A presença dela na sala, com o cardigã enrolado como um casulo, trouxe à tona uma vida que eu raramente via: a vulnerabilidade. Felicia, cuja imagem sempre flutuava à margem da dureza que nos rodeava, sentou-se com os olhos perdidos, como uma menina que procura respostas num jogo de adultos.
Perguntei o que a inquietava e ela disse, baixinho, aquilo que eu já vinha sentindo: que algo estava por acontecer, que talvez houvesse provas, que aquilo poderia explodir numa verdade inescapável. Respondi com frieza prática não importaria se houvesse provas ou não; a última análise dependia de mim. Eu estava vivo, era o marido, e tinha o modo de decidir. Poderia arremessá-la ao fundo de um poço, se quisesse. A possibilidade de ter esse poder borbulhou como um veneno latente. Era a lembrança daquilo que meu pai repetia como lema: sem piedade. E, no meu sangue, a lição parecia sempre ecoar.
Quando Felicia falou, era como se todas as cartas estivessem dispostas de novo. “É isso que você quer?” A vo