Mundo de ficçãoIniciar sessãoQuando Álvaro voltou para casa trazendo um garotinho de três anos, eu estava escolhendo um berço. O menino tinha olhos exatamente iguais aos do primeiro amor de Álvaro. — Ela acabou de voltar ao país e não tem energia para cuidar de uma criança. A partir de hoje, eu vou criá-lo. A voz de Álvaro carregava um tom de ordem inquestionável. No entanto, seu olhar estava fixo no meu ventre levemente arredondado. — Quanto ao bebê na sua barriga... aborte. Esse menino é muito sensível e, no momento, não conseguiria aceitar outros irmãos. Os meus dedos, que seguravam o exame de ultrassom, tremeram levemente. Fiquei em silêncio por um longo tempo. Depois, assenti, fingindo submissão. — Tudo bem, farei como você quer. No dia seguinte, saí da sala de cirurgia completamente sozinha. Em seguida, entreguei o comprovante de aborto para ele. Álvaro colocou o papel sobre a mesa de forma casual e falou em um tom indiferente. — Aquela cobertura duplex será transferida para o seu nome amanhã. — Tudo bem, obrigada — concordei com a cabeça, mantendo a calma. Como não viu o choro e os gritos que esperava, Álvaro franziu levemente a testa. Ele não disse mais nada. Mas o que ele não sabia era que o aborto tinha sido falso. A casa, porém, eu faria questão de ficar com ela. Afinal, eu sempre me lembrava de uma frase muito comum no nosso meio: [As lágrimas devem ser verdadeiras, mas o coração deve ser falso. Cada pingo de culpa de um homem deve ser convertido em dinheiro.]
Ler maisNo meu quarto dia de internação, a Dionísia veio me visitar.Ao abrir a porta do quarto, ela viu o Álvaro agachado no chão amarrando os cadarços do meu sapato.Os passos da Dionísia pararam por um instante.O Álvaro ergueu os olhos para ela sem dizer nada. Ele terminou de dar o laço e se levantou.— Dionísia, você chegou. — Ele fez um leve aceno com a cabeça.Ela o ignorou completamente e caminhou direto até a minha cama, sentando-se logo em seguida.— A sua aparência está boa. Bem melhor do que eu imaginava.Em seguida, ela lançou outro olhar rápido para o Álvaro.— Saia um pouco, pois eu quero conversar a sós com ela.O Álvaro olhou para mim em busca de aprovação. Como não demonstrei nenhuma reação, ele virou as costas e saiu.Após a porta ser fechada, a Dionísia me encarou fixamente.— Quais são os seus planos agora?— Eu ainda não sei.— Há quantos dias ele está aqui?— Faz quatro dias, e ele apareceu em todos eles.Dionísia ficou pensativa durante algum tempo.— Você acabou amolec
Com trinta e cinco semanas de gestação, acabei desmaiando na biblioteca.Acordei já no hospital, com uma agulha espetada nas costas da mão e o monitor cardíaco apitando ao meu lado.O primeiro a chegar foi o meu orientador, o Prof. Dimas, que estava no corredor ligando para a Dionísia.A segunda pessoa a aparecer foi o Álvaro.Eu não fazia ideia de como ele tinha chegado tão rápido. Mais tarde, descobri que ele já havia alugado um apartamento na Capital há duas semanas.E o prédio dele ficava bem ao lado do meu.Quando despertei, ele estava sentado ao lado da maca.Os seus olhos estavam vermelhos de cansaço e uma barba rala e escura começava a despontar no seu queixo.Ao me ver abrindo os olhos, ele se levantou de forma brusca. Porém, parecendo com medo de me assustar, voltou a se sentar lentamente.— O médico disse que você está com anemia e exaustão, então precisará ficar internada em observação.Mexi os meus dedos, tentando puxar a minha mão que estava presa nas dele.No entanto, el
Álvaro ignorou completamente o meu aviso.Ele apareceu novamente no dia seguinte.Dessa vez não foi no prédio da faculdade, mas sim na entrada do meu prédio.Ele estava parado perto da porta de entrada, carregando duas sacolas grandes.Olhei pela janela lá para baixo e hesitei por um minuto, decidindo não descer.Ele ficou em pé lá fora durante três horas seguidas.Por fim, deixou as sacolas na portaria e foi embora.Quando desci para buscar as coisas, o porteiro comentou: — É o seu marido? Ele é bem bonito, viu? Ficou aí um tempão esperando.Não dei explicações, apenas peguei as sacolas e subi para o apartamento.Dentro delas havia leite em pó para gestantes, ácido fólico, cálcio e também uma calça de moletom bem grossa para grávidas.A etiqueta da calça ainda estava lá, e o tamanho era exatamente o meu.Ele ainda se lembrava das minhas medidas.Nos nossos dois anos de casamento, ele nunca tinha me comprado nenhuma peça de roupa.Guardei tudo dentro do armário, sem intenção de usar.N
Naquela noite, depois de desligar o telefone, eu não consegui dormir.Às três da manhã, o bebê deu um chute na minha barriga.Passei a mão na barriga e fiquei totalmente desperta.Não importava de quem o Ignácio era filho, pois isso não mudava o que o Álvaro havia feito.Afinal, ele tinha mandado eu abortar o nosso filho.Ele me entregou uma guia de aborto como se fosse a única solução.E, do começo ao fim, ele nunca me perguntou se eu estava disposta a fazer aquilo.Esses fatos não iriam desaparecer apenas por causa de uma ligação.No dia seguinte, fui para a aula normalmente.Durante o intervalo, recebi uma mensagem de um número desconhecido.[Olá, Sabrina, aqui é a Inês.]Encarei a tela por uns dez segundos, mas não respondi.Então, ela me mandou mais uma mensagem.[Podemos nos encontrar? Eu queria te explicar a situação do Ignácio.]Digitei algumas palavras e as apaguei em seguida, acabando por enviar apenas uma única palavra.[Desnecessário.]Ela não enviou mais nada depois disso.





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