Capítulo 7

​POV: DIEGO

​Ser o melhor amigo de Gustavo Lacerda é como ser o zelador de um museu cheio de relíquias roubadas. Você aprecia a beleza das peças, mas sabe exatamente de onde veio cada uma e o preço de sangue que foi pago por elas. Eu sou o homem que lê as entrelinhas, que assina os contratos com cláusulas de escape e que limpa o sangue do tapete antes que as visitas cheguem para o chá.

​Eu estava sentado na esplanada de um café na Marina de Cascais, observando os iates balançarem suavemente sobre as águas do Atlântico. O sol de Lisboa, sempre tão generoso, parecia não conseguir aquecer o gelo que se formava no meu estômago toda vez que meu telemóvel vibrava. Eu sabia que, sob aquela superfície azul e calma, os destroços do nosso grupo de amigos estavam a começar a boiar.

​— Outro café, Sr. Diego? — perguntou o Manuel, o garçom que já conhecia as minhas longas horas de silêncio e as telas de laptop cheias de planilhas que ninguém deveria ver.

​— Não, Manuel. Já tive cafeína suficiente para uma vida inteira — respondi, fechando a aba de um contrato de licenciamento que cheirava a fraude.

​Eu sou o advogado que resolve o que o dinheiro não consegue comprar: o silêncio. Quando o Gustavo decide que quer um terreno histórico em Alfama para construir um hotel de luxo, sou eu quem encontra as brechas legais para expulsar os moradores antigos. Quando o Caio faz uma asneira financeira, sou eu quem tenta mascarar os números antes que a auditoria chegue. Eu sou o cúmplice silencioso que todos amam nos jantares, mas que ninguém quer encarar no espelho.

​Recebi a ligação de Caio às onze da manhã. “Preciso de um contato na Suíça. Ou a próxima vez que me vir, vai ser no obituário do Diário de Notícias.”

​Suspirei, sentindo o peso da responsabilidade. O Caio era um fraco. Ele tentava jogar um jogo de tubarões sendo um peixe dourado, e agora as águas de Lisboa estavam cobrando o preço. Mas o que mais me incomodava não era o desespero de Caio. Era a frieza de Gustavo.

​Vinte minutos depois, o próprio Gustavo me ligou.

​— Diego, onde está? — A voz dele era como um chicote. Sem "bom dia", sem qualquer traço de humanidade.

​— Em Cascais, a respirar um pouco de ar puro antes de voltar para o inferno que você chama de escritório, Gustavo.

​— Deixa o ar puro para os poetas. Preciso que envies os documentos da holding de Delaware para a Vanessa. Ela vai cuidar da interface com os investidores asiáticos na quinta-feira.

​— A Vanessa, Gustavo? — Eu disse, sentindo um gosto amargo na boca. — Você não acha que está a esticar a corda demais? A Helena esteve no escritório ontem. Ela não é burra. Uma hora ela vai ligar os pontos e perceber que a sua "consultora preferida" está na sua cama há mais tempo do que na mesa de reuniões.

​Houve um silêncio pesado do outro lado. Eu quase podia ouvir as engrenagens da cabeça de Gustavo a girarem, calculando riscos como se a esposa fosse apenas mais uma variável num gráfico de lucros.

​— A Helena é leal, Diego. Ela gosta da vida que tem, gosta do status, gosta de ser a "primeira-dama" da construção civil. Ela pode desconfiar, mas nunca vai confrontar. Ela precisa de mim tanto quanto eu preciso de uma fachada estável para os negócios. Envia os documentos.

​Desliguei sem me despedir. A arrogância de Gustavo dava-me náuseas. Ele não entendia nada de lealdade. Ele achava que a lealdade era algo que se comprava com diamantes da Cartier e jantares na Quinta da Marinha. Ele não via a Helena como eu via.

​Eu sempre tive uma admiração silenciosa pela Helena. Não era apenas desejo — embora ela fosse, sem dúvida, a mulher mais estonteante do nosso círculo. Era algo mais profundo. Eu admirava a dignidade dela. No meio de tanta gente vazia e descartável, a Helena tinha uma substância que nenhum de nós possuía. Ver o Gustavo tratá-la como um móvel de luxo era uma tortura diária que eu me impunha em nome de uma amizade que já deveria ter morrido há anos.

Levantei-me da mesa e caminhei até ao meu carro. Enquanto conduzia de volta para o centro de Lisboa pela Marginal, vi a silhueta da Ponte 25 de Abril recortada contra o céu alaranjado. Parecia tão sólida, tão eterna. Mas eu sabia, por experiência profissional, que até o aço mais forte cansa. Até o concreto mais denso racha sob pressão constante.

​Nosso grupo de amigos era como aquela ponte. Parecíamos conectores de mundos, símbolos de progresso e força em Portugal. Mas, por baixo, as fundações estavam a ser corroídas pelo sal da traição, pelas dívidas de Caio e pela indiferença sociopata de Gustavo.

​Eu tinha os contatos na Suíça que o Caio precisava. E eu tinha os documentos que a Vanessa queria. Eu tinha o poder de salvar o casamento da Helena ou de destruí-lo de vez. Eu sabia algo que nem o próprio Gustavo sabia ainda, algo que eu tinha descoberto através de um exame laboratorial que "caiu" na minha secretária por erro de uma clínica privada que também prestava serviços à nossa empresa.

​Vanessa estava grávida.

​A informação queimava na minha mente. Se aquele filho fosse de Gustavo, o império Lacerda teria um novo herdeiro, e a posição de Helena seria obliterada. Mas, conhecendo a Vanessa como eu conhecia, aquele filho poderia ser de qualquer um. Inclusive de um certo investidor asiático com quem ela tinha passado "férias de negócios" no mês passado.

​As pessoas acham que os vilões são os que traem ou os que roubam. Mas, às vezes, o maior vilão é aquele que guarda os segredos, esperando o momento certo para ver o império cair e lucrar com os destroços.

​Eu não ia falar nada. Ainda.

​Entrei no meu escritório na Avenida da Liberdade, passei pela Sofia na recepção e vi uma das flores que a Helena tinha deixado cair no dia anterior. Estava murcho em cima de uma mesa lateral, provavelmente Sofia o viu no chão e colocou ali, esquecido como um túmulo sem nome. A secretária não tinha tido coragem de jogar fora, talvez por sentir a tristeza que emanava daquelas pétalas secas.

​Peguei a flor murcha e esmaguei-a entre os dedos, sentindo a textura sem vida contra a minha pele.

​— A lealdade é uma doença, Sofia — comentei, sem olhar para ela.

​— O senhor disse algo, Dr. Diego?

​— Nada. Apenas preparando o terreno para o sismo.

​Sentei-me à minha mesa e comecei a digitar. Eu ia ajudar o Caio, mas o preço seria a submissão total dele aos meus interesses. Eu ia enviar os documentos para a Vanessa, mas com uma pequena "falha" técnica oculta que me daria controle sobre as contas no futuro. Se o navio ia afundar, eu ia garantir que teria o melhor bote salva-vidas de Lisboa.

​Porque nesta cidade, quando as fachadas de luxo caem, quem não tem um segredo para trocar por silêncio acaba soterrado pelos escombros. E eu pretendo ser o único a sair dessa mansão a caminhar, enquanto os outros rastejam.

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