7. EDER.

Perdi totalmente a fome após a vinda do padre aqui. Creio que todos da empresa estão sem entender nada com a presença dele, até porque não sou nem um pouco caridoso. Minha secretária avisou que Lukas está aqui, então mandei que ele entrasse imediatamente.

— Éder, trouxe alguns documentos do condomínio Vilamout. O engenheiro me comunicou que a obra foi totalmente concluída.

— Boa notícia. Cuide de contemplar todos os que já compraram os apartamentos.

— Acho incrível a sorte que você tem. Você é uma máquina de fazer dinheiro. — Lukas diz e eu apenas soltei um riso baixo.

— Meu pai dizia: invista seu dinheiro em imóveis, bolsa de valores, aprenda economia. E eu fiz mais do que isso.

— Você se tornou quase o dono de toda a cidade — Lukas falou, admirado e eu levantei o olhar frio.

— Não sou o dono, nem faço questão de ser. Quero ser respeitado e admirado.

— Isso você já é.

— Não sou — neguei pensativo.

Lukas ficou me observando enquanto eu permanecia em silêncio. Ele, parado à minha frente, me despertou com uma pergunta:

— Éder, ouvi dizer que um padre veio aqui?

— Veio a mando da Kira, que não gostou nada das flores que eu mandei — falei, recostando-me na cadeira.

— Era o que se esperava. Kira é uma mulher comprometida.

— O que você sabe sobre o noivo dela? O padre disse o nome dele... chama-se Tecio — falei, com indiferença.

— Tecio Fernández, o engenheiro da Fernández. Ele foi o homem que competiu com você na compra daqueles terrenos baldios.

— O mesmo que quis negociar a compra de metade dos terrenos para construir uma clínica ou um hospital — falei, com raiva.

— Você não sabe quem ele é, até porque fui eu quem conversou com ele.

Rapidamente pesquisei sobre ele e vi sua foto. Não preciso ir muito longe para saber que ele não vale nada; o sorriso dele não diz tudo.

Liguei para o investigador e pedi urgência nas investigações, oferecendo o dobro do pagamento. Com isso, anoiteceu e eu ainda estava em jejum. Nunca passei um dia sem jantar.

Liguei para Lukas, pedindo sua companhia. Poderia convidar Kênia, mas hoje estou sem paciência para ela. Enviei por mensagem o endereço do restaurante.

Quando cheguei, Lukas já estava sentado, me esperando enquanto olhava um tablet. Ainda bem que ele me conhece e escolheu uma mesa em um canto mais reservado.

— Éder, pensei que hoje você sairia com Kênia — ele me provocou.

— Não estou com cabeça. Tive problemas demais hoje: padre, Kira... Kênia é só mais um. Preciso de paz — desabafei, cansado e Lukas me encarou com um olhar afiado.

— Éder, é você que quer transformar Kira em um problema — Lukas diz e eu ignorei a opinião dele.

Terminamos de falar e um garçom se aproximou de nós. Fizemos nossos pedidos. Pedi um bom vinho, precisava de algo forte para beber. Enquanto conversávamos e degustávamos a entrada — já que eu estava faminto —, Lukas começou a tossir de forma estranha. Franzi o cenho e segui o olhar dele e então vi Kira lindamente, intocável, acompanhada de seu noivo. Meu coração disparou, o corpo inteiro reagiu, mas ao lado dela está o tal Tecio. Fechei a cara imediatamente.

— Éder, precisa voltar para a terra — Lukas chamou minha atenção.

— Então esse é o canalha noivo dela? Nunca vi mais feio — ri sem humor, virando a taça de vinho de uma vez na boca. — Já vi coisa melhor.

— Éder, somos amigos há um tempo, e eu nunca te vi assim, nervoso por causa da Kira. Você está interessado nela? — Olhei direto para ele.

— Veja só o que você está dizendo. Não estou interessado em ninguém — encerrei o assunto e a tensão se instalou na mesa.

O jantar chegou e meu apetite já tinha ido embora, mas comi mesmo assim para passar o tempo, os meus olhos sempre se voltam para Kira repetidas vezes. Vejo Kira mais apaixonada do que ele. A idiota não percebe e isso me irritava.

— Daria tudo para saber o que se passa nessa sua cabeça — disse Lukas.

— Nada está passando aqui — Menti de novo.

— Éder, vou precisar ir agora.

— Vou ficar mais um pouco — disse, e ele foi embora.

De longe, fiquei observando Kira e Tecio bebendo lentamente cada taça de vinho. Esse homem não sente nada por ela. É frio e distante, trouxe-a para jantar, mas não a presenteou com nada além de uma rosa vermelha. Tenho um sexto sentido que não falha: Kira não é amada por Tecio.

Só fui embora quando os dois saíram. Com certeza, o terreno que esse canalha queria comprar era para montar algo para Kira. Preciso urgentemente desse dossiê.

Durante o caminho para casa, lembrei do que Lukas disse "você está interessado nela" apertei o volante com raiva. não é nada disso, é curiosidade mesmo, curioso para saber mais sobre ela. Minhas intenções com Kira é somente mostrar controle e domínio.

Quando cheguei na minha mansão, o silêncio me engoliu e o meu celular tocou. Era Kênia. A ignorei jogando o aparelho de lado, pois não queria falar com ninguém. Mas ela insistiu, ligando várias vezes, até que atendi.

— Alô.

— Cecília passou mal, fui avisada. Estou levando ela para o hospital. — A sua voz era tensa.

— O que ela tem? O que houve a uma hora dessas? — perguntei, preocupado, levantando do sofá.

— Um infarto. Estamos levando ela para o hospital da cidade. Não tenho outra opção, ou ela morre — disse Kênia, rapidamente e o mundo pareceu desacelerar.

— Faça o impossível por ela — Desliguei e o silêncio voltou mais pesado e sufocante.

Levei as mãos a cabeça em completo desespero. A minha vida é um caos, um verdadeiro inferno, eu não tenho paz. Na verdade acho que nunca vou ter, os meus olhos se encheram de lágrimas.

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