8. EDER

Fiquei sentado no sofá, pensativo, e em meio a tanta angústia, recebi a notícia de que havia uma esperança de vida. Cecília, a mulher que me colocou no mundo e que me abandonou ainda bebê nos braços do meu pai, está viva, mas respirando por aparelhos. Uma mulher contra quem jurei vingança desde o momento em que soube do que ela fez.

O tempo passou, e eu me tornei independente. Mandei investigar toda a vida da Cecília, por onde andava e o que fazia, porque a minha vingança tinha pressa. E Cecília estava mais perto do que eu imaginava: ela havia voltado para sua terra natal, San Francisco.

Engoli o meu orgulho e fui ao seu encontro porque Cecília precisava pagar por todo o meu abandono. Mas, no meu primeiro encontro com ela, Cecília se encontrava debilitada após um acidente. Já não podia haver vingança, porque, à minha frente, eu via uma mulher pagando caro por todas as suas escolhas do passado. Lembro-me como se fosse hoje, porque as lembranças ainda estão vivas, e eu nunca esqueci do seu olhar doloroso ao dizer:

— Você veio — disse Cecília, com a voz fraca e eu travei o maxilar.

— Eu não vim à procura de afeto e nem de amor, porque você não os possui. Vim me vingar de você — Dei um passo à frente.

Ela fechou os olhos por um instante, como se já esperasse por aquilo.

— Não precisa, Éder. — Sussurrou. — Já estou morrendo todos os dias, de tanta dor. Perdi tudo. Não tenho nada e nem ninguém, estou acamada. — soltei uma risada seca.

— Ainda bem que vim ver com os meus próprios olhos que a colheita existe — virei as costas.

— Perdão, Éder! — a voz dela falhou carregada de desespero — Sei que não vai aceitar, mas eu preciso dizer. Errei e me arrependo amargamente — Cecília confessou e, em seguida, silenciou.

Ouvi sua confissão de costas, porque não acreditava em nenhuma palavra que saia da boca dela. Quando olhei para trás novamente, Cecília estava desacordada. Pensei que a vida dela não teria importância para mim, mas foi ao contrário: desesperado, a peguei nos meus braços levei-a até um hospital junto com a senhora Bina, sua cuidadora, e consegui salvá-la da morte.

Daquele dia em diante, não consegui deixá-la sofrendo em um hospital público, porque eu não teria paz. Não a perdoei, mas também não a abandonei. Acolhi Bina e Cecília e as deixei em uma das minhas casas, longe de mim, porque não quis mais vê-la desde então. Ainda assim, deixei-as aos cuidados de Kênia, a médica que contratei para cuidar dela.

Tentei ignorar o fato dessa mulher ainda respirar no mesmo mundo que eu, mas o destino nunca se contenta com pouco. Cecília está de volta muito perto de mim, lutando pela vida. A poucos quilômetros da minha casa está o hospital onde ela está internada. Ninguém sabe que minha mãe está viva, exceto Kênia.

Fiquei meio desnorteado com a possibilidade de perder Cecília. Então subi para o meu quarto na tentativa de dormir e relaxar, porque hoje não foi fácil — muita coisa ao mesmo tempo. Fiz minha higiene, tomei um banho e deitei na cama. Lembrei de quando era criança, de como meu pai me tratava mal: a frieza, a indiferença… enquanto eu, sendo apenas uma criança, só queria ser amado, abraçado e compreendido. Não tive carinho de nenhum lado.

Meu pai sempre disse que Cecília não valia nada, que se relacionava com vários homens e que eu fui um erro, uma pedra no caminho. Ele só me aceitou porque foi feito um exame e ele não teve alternativa senão me tornar um de seus herdeiros.

Não existe coisa pior do que nunca ter sido amado verdadeiramente por ninguém. É por isso que não acredito no amor.

---

No dia seguinte, acordei cedo e segui minha rotina normalmente. Antes de ir para a empresa, Kênia chegou à minha casa, e eu já temia que ela trouxesse uma má notícia.

— O que aconteceu, Kênia? — perguntei friamente.

— Passei aqui para te ver e dizer que sua mãe está na mesma. — Kênia se aproximou de mim.

— Cecília não é a minha mãe — me afastei dela.

Saí, deixando-a sozinha. Meu motorista já me esperava, e fui diretamente para a empresa, mesmo sendo um dia de folga, em que eu deveria estar descansando. Liguei o computador — eu só queria me refugiar no trabalho — e assim fiz por algumas horas.

Mas uma mensagem importante chegou ao meu celular: o dossiê da família Lins. Parei de ler imediatamente os relatórios. Na minha cabeça, só veio Kira.

Abri a mensagem e comecei a ler. A família é muito bem-sucedida, mas não é dessa cidade. O pai de Kira chegou aqui como um trabalhador comum, com sua esposa, e, com muito esforço e honestidade, construíram tudo o que têm. Hoje, são empresários renomados.

— Não pode existir tanta perfeição… Não acredito nessa família feliz — disse para mim mesmo.

Continuei lendo, agora sobre Kira. Ela está sendo enrolada por aquele patife — quatro anos entre namoro e noivado. Médica fisioterapeuta, generosa, ajuda os pobres… isso eu também faço, sem me identificar. Tem uma melhor amiga chamada Felipa, que de amiga não tem nada.

Arregalei os olhos ao ler o que estava no arquivo, ao descobrir o que a tal amiga está fazendo com Kira.

— Uau… não é possível. — Sorri de lado. — Sim, é possível. E eu vou aproveitar essa situação a meu favor.

Kira que me aguarde. A roda vai girar na vida dela, e eu vou assistir tudo de camarote. Eu sabia que a perfeição não existia na vida de ninguém.

Liguei para o investigador e pedi que ele viajasse para a cidade natal dos pais de Kira. Quero saber mais sobre o que eles faziam antes de vir para cá.

Desliguei o computador e decidi ir para casa terminar de ler os relatórios, tomando um bom vinho.

#quem tiver lendo deixe comentários, eles são de extremas importância.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP