Capítulo 4

POV: MARINA

​Eu sempre achei que o som do fracasso seria um estrondo. Algo dramático, como um trovão sobre a Serra de Sintra. Mas não. O fracasso tem o som de um papel deslizando por baixo da porta e o silêncio de um marido que não consegue mais olhar nos meus olhos.

​Estávamos no nosso apartamento em Cascais. A vista para o oceano era deslumbrante, mas eu só conseguia focar no extrato bancário que eu tinha encontrado "sem querer" na pasta de Caio. Os números estavam no vermelho, e não era um vermelho qualquer; era um abismo.

​— Caio, precisamos conversar — eu disse, entrando no escritório dele.

​Ele estava sentado na poltrona de couro, segurando um copo de uísque como se fosse sua última âncora no mundo. O sol da tarde batia no seu rosto, revelando cada linha de expressão que ele tentava esconder com sorrisos ensaiados nos jantares com o Gustavo e a Helena.

​— Agora não, Marina. Estou com uma dor de cabeça terrível e tenho que analisar esses relatórios da construtora — ele respondeu, sem tirar os olhos da parede.

​— Os relatórios ou as ordens de despejo que estão começando a chegar? — Joguei o papel sobre a mesa.

​Ele finalmente me olhou. Havia medo nos seus olhos, um medo tão cru que me deu náuseas.

​— Eu vou resolver, Marina. Foi só um investimento que deu errado. O mercado em Lisboa está volátil, você sabe disso. O Gustavo me garantiu que o novo projeto nas Docas vai salvar tudo.

​— O Gustavo sabe da nossa situação? — perguntei, cruzando os braços. — Porque ontem, no jantar, ele falou de você como se fosse um peso morto.

​Caio levantou-se num salto, o uísque balançando no copo.

— O Gustavo é meu amigo! Ele só está sob pressão. Ele nunca me deixaria na mão.

​— Você é ingênuo ou está bêbado? — Minha voz subiu um tom. — O Gustavo só se importa com o Gustavo. E se ele descobrir que você usou o fundo de reserva da empresa para pagar dívidas de jogo ou seja lá o que você fez, ele vai te esmagar para proteger o nome dele.

​Eu queria abraçá-lo. Queria que ele chorasse no meu ombro e disséssemos um ao outro que poderíamos vender tudo, morar num apartamento minúsculo na Amadora e recomeçar. Mas o orgulho dele era maior que a nossa casa. E o meu medo de perder o conforto que levei anos para construir me impedia de ser a esposa compreensiva que ele precisava.

​Éramos dois náufragos tentando manter o iate flutuando enquanto o casco já estava partido ao meio.

​POV: CAIO

​As palavras de Marina cortavam como navalhas. Eu queria gritar para ela calar a boca, queria dizer que eu fazia tudo por ela, pelas roupas de grife dela, pelas viagens para Ibiza. Mas a verdade era que eu tinha feito por mim. Pelo meu ego. Pela necessidade de não ser o "amigo menos rico" do grupo do Gustavo.

​— Sai, Marina. Por favor — eu disse, com a voz embargada.

​Quando a porta se fechou, eu me deixei cair na cadeira. Minhas mãos tremiam. Eu abri a gaveta do fundo da escrivaninha e olhei para o pequeno frasco de comprimidos que se tornara meu melhor amigo nos últimos meses. Um para dormir, um para acordar, um para fingir que eu não estava prestes a perder tudo.

​Eu olhei para o meu celular. Havia três chamadas perdidas de um número privado. Eu sabia quem era. O agiota que me emprestou dinheiro para cobrir o buraco na empresa antes que o conselho descobrisse. Em Lisboa, o submundo não usa jaquetas de couro; eles usam ternos sob medida e cobram juros com a ponta de uma faca invisível.

​Eu amava a Marina? Sim. Eu a amava o suficiente para não querer que ela visse o lixo que eu me tornei. Mas o amor em nosso mundo é uma mercadoria cara demais para ser mantida sem fundos.

​Eu invejava o Gustavo. Ele era um desgraçado frio, tratava a Helena como um objeto, mas ele tinha o controle. Ele tinha o poder. Eu era apenas o satélite que girava em torno dele, tentando pegar um pouco do seu brilho para não morrer no escuro.

​Peguei o telefone e liguei para o Diego, que era o nosso outro amigo do grupo.

​— Diego? Preciso de um favor. Não conte ao Gustavo, mas preciso que você me consiga um contato naquele banco de investimento na Suíça. O prazo do meu empréstimo vence na sexta.

​— Caio, o que você está aprontando? — a voz de Diego soou preocupada do outro lado. — O Gustavo me disse que você estava meio estranho, mas isso soa como desespero.

​— Só me consiga o contato, Diego. Ou a próxima vez que você me vir, vai ser no obituário do Diário de Notícias.

​Desliguei antes que ele pudesse responder. Olhei para a foto do nosso casamento sobre a mesa. Marina estava tão radiante, e eu parecia um homem que tinha o mundo aos pés. Agora, eu era apenas um homem que tinha medo da própria sombra.

​Eu precisava de uma saída. E a saída, infelizmente, parecia estar cada vez mais longe da honestidade. Se o Gustavo descobrisse... se a Helena soubesse... o castelo de cartas desabaria sobre todos nós.

​POV: MARINA

​Ouvi o silêncio no escritório de Caio e soube que ele estava bebendo de novo. Saí de casa, precisando de ar. Dirigi até a orla, parando o carro perto da Boca do Inferno. O nome era apropriado para o que eu sentia.

​Sentei-me no muro, observando as ondas explodirem contra as rochas. O vento salgado bagunçava meu cabelo, e por um momento, eu desejei ser apenas uma daquelas turistas com mochila nas costas, sem dívidas, sem maridos secretos e sem a necessidade de manter uma máscara de porcelana.

​Meu celular tocou. Era Helena.

​— Marina? Você está ocupada? — A voz dela estava estranha. Trêmula.

​— O que aconteceu, Helena? — perguntei, meu instinto de proteção falando mais alto que meus próprios problemas.

​— Eu fui ao escritório do Gustavo. Ouvi uma risada... uma mulher. Ele a chamou de Vanessa. Marina, eu acho que... eu acho que ele não está apenas "trabalhando até tarde".

​Senti um frio na espinha. Eu sabia quem era Vanessa. Todo mundo no círculo íntimo de negócios do Gustavo sabia, menos a Helena. Vanessa era a "facilitadora" de luxo, a mulher que o Gustavo levava para as viagens de negócios mais sigilosas.

​— Onde você está? — perguntei, já caminhando de volta para o carro.

​— Estou perto da Avenida da Liberdade. Me sinto uma idiota, Marina. Eu levei flores para ele.

​— Fique aí. Não faça nada. Estou indo te buscar.

​Enquanto eu dirigia para o centro de Lisboa, uma percepção terrível me atingiu. Estávamos todas no mesmo barco, e o barco estava pegando fogo. Caio estava se destruindo financeiramente, Gustavo estava traindo Helena descaradamente, e eu... eu era a única que via a verdade sobre todos eles.

​A lealdade de Helena ao Gustavo era a coisa mais bonita e triste que eu já tinha visto. E eu sabia que, para protegê-la, eu teria que mentir. Porque se a Helena quebrasse, o nosso grupo perderia a única coisa que ainda nos tornava humanos: a ilusão de que a perfeição era possível.

​Eu não ia contar para ela quem era a Vanessa. Pelo menos não hoje. Hoje, eu só seria a amiga que a tiraria daquela calçada fria. Mas, dentro de mim, uma semente de revolta começou a crescer. Se os nossos maridos tinham decidido jogar as regras pela janela, talvez estivesse na hora de nós começarmos a escrever as nossas próprias.

​Parei o carro perto da estátua do Marquês de Pombal e vi a Helena. Ela parecia tão pequena, segurando aquele cesto de vime ridículo e romântico. Naquele momento, em meio ao barulho do trânsito de Lisboa, eu tomei uma decisão: eu não deixaria o Caio nos afundar, e não deixaria o Gustavo destruir o que restava da Helena.

​Custe o que custar.

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