Mundo de ficçãoIniciar sessãoVicenzo Vizzine
Absolutamente tudo cheirava a emboscada. O rádio estava em completo silêncio, meu pé afundava o acelerador e pairava no ar o cheiro de metal e borracha queimada. À nossa frente, o esportivo dele parecia estar modificado. Já tinha perdido a conta de quantos quilômetros por hora estávamos. Mas, algo me dizia que ia dar merda. Essa parecia uma daquelas noites que o melhor a se fazer era ficar em casa, quieto. Mas, eu sou o Vicenzo Vizzine e não posso me dar esse luxo. Eles esperam que eu seja o maior, o mais cruel, o mais temido. E eu sou. Só que minha garotinha estava me esperando para um piquenique noturno e eu não estava vendo o fim nessa merda de “operação”. Algum X9 tinha nos delatado um desvio de rota na nossa carga de armas, e acabamos aqui. Perseguindo a porra de um carro que parece um foguete. Era óbvio que ia dar merda. E que eu iria matar qualquer filho da puta que se metesse no meu caminho. Só que eu conheci o breu. A porra de um segundo pode ser decisivo. O alerta piscou no meu celular e no painel do carro. Minha casa foi invadida. Nesse mesmo momento, alguém jogou vários pregos para carros na pista, e meu pneu furou. Tentei controlar o carro, girei a direção, e senti meu corpo girando, vi os carros que vinham atrás de mim freando, e colidindo uns contra os outros. Meu carro saiu da pista, capotou. Sentia meu corpo se chocando contra o sinto de segurança e voltando para o banco, a lataria amassando e então ouvi o barulho dos tiros. Mas o que veio depois me deixou ainda mais curioso. Fomos amadores demais. Algo atingiu os carros dos meus aliados e tudo explodiu. Fechei os olhos. Mas o barulho continuava ecoando pelo meu carro. Alguém invadiu minha casa, e para o alerta estar tocando, alguém tinha entrado no bunker. Nunca acreditei que um dia eu usaria essa tecnologia. Nunca acreditei que alguém precisaria se esconder no bunker. Minha fortaleza estava ruindo, e eu não deixaria barato. Senti o último impacto do carro contra uma árvore e fechei os olhos. O nosso maior inimigo somos nós mesmos. Vivi uma guerra contra a minha mente, que insistia em apagar e retomar a consciência. Quando finalmente consegui abrir os olhos, a luz praticamente me cegou. Estava fora do carro, com alguém tocando em mim. Sentia a ponta dos dedos gelados me cutucar, e isso me fez acreditar que eram os meus aliados, meus soldados. Se fosse o inimigo eu estaria morto. Minha filha e minha mulher! Merda, preciso ir para casa. Abri os olhos, e minha surpresa foi tanta que agradeci por estar deitado. A garota não olhava para mim, ela era mais nova, bem mais nova. Seus cabelos tão claros e olhos azuis que pareciam cristais. Com certeza eu morri e estou no céu. Deus foi piedoso comigo e colocou seu anjo mais bonito para cuidar de mim. Merda. — Shi! — ela disse, e empurrou meu ombro contra o solo de novo, deitei, piscando algumas vezes. Não estou no céu, continuo na floresta onde meu carro entrou após capotar. — Quem é você? — ela tentava parecer calma, mas seu olhar denunciava o medo. — Eu faço as perguntas aqui. Quem é você? — Tudo bem, senhor “eu mando em tudo”. Você não está num local apropriado para isso. — ela passou uma pasta verde nos meus machucados, e eu quis vomitar. Que porra era essa, afinal? — Você vai ficar bem. — ela disse, balançando a cabeça, como se tivesse lido meus pensamentos. — Preciso que me ajude a chegar em um lugar. — Não vai dar. Eu… te ajudei a sobreviver. Não ia te deixar morrer dentro daquele carro. Mas, a essa hora, provavelmente todo mundo acha que você morreu, sinto muito. — O que? — mas que porra ela estava falando? — Seu carro explodiu, cerca de uma hora depois que te tirei de lá. Tem uns homens rondando a floresta, mas eles não vão chegar aqui. Não inteiros, pelo menos. A encarei. Do que essa garota estava falando afinal? — Você precisa… — Olha só, aqui, sou eu quem manda. Você fica quieto se quiser melhorar logo. Eu demorei muito para conseguir te arrastar até aqui. E tenho certeza que os homens que estão lá fora não querem seu bem. Eles estão atirando e matando tudo que se mexe. Então, se quiser, eu te jogo para os abutres, ser comido por urubus deve ser bem melhor do que ser capturado por eles, acredite em mim. — ela murmurou mais alguma coisa, mas eu não consegui entender, e quando ia perguntar, ela sorriu, pedindo desculpas e colocou um pano branco no meu nariz. Seu rosto foi a última coisa que eu vi antes de apagar. Mas, dessa vez, acordei disposto, sem dor e com a certeza que eu iria embora. Não ficaria aqui, no meio do mato, nem mais um segundo, eu preciso saber como está minha garotinha. — O que aconteceu comigo? — Você apagou. — mentira. Ela tinha me apagado. — Mas não se preocupe, está tudo bem. Ainda vai doer, mas… eu cuidei dos seus ferimentos, e agora você pode ir. Finalmente, ela vai me deixar ir para casa. Nunca me senti tão vulnerável na minha vida. Andamos pela floresta, e quando eu pedi um telefone, ela riu de mim e disse que não tinha comunicadores. Aquilo me intrigou ainda mais. Ela achava que era o que? Uma bruxa? Odiava o fato de estar em suas mãos, afinal, não fazia ideia de onde estava. O sol estava surgindo no horizonte, e a floresta era úmida, uma densa neblina pairava no ar. Andamos alguns quilômetros, até finalmente surgir uma estrada. Ela simplesmente me deixou ali, e voltou para a floresta, sem deixar rastros, sem me dizer onde estávamos. Sem comunicação nem nada. Merda. Escutei o barulho de uma moto ao longe, e por um momento pensei em correr para a floresta, mas eu não tinha tantas chances assim. Resolvi acreditar que Deus reservava para mim o direito de voltar a ver a minha princesa. A moto estava em alta velocidade, e quando me viu, freou, antes de acelerar de novo. Ergui as mãos, abanando, como quem precisa de socorro, afinal, eu precisava. Perdi as esperanças quando vi que ele sumiu no horizonte, mas de repente o barulho ficou alto novamente, e ele se aproximou. — Caralho, chefe. — o homem que eu não fazia ideia de quem era sorriu, me jogou o capacete e subi na moto. — Achei ele, porra. — falou no comunicador. — Ele tá inteiro, estou levando ele para a base. — Para minha casa. Ele hesitou. — Mudança de planos, estou levando ele para a mansão. — Desliga. — ordenei e ele acatou. Tirei o comunicador do seu colete. — Tem algum rio por aqui? — Não que eu saiba, senhor. Queria jogar a porra do comunicador no rio, para que se alguém fosse nos seguir, seguiria o rastro errado. Não gostava da ideia de confiar nesse homem, mas era a única saída que eu tinha. Eu já tinha vivenciado muitas batalhas, ganhado inúmeras guerras. Eu conquistei o poder através de uma guerra. Mas nada me preparou para o cenário de destruição que eu encontraria assim que chegasse na minha mansão.






