brilho do meu anel de casamento. Meu coração batia tão forte que eu achei que ia desmaiar, mas minha postura permaneceu rígida. A lealdade que eu tanto prezava parecia, naquele momento, um fardo pesado demais.

​— Não, Sofia — respondi, com a voz firme, apesar do tremor interno. — Não avise nada. Eu só... me enganei de endereço.

​Saí do prédio e caminhei sem rumo pela Avenida da Liberdade. As pessoas passavam por mim, mas eu não via nada. Eu era fiel. Eu era a esposa perfeita. Eu tentava agradar todos os dias. E, enquanto eu me esforçava para salvar um casamento de fachada, o homem que eu amava estava rindo com outra, em algum lugar de sempre.

​Eu não ia traí-lo. Não porque ele merecesse minha fidelidade, mas porque eu não queria me tornar como ele. Mas, naquele momento, sob o sol de Lisboa que parecia zombar da minha dor, eu percebi que o meu "casamento sem amor" tinha acabado de ganhar uma camada muito mais perversa de realidade.

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