Mundo de ficçãoIniciar sessão
POV: HELENA
O relógio de carrilhão no hall de entrada bateu sete horas. Eu tinha exatamente sessenta minutos antes que Gustavo cruzasse a porta. Para muitos, uma hora é tempo de sobra; para mim, era o tempo necessário para montar o palco de uma peça que nunca recebia aplausos. Ajeitei os arranjos de lírios brancos na mesa de jantar. Gustavo detestava rosas — dizia que eram clichês e dramáticas demais. Ele preferia a assepsia dos lírios, o cheiro de limpeza que não exigia emoção. Eu mesma tinha escolhido o cardápio: filé ao poivre com risoto de aspargos. O prato favorito dele desde que éramos apenas dois herdeiros prometidos em um noivado de negócios. Subi para o quarto e encarei meu reflexo. Eu não era uma mulher feia; pelo contrário, os jornais de Lisboa costumavam me chamar de "a joia da sociedade". Mas, olhando para o espelho, eu só via as rachaduras. Escolhi um vestido de seda azul marinho, discreto e caro. Borrifei o perfume que ele me deu no último aniversário — um aroma amadeirado que ele considerava "respeitável". Eu ainda gostava dele. Era um gosto doloroso, nutrido pelas lembranças de quando éramos mais jovens e ele, pelo menos, sorria quando eu entrava na sala. Eu acreditava que, se eu fosse perfeita o suficiente, se a casa estivesse impecável e eu fosse a esposa troféu que os negócios dele exigiam, ele voltaria a me enxergar. Ouvi o som do portão eletrônico. Meu coração, pateticamente, acelerou. Desci as escadas a tempo de vê-lo entregar a pasta para o mordomo. Gustavo estava impecável, nem um fio de cabelo fora do lugar, mas seus olhos estavam fixos no celular. — Oi, querido. O jantar está pronto — eu disse, aproximando-me para um beijo no rosto. Ele inclinou a cabeça o mínimo necessário para que meus lábios tocassem o ar perto de sua orelha. O cheiro de escritório e café gelado emanava dele. — Não posso demorar, Helena. Tenho uma conferência com os investidores de Dubai às nove — ele disse, sem olhar para mim. — E por que essa mesa está tão cheia de flores? Parece um velório. Senti a primeira pontada no peito. O esforço de passar a tarde escolhendo os lírios foi descartado em uma frase. — Achei que traria um pouco de vida para a sala. Fiz o risoto que você gosta. Ele finalmente guardou o celular no bolso do paletó e me encarou. Sua expressão não era de raiva, era pior: era de tédio. — Helena, eu pago um chef internacional para a nossa cozinha para que você não precise se preocupar com o fogão. Se eu quisesse um jantar caseiro, teria ficado na fazenda do meu pai. Use seu tempo para algo mais produtivo, como organizar o leilão beneficente de sábado. A aparência da nossa fundação é o que importa agora. Ele passou por mim, subindo as escadas para se trocar. Eu fiquei ali, parada entre os lírios brancos, sentindo o calor do risoto na cozinha tornar-se um peso morto. Eu era a "joia da sociedade", mas naquela casa, eu era apenas parte da mobília. Uma peça cara, bem polida, mas que ele não se daria ao trabalho de limpar se pegasse poeira. Respirei fundo, engolindo a vontade de gritar. Peguei meu celular e vi uma notificação no I*******m. Uma foto de Marina e Caio em um evento, sorridentes. "O casal do ano", dizia a legenda. Sorri amargamente. Se as pessoas soubessem que os sorrisos eram apenas porcelana prestes a quebrar. Sentei-me à mesa sozinha, o silêncio da mansão sendo interrompido apenas pelo som do meu garfo batendo no prato de cristal. Eu ainda tentava agradar. Eu ainda era fiel. Mas, pela primeira vez, o silêncio daquela casa começou a parecer uma sentença de prisão perpétua. POV: GUSTAVO A água quente do chuveiro batia nos meus ombros, mas não conseguia relaxar a tensão acumulada. O fechamento da compra da nova área Portuária estava me custando noites de sono. Eu não tinha tempo para sutilezas. Quando desci, Helena ainda estava sentada à mesa. Ela tinha aquela expressão de expectativa no rosto, algo que me irritava profundamente. Ela queria conexão, queria conversas sobre o dia, queria... amor. Eu não tinha espaço para amor no meu balanço financeiro. — O vinho está bom? — ela perguntou, tentando puxar assunto. — É um Bordeaux 2015, Helena. É claro que está bom. Eu mesmo escolhi a adega — respondi, cortando a carne com precisão cirúrgica. — Falou com a Marina hoje? — Mandei mensagem. Ela parece ocupada com a reforma da cobertura. — Mantenha-a por perto — eu disse, apontando o garfo para ela. — O Caio está passando por uma fase instável na empresa. Preciso que você saiba de tudo o que acontece naquela casa. Se eles caírem, não quero que nos puxem junto. Helena baixou os olhos para o prato. — Às vezes parece que nossa amizade com eles é apenas estratégica, Gustavo. — E o que neste mundo não é estratégica, Helena? — Deixei o garfo de lado e a encarei seriamente. — Nosso casamento foi uma estratégia. Sua vida confortável é uma estratégia. Pare de ser sentimental. Isso não combina com o sobrenome que você carrega. Terminei meu vinho em um gole só. O celular vibrou no bolso. Uma mensagem de Vanessa: "A saudade está ficando cara, doutor. Quando vem pagar a conta?" Senti um canto da boca se elevar. Aquilo era simples. Sem cobranças de "como foi seu dia", sem olhares de carência, sem lírios brancos. Apenas transação e prazer. — Vou para o escritório — anunciei, levantando-me. — Não me espere acordada. E peça para a empregada tirar essas flores amanhã. O cheiro me dá dor de cabeça. Saí da sala sem olhar para trás. Eu sabia que Helena ficaria ali, chorando silenciosamente ou bebendo o resto da garrafa. Ela era previsível. E a previsibilidade era a única coisa que eu ainda suportava nela.






