Capítulo 71

O veneno estava ali como uma palavra proibida e pesada, ecoando no ar como uma sentença. Quando ouviram aquela acusação, algo se partiu dentro de mim e não sabia como reagir a algo tão absurdo.

Veneno?

Como eu, com as mãos trêmulas de quem ainda tentava entender a própria vida, poderia ser capaz de planejar aquilo? A ideia me parecia tão grotesca que, por instantes, a própria palavra parecia berrar ilógica.

Eles me empurraram. A força do movimento me fez perceber, pela primeira vez, que havia pouco espaço para raciocínio naquele lugar; restava apenas a brutalidade do corpo contra o corpo, a pressa de levar-me onde acreditavam que eu deveria ser julgada. Caminhei numa espécie de atordoamento, como se alguém tivesse diminuído o mundo até caber no fundo do meu peito. Ouvi gritos, ordens ríspidas.

 "Cale a boca e ande.”

 "Anda.”

Palavras que cortavam como lâminas e me empurravam adiante.

Não entendia por que Luciano não estava ali. Recordei claramente a visita no porão sua sombra, a voz
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