Mundo de ficçãoIniciar sessãoO ambiente dentro do presídio parecia se estreitar a cada dia para Teteu. Sem as visitas de Emília, sem o jumbo caprichado que ela preparava com tanto zelo, a realidade do confinamento bateu com força total.
Teteu estava isolado, desandando cada vez mais, dizendo que ela iria fortalecer ele, logo, inventou que ela ficou doente até. O aviso de Kecharq ecoava em sua mente como uma sentença de morte silenciosa: se ficasse devendo de novo, não haveria conversa, ele viraria propriedade dos caras, virar mulherzinha.
O medo de se afundar novamente no vício e nas dívidas, somado à ausência completa de sua principal provedora, deu início a um processo de paranoia e desespero que ele já não conseguia mais ocultar.
Nos primeiros dias da ausência de Emília, Teteu tentou jogar o único jogo que conhecia bem: o da manipulação sentimental. Usando as declarações, ele passou madrugadas em claro escrevendo cartas longas e melodramáticas.
Apelava para as memórias dos primeiros anos de namoro, lembrava do quanto ela dizia amar o seu cheiro e o seu corpo, e derramava promessas vazias de que, assim que ganhasse a liberdade, tudo seria diferente.
Teteu se pintava como uma vítima das circunstâncias da prisão, um homem desesperado que só queria sobreviver. Ele implorava para que Emília não soltasse a sua mão no momento mais sombrio de sua vida. Enviou várias dessas cartas, esperando que o coração mole dela cedesse, como sempre acontecia.
No entanto, o retorno não veio.
Quando percebeu que as cartas não estavam surtindo efeito, o desespero se transformou em frustração pura. Ele conseguiu, prestando favores, manter os cigarros, estava fazendo promessas, sobre a tão esperada visita de Emília.
Estava chegando o dia de visitas, Kecharq mesmo deixou Teteu ligar, para falar com ela.
Ele discou o número de Emília com os dedos trêmulos, o peito cheio de uma expectativa ansiosa. Mas a ligação nem sequer chamou, caiu direto na caixa postal. Ele tentou o segundo número, de uma vizinha que às vezes lhe dava recados, e até mesmo os contatos do trabalho dela. Não conseguiu nada.
Emília havia desistido de se esforçar. Ela tinha construído uma parede intransponível de silêncio. Foi nesse momento que a máscara do “bom homem” caiu de vez, revelando a verdadeira face egoísta e violenta de Teteu.
Ele mandou uma mensagem ameaçando ela, dizendo que os caras iam cobrar ela na rua, com o aval dele, e que se ela estivesse traindo ele, seria cobrada.
No dia seguinte ela atendeu uma ligação, achando que era ele. Pretendia dizer que não ia vê-lo. Nem teve tempo, ele foi logo falando.
— Emília! Que p.orra é essa? Você enlouqueceu? — Teteu esbravejou assim que ela atendeu, sem sequer dar espaço para um cumprimento.
A voz dele estava carregada de uma agressividade ácida.
— Estou há semanas sem receber uma visita, sua filha da pu.ta tá com macho aí na rua?
— Os caras aqui estão me cobrando o que eu peguei fiado e você sumiu! Você acha que está lidando com quem? Eu sou seu marido, caralh.o!
— Nunca deixei faltar um nada pra você. Sempre te dei tudo do bom e do melhor.
Do outro lado da linha, o silêncio de Emília por alguns segundos quase o fez surtar de ódio. Quando ela respondeu, sua voz não tinha o choro ou a submissão de antes. Estava fria, firme e distante.
— Já acabou? Matheus?
— Nosso casamento acabou no dia em que você me empurrou contra aquela parede e me mandou abrir as pernas para pagar o seu vício, Matheus. Não uma vez, mas duas vezes. Eu fiz a minha parte. A sua dívida com o Kecharq morreu. Agora não me procure mais.
— Ah, vai querer dar uma de santa agora? — Teteu riu, uma risada cínica e cheia de sarcasmo, revelando todo o seu egoísmo.
— Você abriu as pernas porque quis, para salvar a minha vida! Você me deve muito! E gostou de dar pra outro, que eu tô ligado, sua vagabund4.
— Tá achando que vai virar fiel é? Você é só mais uma marmita, toda visita tem até duas pra fo.d3r com ele. Você não é nada, só mais uma.
— Se você não aparecer aqui na próxima visita, eu juro por Deus que quando eu sair dessa merd4, eu vou atrás de você e vou te pegar! Você é minha mulher e vai fazer o que eu mandar!
— Não, Matheus. Eu não sou mais sua. Nunca mais serei. — ela respondeu, desligando o telefone na cara dele antes que ele pudesse derramar mais insultos.
O jeito que a ligação foi encerrada ecoou na mente de Teteu como um gatilho. O ódio o cegou. A humilhação de ser rejeitado pela mulher que sempre fizera tudo por ele, combinada com a arrogância de quem ainda se julgava o dono da situação, acendeu uma faísca perigosa em sua mente paranoica.
Teteu começou a repassar os detalhes da última visita dela em sua cabeça. Lembrou-se do jeito que Emília havia entrado na ala das visitas íntimas, de como Kecharq olhara para ela e, principalmente, de como o chefe da facção agiu depois que ela foi embora.
Kecharq havia limpado a dívida com uma facilidade que não combinava com o seu histórico impiedoso. Ele proibira Teteu de tocar na lasanha e na comida que Emília trouxera, como se estivesse guardando tudo para si, pra agradar ela.
E, nos dias seguintes, o tratamento dos aliados de Kecharq em relação a Teteu mudara sutilmente. Não era mais o desdém de antes, mas sim uma vigilância silenciosa, como se ele estivesse sob observação constante. A arrogância e o orgulho ferido de Teteu o impediram de ver o perigo óbvio.
Em vez de se encolher e aceitar a sua sorte, a mente dele distorceu os fatos. Ele começou a desconfiar de que houvera um acordo por trás de suas costas, de que Emília e Kecharq estavam compactuados de alguma forma, ou pior, que ela queria continuar se deitando com Kecharq, em troca de algo que ele não sabia.
A vaidade de malandro não permitia que ele aceitasse que fora trocado ou descartado. Teteu então cometeu o erro mais fatal que um preso comum pode cometer dentro do sistema controlado por facções: ele começou a falar demais.
No pátio do banho de sol, sob o calor sufocante, Teteu se aproximou de alguns detentos da “disciplina”, homens que faziam a segurança interna do pavilhão e respondiam diretamente às ordens de Kecharq. Ele estava com o olhar alterado, as mãos inquietas.
— Aí meus parceiros, da licença com todo o respeito, preciso trocar uma ideia de boa. — Teteu começou, tentando adotar uma postura que ele já não possuía.
— Estou achando que o Kecharq passou da linha comigo. O papo com ele foi um acerto de dívida. Mas a minha mulher sumiu, não atende mais o telefone e o pessoal na rua tá dizendo que ela tá com ele.
— O cara usou o meu corre para ficar de conversa fiada com a minha fiel do lado de fora?
Os homens da disciplina, interromperam a conversa e olharam para Teteu como se estivessem vendo um homem cometer suicídio em tempo real.
— Você não tá sabendo o que tá falando, seu comédia. — um deles perguntou, com a voz baixa, o tom de aviso implícito.
— Você tá jogando o nome do patrão, no chão no meio do pátio? Abaixa o tom para falar do Kecharq.
— Abaixa o tom o car4lho! — Teteu exclamou.
— Tá certo essa fita? Pegar a minha mulher?
A arrogância dele superou qualquer vestígio de instinto de sobrevivência. Ele queria mostrar para os outros presos que não era um “ninguém”.
— Eu sou sujeito homem! Se o cara tá usando o poder dele para blindar a minha mulher lá fora e me isolar aqui dentro, ele tá agindo na talaricagem! Isso é errado! Eu quero falar com ele, no tribunal! Quero tirar essa satisfação cara a cara com testemunhas! Ele acha que só porque é grande, pode mexer com a mulher dos outros e ficar por isso mesmo?







