Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV: DIEGO
Ser o melhor amigo de Gustavo Lacerda é como ser o zelador de um museu cheio de relíquias roubadas. Você aprecia a beleza das peças, mas sabe exatamente de onde veio cada uma e o preço de sangue que foi pago por elas. Eu sou o homem que lê as entrelinhas, que assina os contratos com cláusulas de escape e que limpa o sangue do tapete antes que as visitas cheguem para o chá. Eu estava sentado na esplanada de um café na Marina de Cascais, observando os iates balançarem suavemente sobre as águas do Atlântico. O sol de Lisboa, sempre tão generoso, parecia não conseguir aquecer o gelo que se formava no meu estômago toda vez que meu telemóvel vibrava. Eu sabia que, sob aquela superfície azul e calma, os destroços do nosso grupo de amigos estavam a começar a boiar. — Outro café, Sr. Diego? — perguntou o Manuel, o garçom que já conhecia as minhas longas horas de silêncio e as telas de laptop cheias de planilhas que ninguém deveria ver. — Não, Manuel. Já tive cafeína suficiente para uma vida inteira — respondi, fechando a aba de um contrato de licenciamento que cheirava a fraude. Eu sou o advogado que resolve o que o dinheiro não consegue comprar: o silêncio. Quando o Gustavo decide que quer um terreno histórico em Alfama para construir um hotel de luxo, sou eu quem encontra as brechas legais para expulsar os moradores antigos. Quando o Caio faz uma asneira financeira, sou eu quem tenta mascarar os números antes que a auditoria chegue. Eu sou o cúmplice silencioso que todos amam nos jantares, mas que ninguém quer encarar no espelho. Recebi a ligação de Caio às onze da manhã. “Preciso de um contato na Suíça. Ou a próxima vez que me vir, vai ser no obituário do Diário de Notícias.” Suspirei, sentindo o peso da responsabilidade. O Caio era um fraco. Ele tentava jogar um jogo de tubarões sendo um peixe dourado, e agora as águas de Lisboa estavam cobrando o preço. Mas o que mais me incomodava não era o desespero de Caio. Era a frieza de Gustavo. Vinte minutos depois, o próprio Gustavo me ligou. — Diego, onde está? — A voz dele era como um chicote. Sem "bom dia", sem qualquer traço de humanidade. — Em Cascais, a respirar um pouco de ar puro antes de voltar para o inferno que você chama de escritório, Gustavo. — Deixa o ar puro para os poetas. Preciso que envies os documentos da holding de Delaware para a Vanessa. Ela vai cuidar da interface com os investidores asiáticos na quinta-feira. — A Vanessa, Gustavo? — Eu disse, sentindo um gosto amargo na boca. — Você não acha que está a esticar a corda demais? A Helena esteve no escritório ontem. Ela não é burra. Uma hora ela vai ligar os pontos e perceber que a sua "consultora preferida" está na sua cama há mais tempo do que na mesa de reuniões. Houve um silêncio pesado do outro lado. Eu quase podia ouvir as engrenagens da cabeça de Gustavo a girarem, calculando riscos como se a esposa fosse apenas mais uma variável num gráfico de lucros. — A Helena é leal, Diego. Ela gosta da vida que tem, gosta do status, gosta de ser a "primeira-dama" da construção civil. Ela pode desconfiar, mas nunca vai confrontar. Ela precisa de mim tanto quanto eu preciso de uma fachada estável para os negócios. Envia os documentos. Desliguei sem me despedir. A arrogância de Gustavo dava-me náuseas. Ele não entendia nada de lealdade. Ele achava que a lealdade era algo que se comprava com diamantes da Cartier e jantares na Quinta da Marinha. Ele não via a Helena como eu via. Eu sempre tive uma admiração silenciosa pela Helena. Não era apenas desejo — embora ela fosse, sem dúvida, a mulher mais estonteante do nosso círculo. Era algo mais profundo. Eu admirava a dignidade dela. No meio de tanta gente vazia e descartável, a Helena tinha uma substância que nenhum de nós possuía. Ver o Gustavo tratá-la como um móvel de luxo era uma tortura diária que eu me impunha em nome de uma amizade que já deveria ter morrido há anos. Levantei-me da mesa e caminhei até ao meu carro. Enquanto conduzia de volta para o centro de Lisboa pela Marginal, vi a silhueta da Ponte 25 de Abril recortada contra o céu alaranjado. Parecia tão sólida, tão eterna. Mas eu sabia, por experiência profissional, que até o aço mais forte cansa. Até o concreto mais denso racha sob pressão constante. Nosso grupo de amigos era como aquela ponte. Parecíamos conectores de mundos, símbolos de progresso e força em Portugal. Mas, por baixo, as fundações estavam a ser corroídas pelo sal da traição, pelas dívidas de Caio e pela indiferença sociopata de Gustavo. Eu tinha os contatos na Suíça que o Caio precisava. E eu tinha os documentos que a Vanessa queria. Eu tinha o poder de salvar o casamento da Helena ou de destruí-lo de vez. Eu sabia algo que nem o próprio Gustavo sabia ainda, algo que eu tinha descoberto através de um exame laboratorial que "caiu" na minha secretária por erro de uma clínica privada que também prestava serviços à nossa empresa. Vanessa estava grávida. A informação queimava na minha mente. Se aquele filho fosse de Gustavo, o império Lacerda teria um novo herdeiro, e a posição de Helena seria obliterada. Mas, conhecendo a Vanessa como eu conhecia, aquele filho poderia ser de qualquer um. Inclusive de um certo investidor asiático com quem ela tinha passado "férias de negócios" no mês passado. As pessoas acham que os vilões são os que traem ou os que roubam. Mas, às vezes, o maior vilão é aquele que guarda os segredos, esperando o momento certo para ver o império cair e lucrar com os destroços. Eu não ia falar nada. Ainda. Entrei no meu escritório na Avenida da Liberdade, passei pela Sofia na recepção e vi uma das flores que a Helena tinha deixado cair no dia anterior. Estava murcho em cima de uma mesa lateral, provavelmente Sofia o viu no chão e colocou ali, esquecido como um túmulo sem nome. A secretária não tinha tido coragem de jogar fora, talvez por sentir a tristeza que emanava daquelas pétalas secas. Peguei a flor murcha e esmaguei-a entre os dedos, sentindo a textura sem vida contra a minha pele. — A lealdade é uma doença, Sofia — comentei, sem olhar para ela. — O senhor disse algo, Dr. Diego? — Nada. Apenas preparando o terreno para o sismo. Sentei-me à minha mesa e comecei a digitar. Eu ia ajudar o Caio, mas o preço seria a submissão total dele aos meus interesses. Eu ia enviar os documentos para a Vanessa, mas com uma pequena "falha" técnica oculta que me daria controle sobre as contas no futuro. Se o navio ia afundar, eu ia garantir que teria o melhor bote salva-vidas de Lisboa. Porque nesta cidade, quando as fachadas de luxo caem, quem não tem um segredo para trocar por silêncio acaba soterrado pelos escombros. E eu pretendo ser o único a sair dessa mansão a caminhar, enquanto os outros rastejam.






