Mundo de ficçãoIniciar sessão
Aurora Bellini
Houve uma época que eu acreditava em conto de fadas. Eu era uma criança inocente. Achei que um dia eu encontraria o amor, que seria feliz. Eu demorei a entender, que ter o sangue de Apolo correndo nas minhas veias, era o suficiente para me condenar a uma vida infeliz, e que meu pai vivia apenas para a famiglia. Eu não era o herdeiro que ele sempre quis, e isso fazia com que eu sofresse todas as consequências. Minha mãe era a culpada por não ter lhe dado um filho homem. Eu era culpada por ter nascido mulher. Mesmo assim, nada me preparou para o que aconteceu. Eu lembro do cheiro de terra molhada, do olhar frio que ele destinou a mim e do barulho do trovão cortando o céu. Minha roupa estava suja de terra e molhada da chuva. Estávamos brincando, uma brincadeira sem graça, mas ele parecia se divertir. Papai chegou em casa tarde, mas seus olhos estavam diferentes, havia um brilho, algo que gritava perigo. Mamãe sussurrou para que eu fosse para o meu quarto, mas assim que subi o primeiro degrau, ele correu até mim. — Você, tão linda, tão… menininha. — ele segurou meus ombros, eu pude ver a morte estampada neles. — Você é a minha princesinha, Aurora. Mesmo que não devesse. — Você tá bem, papai? — ele sorriu. Um sorriso de escárnio, e eu senti um arrepio percorrer a minha pele. — Se você fosse um menino, você seria meu sucessor no trono. No topo, mas… sua mãe me deu você, e agora, eu preciso que todos saibam que o meu nome é importante. — Mamãe… — supliquei quando ele apertou meus ombros. — Querido, deixe ela subir, sim?! — mamãe tocou as costas dele com delicadeza, como ela sempre fazia. Mamãe parecia estar em alerta constante, sempre que ele estava por perto seus olhos ficavam mais arregalados, demonstravam medo. E ali, naquele momento, eu também senti. — Nós vamos brincar. Você vai correr. O mais rápido que puder, até o galpão. — um aperto mais forte nos meus ombros. — Você está me entendendo?! Não sei quando as lágrimas começaram a cair. Mas ele estava completamente fora de si, meu coração batia forte, parecia querer fugir do meu corpo. Ele gritou mais alto, e mandou eu correr. E então, eu corri. Mas não na direção dele. Abracei a mamãe, e eu não deveria ter feito isso. Ele ficou bravo, muito bravo. Era óbvio que ele ficaria furioso, mas eu sentia o medo percorrer meu corpo como se fosse lava. Quando o tiro ecoou na casa, eu fechei os olhos tão fortes que achei que nunca mais conseguiria abrir. — Eu mandei você correr! E então eu corri. Sem olhar para trás. Abri a porta, e apenas a puxei rezando para que ela fechasse. Pulei os degraus e corri. O segurança, num primeiro momento me encarou, acho que assustado, e então começou a correr atrás de mim. Ouvi o papai gritando para ele parar, e eu soube que aquela noite o papai me mataria. Tropecei em algo, apoiei a minha mão no chão, e senti a dor, mas levantei e continuei correndo. Não sabia dizer o que era chuva, o que era lágrima, mas sabia que estava doendo. Meu coração pulsava tanto que eu achei que morreria antes de chegar ao galpão. — Mais rápido! Está correndo como uma garotinha besta. — ele gritou. E eu ouvi um disparo. Fechei os olhos. Não foi em mim. Foi na direção dele. Desviei o caminho, entrando atrás da sauna, e parei por um segundo, tentando respirar. — Você enlouqueceu? — papai gritou, e então eu cometi o pior erro da minha vida, eu espiei. Mamãe sempre me disse para focar no meu objetivo. Se meu objetivo era fugir eu devia ter corrido sem olhar para trás. Ela falou algo que eu não consegui escutar e ele deu um tapa no seu rosto. Coloquei a mão na boca. Não podia ser real. E então ele colocou a arma na sua testa. Ela não recuou, ela não pediu perdão, ela não fez nada. E ele atirou. — Nãaaaaaaao! Mamãe! — as lágrimas caiam sem parar. — Para o galpão, Aurora. Agora! — ele gritou tão alto, que tenho certeza que foi possível ouvir de longe. Dei dois passos para trás, e bati em alguém. — Shiii! — Kane disse, se agachando e ficando da minha altura. — Ele está fora de si, mas eu não vou deixar ele fazer nada com você. Aurora, me escuta: vai para o galpão. Faça o que ele pedir sem relutar. Ele não vai matar você, e eu vou te ajudar a fugir depois. Ele precisa de você, princesa, viva. Você é a chave para tudo. Por favor, colabore. — Ele matou a mamãe. — foi tudo que eu consegui dizer e Kane me abraçou, forte, esquecendo todos os protocolos. — Escuta, faz o que eu estou pedindo, pequena mariposa. O código secreto. Olhei para Kane assustada. Ele sabia o meu código com a mamãe, então ele deve ser uma pessoa boa. Concordei com a cabeça e corri para o galpão. Sentia meu coração bater forte, ainda estava longe do galpão quando escutei passos se aproximarem. Não olhei pra trás. Forcei meus olhos a olharem apenas para frente. Mas os passos eram rápidos demais. O barulho deles se chocando contra o chão faziam meu corpo inteiro se arrepiar. A chuva não parava. O céu estava chorando. Meu vestido branco agora era uma mistura de terra e chuva. Mãos grandes me pegaram pela cintura, me erguendo e correndo comigo junto, como se eu fosse uma pluma. Papai estava muito bravo. E eu não sabia o motivo. — Aurora, sente-se aqui, e fique quieta. — papai disse assim que entramos no galpão, me colocou sentada em uma cadeira, bem no meio daquele lugar sujo e asqueroso. Ali fedia a carne podre, e a mamãe sempre me falou para não confiar naquele lugar. Mas eu não tinha outra opção, então eu obedeci. Algum tempo depois Kane entrou no galpão, ele me olhou, por tempo demais, e ficou de pé ao lado da porta. Meu pai estava falando comum gorducho baixinho, comum bigode engraçado, quando me olhou e sorriu. Então, trouxe um aparelho esquisito para perto de mim. — Agora você vai fazer um teste de visão. Quis dizer que eu enxergo muito bem. Olhei para Kane, que levemente balançou a cabeça e imitei o gesto, olhando para frente. Eu não podia deixar o papai perceber que o Kane era… bem, alguém que eu podia confiar. Eu espero. Meu coração batia tão forte, meu corpo tremia, e eu disse que era frio, afinal eu estava molhada. Mas a verdade é que eu recém vi meu pai matar a minha mãe. E eu estava com medo. O homem mandou eu abrir o olho, e disse que iria medir ele, então ficou fazendo algumas fotos, e logo depois trouxe um pequeno cofre. Era uma caixa quadrada de metal, esquisita demais, mas com um painel eletrônico. — Olhe para o centro, pisque três vezes e fique com o olho aberto por cinco segundos. Hesitei por um momento, mas logo eu fiz o que ele mandou, e então… o cofre abriu. — A vadia colocou a íris dela como senha. — meu pai falou, bravo o suficiente para me fazer arrepiar. — Aurora, você sabe qual a sua missão na nossa famiglia, não sabe? — Sei, senhor. — engoli seco. Eu odiava isso. Segurei as mãos juntas no meu colo, e endireitei a postura antes de continuar, como mandava a conduta oficial — Sou uma mulher justa, casta e honrada. E na hora certa eu servirei a famiglia e me tornarei a esposa de algum aliado, para manter a nossa honra e aumentar o nosso poder. Ele sorriu. Um sorriso orgulhoso. — E é por isso que você terá que realizar o ritual. — Senhor — Kane falou — será que realmente é necessário? — papai encarou o soldado, e seu sorriso mudou, era o maléfico. Fechei os olhos. Tentei me concentrar na respiração. — Extremamente. Mas, ela é uma Moretti, agora ela vai ficar marcada para quem quiser ver. As palavras dele soaram estranhas, e quando abri os olhos, só consegui gritar. Antes que eu pudesse correr, um dos seguranças me segurou. Kane não olhou para mim, ele olhava para Marco, o meu pai, com um olhar que dizia “eu vou te matar”. Eu sabia o que viria a seguir. Me debati, tentei sair dos braços do soldado, e então outro veio o ajudar a me segurar. Eles me imobilizaram, e eu gritava, implorava para eles pararem, mas eu sabia que não adiantaria. O homem que eu deveria chamar de pai estava se aproximando de mim, com o ferro quente, em brasa, com a marca da famiglia. — Nãaaao! — gritei, mas ele não parou. Senti o ferro quente tocar a minha pele e a dor me atingiu em cheio. A queimadura criou uma bolha na hora. E senti meu coração se quebrar, a partir desse momento meu objetivo é matar Marco Moretti e esquecer que ele é meu pai.






