5. ÉDER

Continuei lendo o restante da notícia do casal e, na manchete, falava que Kira era filha única. A joia preciosa da família. Joguei o jornal de lado e fiz apenas uma ligação para saber o endereço do trabalho de Kira. Não demorou muito e recebi a informação que precisava para lhe enviar um lindo presente: um buquê de rosas para surpreendê-la.

Não era qualquer buquê, era o mais caro da cidade, da melhor floricultura que temos por aqui. Liguei e, ao fazer o pedido, optei por rosas delicadas, iguais à mulher que vai recebê-las.

Não sei ao certo explicar como ela é. Parece delicada, mas tem um gênio forte, difícil de suportar. Uma beleza que contrasta com tudo o que penso dela, e seus olhos amendoados combinam com seus fios claros. Ouvi batidas na porta e mandei entrar.

— Éder, enviei o endereço para o seu celular. — Lukas falou.

— Tirei o melhor proveito possível. — falei, com um sorriso sarcástico.

— Conheço esse sorriso... Está fazendo maldade.

— E desde quando enviar flores a uma dama é maldade? — disse, sério.

— Não tem quem pare você. Fico imaginando ela vendo que foi você quem mandou. — Lukas disse, incrédulo.

Lukas foi embora. Insultei Kira e agora é esperar um telefonema ou, quem sabe, a sua presença aqui. Ela não é o tipo de mulher que leva ofensa para casa, principalmente sendo noiva. Inclusive, uma das minhas curiosidades é saber quem é ele. Mas vou esperar a conclusão da investigação e só assim irei agir por completo.

Quando voltava a focar no meu trabalho, o telefone tocou. Ao atender, minha secretária avisou que Kênia estava na linha. Bufei, cansado, porque nunca vi mulher mais insistente, e então atendi.

— Alô, Kênia. — falei, sério.

— Éder, esqueceu de mim, foi? Há dias estou esperando você me ligar para sairmos.

— Tenho trabalhado demais, Kênia. Desculpa.

— Já vai fazer um mês e você não honrou com a sua promessa. Está chegando o dia do atendimento da minha paciente.

— Não quero tocar nesse assunto. Você sabe que, quando elas precisarem, ligarão para você, sem precisar que eu saiba. — disse, estressado.

— Calma, Éder. Liguei somente para ouvir a sua voz. Nunca escondi que sou apaixonada... — Kênia disse, e eu a interrompi.

— Mas eu não sou apaixonado por você. Não sei o que é isso, muito menos o que é amor. — disse, sem paciência.

— Infelizmente, eu sei disso. Liguei mesmo só para ouvir a sua voz. — Kênia respondeu.

Infelizmente, tenho que ser duro com ela, porque sua insistência é irritante. Odeio quando Kênia me lembra das minhas feridas incuráveis. Parece que sente prazer em tocar nesse assunto desagradável.

Continuei trabalhando e recebi a notificação de que as flores foram entregues. Agora é só esperar a princesa vir tirar satisfação ou o telefone tocar.

As horas se passaram e o telefone não tocou, nem ninguém apareceu. Isso me deixou intrigado. Será que as rosas realmente foram entregues a Kira? Olhei o relógio e vi que perdi completamente o horário do almoço. Quando já estava de saída, minha secretária avisou que o padre Cristian queria falar comigo. Eu poderia simplesmente não recebê-lo, não sei o que ele ainda quer. Deixei uma fortuna ontem para a igreja, mas mandei que ele entrasse.

— Boa tarde, Éder. Obrigado por me receber. — o padre falou, tímido ao me ver.

— A que devo a honra da sua visita? Houve algum problema com o pagamento do leilão? — perguntei, encarando-o.

— Não há nada de errado com o pagamento. O problema é outro... e tem nome: Kira. — o padre respondeu.

— Kira Lins. O que houve com ela de tão grave que o senhor teve que intervir? — disse, descaradamente.

— Sobre as flores que você enviou a Kira... por favor, filho, pare! Kira é noiva, e isso não pega bem.

— Foram só flores, padre. Não sei por que tanta ofensa. Eu não tenho culpa se o noivo dela não a presenteia com um buquê.

— Falei isso para Kira. O noivado dela já é antigo, e o medo a ronda... medo de perder Técio.

— Então o nome do noivo é Técio. Padre, avise a Kira que o seu noivo não quer deixar de ser noivo. Mais alguma reclamação?

— Nenhuma, filho. Já vou embora. Com licença. — o padre saiu de cabeça baixa.

Bati forte na mesa, com raiva. Esperava que ela viesse até mim, mas não. Pediu ajuda a um padre para interceder por ela. A vinda dele aqui não vai me fazer esquecer o que aconteceu ontem no estacionamento.

Kira mexeu com a pessoa errada. Tenho planos melhores para ela e para sua família. Vi que não sou flor que se cheire para eles, que me odeiam, mas vou descobrir o que faz a família Lins me odiar gratuitamente. Nunca fiz nada contra eles, muito menos contra seus pais.

Em breve, terei todas as respostas. E tudo vai se encaixar. E, no final, todos terão que me engolir.

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