Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV: MARINA
Eu sempre achei que o som do fracasso seria um estrondo. Algo dramático, como um trovão sobre a Serra de Sintra. Mas não. O fracasso tem o som de um papel deslizando por baixo da porta e o silêncio de um marido que não consegue mais olhar nos meus olhos. Estávamos no nosso apartamento em Cascais. A vista para o oceano era deslumbrante, mas eu só conseguia focar no extrato bancário que eu tinha encontrado "sem querer" na pasta de Caio. Os números estavam no vermelho, e não era um vermelho qualquer; era um abismo. — Caio, precisamos conversar — eu disse, entrando no escritório dele. Ele estava sentado na poltrona de couro, segurando um copo de uísque como se fosse sua última âncora no mundo. O sol da tarde batia no seu rosto, revelando cada linha de expressão que ele tentava esconder com sorrisos ensaiados nos jantares com o Gustavo e a Helena. — Agora não, Marina. Estou com uma dor de cabeça terrível e tenho que analisar esses relatórios da construtora — ele respondeu, sem tirar os olhos da parede. — Os relatórios ou as ordens de despejo que estão começando a chegar? — Joguei o papel sobre a mesa. Ele finalmente me olhou. Havia medo nos seus olhos, um medo tão cru que me deu náuseas. — Eu vou resolver, Marina. Foi só um investimento que deu errado. O mercado em Lisboa está volátil, você sabe disso. O Gustavo me garantiu que o novo projeto nas Docas vai salvar tudo. — O Gustavo sabe da nossa situação? — perguntei, cruzando os braços. — Porque ontem, no jantar, ele falou de você como se fosse um peso morto. Caio levantou-se num salto, o uísque balançando no copo. — O Gustavo é meu amigo! Ele só está sob pressão. Ele nunca me deixaria na mão. — Você é ingênuo ou está bêbado? — Minha voz subiu um tom. — O Gustavo só se importa com o Gustavo. E se ele descobrir que você usou o fundo de reserva da empresa para pagar dívidas de jogo ou seja lá o que você fez, ele vai te esmagar para proteger o nome dele. Eu queria abraçá-lo. Queria que ele chorasse no meu ombro e disséssemos um ao outro que poderíamos vender tudo, morar num apartamento minúsculo na Amadora e recomeçar. Mas o orgulho dele era maior que a nossa casa. E o meu medo de perder o conforto que levei anos para construir me impedia de ser a esposa compreensiva que ele precisava. Éramos dois náufragos tentando manter o iate flutuando enquanto o casco já estava partido ao meio. POV: CAIO As palavras de Marina cortavam como navalhas. Eu queria gritar para ela calar a boca, queria dizer que eu fazia tudo por ela, pelas roupas de grife dela, pelas viagens para Ibiza. Mas a verdade era que eu tinha feito por mim. Pelo meu ego. Pela necessidade de não ser o "amigo menos rico" do grupo do Gustavo. — Sai, Marina. Por favor — eu disse, com a voz embargada. Quando a porta se fechou, eu me deixei cair na cadeira. Minhas mãos tremiam. Eu abri a gaveta do fundo da escrivaninha e olhei para o pequeno frasco de comprimidos que se tornara meu melhor amigo nos últimos meses. Um para dormir, um para acordar, um para fingir que eu não estava prestes a perder tudo. Eu olhei para o meu celular. Havia três chamadas perdidas de um número privado. Eu sabia quem era. O agiota que me emprestou dinheiro para cobrir o buraco na empresa antes que o conselho descobrisse. Em Lisboa, o submundo não usa jaquetas de couro; eles usam ternos sob medida e cobram juros com a ponta de uma faca invisível. Eu amava a Marina? Sim. Eu a amava o suficiente para não querer que ela visse o lixo que eu me tornei. Mas o amor em nosso mundo é uma mercadoria cara demais para ser mantida sem fundos. Eu invejava o Gustavo. Ele era um desgraçado frio, tratava a Helena como um objeto, mas ele tinha o controle. Ele tinha o poder. Eu era apenas o satélite que girava em torno dele, tentando pegar um pouco do seu brilho para não morrer no escuro. Peguei o telefone e liguei para o Diego, que era o nosso outro amigo do grupo. — Diego? Preciso de um favor. Não conte ao Gustavo, mas preciso que você me consiga um contato naquele banco de investimento na Suíça. O prazo do meu empréstimo vence na sexta. — Caio, o que você está aprontando? — a voz de Diego soou preocupada do outro lado. — O Gustavo me disse que você estava meio estranho, mas isso soa como desespero. — Só me consiga o contato, Diego. Ou a próxima vez que você me vir, vai ser no obituário do Diário de Notícias. Desliguei antes que ele pudesse responder. Olhei para a foto do nosso casamento sobre a mesa. Marina estava tão radiante, e eu parecia um homem que tinha o mundo aos pés. Agora, eu era apenas um homem que tinha medo da própria sombra. Eu precisava de uma saída. E a saída, infelizmente, parecia estar cada vez mais longe da honestidade. Se o Gustavo descobrisse... se a Helena soubesse... o castelo de cartas desabaria sobre todos nós. POV: MARINA Ouvi o silêncio no escritório de Caio e soube que ele estava bebendo de novo. Saí de casa, precisando de ar. Dirigi até a orla, parando o carro perto da Boca do Inferno. O nome era apropriado para o que eu sentia. Sentei-me no muro, observando as ondas explodirem contra as rochas. O vento salgado bagunçava meu cabelo, e por um momento, eu desejei ser apenas uma daquelas turistas com mochila nas costas, sem dívidas, sem maridos secretos e sem a necessidade de manter uma máscara de porcelana. Meu celular tocou. Era Helena. — Marina? Você está ocupada? — A voz dela estava estranha. Trêmula. — O que aconteceu, Helena? — perguntei, meu instinto de proteção falando mais alto que meus próprios problemas. — Eu fui ao escritório do Gustavo. Ouvi uma risada... uma mulher. Ele a chamou de Vanessa. Marina, eu acho que... eu acho que ele não está apenas "trabalhando até tarde". Senti um frio na espinha. Eu sabia quem era Vanessa. Todo mundo no círculo íntimo de negócios do Gustavo sabia, menos a Helena. Vanessa era a "facilitadora" de luxo, a mulher que o Gustavo levava para as viagens de negócios mais sigilosas. — Onde você está? — perguntei, já caminhando de volta para o carro. — Estou perto da Avenida da Liberdade. Me sinto uma idiota, Marina. Eu levei flores para ele. — Fique aí. Não faça nada. Estou indo te buscar. Enquanto eu dirigia para o centro de Lisboa, uma percepção terrível me atingiu. Estávamos todas no mesmo barco, e o barco estava pegando fogo. Caio estava se destruindo financeiramente, Gustavo estava traindo Helena descaradamente, e eu... eu era a única que via a verdade sobre todos eles. A lealdade de Helena ao Gustavo era a coisa mais bonita e triste que eu já tinha visto. E eu sabia que, para protegê-la, eu teria que mentir. Porque se a Helena quebrasse, o nosso grupo perderia a única coisa que ainda nos tornava humanos: a ilusão de que a perfeição era possível. Eu não ia contar para ela quem era a Vanessa. Pelo menos não hoje. Hoje, eu só seria a amiga que a tiraria daquela calçada fria. Mas, dentro de mim, uma semente de revolta começou a crescer. Se os nossos maridos tinham decidido jogar as regras pela janela, talvez estivesse na hora de nós começarmos a escrever as nossas próprias. Parei o carro perto da estátua do Marquês de Pombal e vi a Helena. Ela parecia tão pequena, segurando aquele cesto de vime ridículo e romântico. Naquele momento, em meio ao barulho do trânsito de Lisboa, eu tomei uma decisão: eu não deixaria o Caio nos afundar, e não deixaria o Gustavo destruir o que restava da Helena. Custe o que custar.






