A água fria escorre por minha pele como lâminas invisíveis que cortam, ardem e despertam mais do que limpam. Eu não sei se estou realmente lavando meu corpo ou apenas tentando, de alguma forma desesperada, arrancar de mim tudo que me prende, tudo que pesa, tudo que dói. A barra de sabão, endurecida e áspera, range contra as cerdas da escova, e depois contra minha pele, como se quisesse arrancar também pedacinhos de mim. Mas eu esfrego mesmo assim, com força, com urgência, com raiva. Quero me sentir limpa. Quero, ao menos, acreditar que posso me sentir um pouco mais limpa. Quero que a sujeira, o cheiro de medo entranhado no meu corpo e a marca da escuridão que vivi sumam. Ou finjam sumir.Quando jogo a água fria sobre minha cabeça, sinto o impacto como se tivesse levado um golpe direto. A pancada da água gelada faz meu couro cabeludo latejar, meu corpo inteiro enrijecer. É um erro, percebo tarde demais. Agora meu cabelo está pesado, molhado, embaraçado e frio até a raiz. O peso da água
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