O fogo não apenas me toca, ele me destrói. Sinto as chamas subirem pelas minhas pernas como serpentes vivas, famintas, agarrando-se à minha pele, mastigando-a, marcando cada pedaço de mim que ainda não foi destruído. A fumaça é tão densa que parece entrar pelo meu nariz e descer pela minha garganta como uma lâmina quente, impedindo minha respiração. Meu corpo, pesado e mole como carne esquecida ao sol, mal responde aos meus comandos enquanto tento rastejar pelos escombros.A dor é tão intensa que corta a realidade em bordas tremidas. E, ainda assim, paradoxalmente, é meu único consolo. A única prova de que eu ainda existo no meio do inferno que engole tudo ao meu redor. Os gritos se misturam ao estalar das vigas cedendo, ao ronco das paredes desabando, ao choro abafado dos homens sendo engolidos pelas chamas. Cada voz morre em questão de segundos, e eu sei que, se não me mover rápido, a minha será a próxima a silenciar.— Guilherme… Tento chamá-lo, mas minha voz é nada. Fragmentada.
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