Minha Fuga e Seu Remorso
Quando Álvaro voltou para casa trazendo um garotinho de três anos, eu estava escolhendo um berço.
O menino tinha olhos exatamente iguais aos do primeiro amor de Álvaro.
— Ela acabou de voltar ao país e não tem energia para cuidar de uma criança. A partir de hoje, eu vou criá-lo.
A voz de Álvaro carregava um tom de ordem inquestionável. No entanto, seu olhar estava fixo no meu ventre levemente arredondado.
— Quanto ao bebê na sua barriga... aborte. Esse menino é muito sensível e, no momento, não conseguiria aceitar outros irmãos.
Os meus dedos, que seguravam o exame de ultrassom, tremeram levemente. Fiquei em silêncio por um longo tempo. Depois, assenti, fingindo submissão.
— Tudo bem, farei como você quer.
No dia seguinte, saí da sala de cirurgia completamente sozinha. Em seguida, entreguei o comprovante de aborto para ele.
Álvaro colocou o papel sobre a mesa de forma casual e falou em um tom indiferente.
— Aquela cobertura duplex será transferida para o seu nome amanhã.
— Tudo bem, obrigada — concordei com a cabeça, mantendo a calma.
Como não viu o choro e os gritos que esperava, Álvaro franziu levemente a testa. Ele não disse mais nada.
Mas o que ele não sabia era que o aborto tinha sido falso. A casa, porém, eu faria questão de ficar com ela.
Afinal, eu sempre me lembrava de uma frase muito comum no nosso meio:
[As lágrimas devem ser verdadeiras, mas o coração deve ser falso. Cada pingo de culpa de um homem deve ser convertido em dinheiro.]