Mundo de ficçãoIniciar sessãoA música pulsava alto pelo salão.
O vai e vem dos clientes era constante.
Copos tilintavam.
Pessoas riam.
Outras tropeçavam.
E algumas pareciam ter perdido completamente a capacidade de distinguir o chão de qualquer outro objeto.
Bebidas iam.
Dinheiro vinha.
Histórias afundavam.
E eu continuava atrás daquele balcão.
Firme.
Ou pelo menos fingindo muito bem.
Até aquele momento, ninguém tinha tentado dar em cima de mim.
O que, sinceramente, já era uma vitória.
Com o volume absurdo da música, talvez até os flertes tivessem desistido de existir.
Observei o salão com uma mistura de cansaço e sarcasmo.
Em determinado momento, um homem simplesmente escorregou do banco e caiu sentado no chão.
Fiquei encarando a cena.
Por alguns segundos.
Até uma risada ameaçar escapar.
— Trágica e espontânea.
A voz da minha mãe surgiu imediatamente na minha memória.
Fechei os olhos por um instante.
Claro.
Até morta, aquela mulher ainda conseguia me dar sermão.
— Rir da desgraça alheia, Alícia? Onde já se viu?
Mordi o lábio para não rir.
— Ai, mãe...
Balancei discretamente a cabeça.
— Mesmo sendo chata, você ainda consegue me fazer rir. Socorro.
Voltei minha atenção para o balcão.
Foi quando alguém se aproximou.
E, bom...
Minha linha de raciocínio desapareceu por alguns segundos.
O homem era bonito.
Ridiculamente bonito.
Perfume caro.
Voz grave.
Presença marcante.
Daquelas pessoas que entravam em um ambiente e faziam você perceber que elas tinham chegado antes mesmo de olhar.
— Uma bebida, por gentileza.
Sua voz era firme.
— A mais forte possível.
Pisquei.
Uma vez.
Duas.
E imediatamente tratei de voltar ao meu profissionalismo.
— Claro.
Peguei a garrafa.
Escolhi o copo.
Servi a bebida.
Empurrei-o pelo balcão com a elegância que consegui reunir naquele momento.
O homem colocou uma nota de valor alto sobre a superfície.
Olhei para o dinheiro.
Depois para ele.
Cinco doses.
Pagas de uma vez.
Tá enterrando o quê hoje, moço?
Sua dignidade?
Um trauma?
Um amor?
Mas não era da minha conta.
E eu precisava desesperadamente daquele emprego.
Então não fiz perguntas.
Não ofereci conselhos.
Apenas guardei o pagamento e continuei trabalhando.
Ainda assim...
Era difícil ignorar a leve sensação de calor provocada pela presença dele.
Voltei à minha rotina.
Servir drinks.
Limpar copos.
Observar o movimento.
E agradecer mentalmente por nenhum bêbado ter caído em cima de mim.
Ainda.
Mas aquilo não significava que a noite estivesse tranquila.
Alguns clientes já começavam a cambalear até o balcão.
Copo vazio na mão.
Olhar perdido.
E uma determinação impressionante para conseguir mais álcool.
Um deles caminhava com a firmeza de um pinguim bêbado.
Observei a cena.
Meu Deus.
Eu não podia sair do meu posto.
Meu colega estava igualmente ocupado.
Então restava apenas assistir ao espetáculo e manter o balcão funcionando.
Logo, alguns homens ocuparam os bancos altos em frente a mim.
No começo, fizeram pedidos simples.
Uma bebida.
Depois outra.
E mais outra.
Foi então que começaram os desabafos.
— Minha mulher me largou com três filhos.
Mantive minha expressão profissional.
— Sinto muito.
— Fui traído com o entregador de água.
Pisquei.
— Nossa.
— Eu durava dois minutos e meio.
Silêncio.
Olhei para ele.
Depois para o copo.
E, sinceramente, comecei a reconsiderar minhas escolhas profissionais.
— Segundo ela — acrescentou, completamente destruído.
Mantive o sorriso.
Por dentro?
Eu estava em posição fetal.
Gargalhando.
Que culpa eu tenho?
Eu servia bebidas.
Não era psicóloga.
Não era padre.
Muito menos terapeuta especializada em crises conjugais e traumas íntimos.
Na minha cabeça, cada relato começava a ganhar imagens próprias.
Cenários absurdos.
Chifres iluminados por neon.
Músicas dramáticas.
Roteiros dignos de uma comédia completamente sem sentido.
Alguém cala a boca desses homens, por favor, pedi mentalmente.
Mas não podia dizer aquilo.
Então continuei sorrindo.
Servindo bebidas.
E rezando para que ninguém começasse a chorar em cima do balcão.
Já seria demais.
Quando olhei para o relógio na parede, percebi que já passava das dez.
Soltei um suspiro discreto.
Três horas de atendimento direto.
Três horas em pé.
Três horas ouvindo histórias que eu nunca tinha pedido para conhecer.
E, finalmente...
Os homens foram embora.
Observei enquanto se afastavam.
Esperei alguns segundos.
Depois ergui discretamente o rosto.
— Obrigada.
Não sabia exatamente a quem estava agradecendo.
Talvez algum santo protetor dos bartenders tivesse finalmente ouvido minhas preces.
Voltei à rotina.
Copos.
Pedidos.
Dinheiro.
Música.
Uma ou outra piscadela torta de algum bêbado inofensivo.
Nada que eu não pudesse ignorar.
Por alguns minutos...
Tudo parecia controlado.
Então alguém gritou.
O som não foi alto o suficiente para superar completamente a música.
Mas foi suficiente para chamar minha atenção.
Virei imediatamente.
Um homem havia perdido o equilíbrio.
Por pouco, não caiu completamente.
Mas bateu com força contra uma das mesas.
O bar inteiro pareceu congelar.
Por dois segundos.
A música continuava tocando.
Mas ninguém parecia ouvir.
Eu fiquei imóvel.
Não era qualquer cliente.
Eu não sabia exatamente quem ele era.
Mas reconhecia aquele tipo de presença.
Postura.
Seguranças.
Roupas.
Perfume.
Poder.
Aquele era o tipo de pessoa que não podia simplesmente sair machucada de um lugar.
Nunca.
Meu estômago se apertou.
E, naquele instante, tive uma certeza absoluta.
A noite ia dar errado.
Muito errado.
Observei o homem novamente.
Ele tentava recuperar o equilíbrio enquanto algumas pessoas se aproximavam.
Foi então que consegui enxergar melhor seu rosto.
E o frio percorreu minha espinha.
Eu conhecia aquela cara.
Não pessoalmente.
Graças a Deus.
Mas já tinha visto aquele rosto em jornais.
Comerciais.
Notícias.
E alguns escândalos que misteriosamente desapareciam rápido demais.
Um figurão da política.
Daqueles que tinham as costas tão quentes que, se encostassem em um poste, provavelmente o ferro derreteria.
Alguém próximo cochichou seu nome.
E foi o suficiente para meu estômago revirar.
Droga.
Ele pode mandar fechar esse lugar só porque tropeçou em um tapete.
O gerente surgiu praticamente do nada.
Um sorriso desesperado estava estampado em seu rosto.
Dois homens que acompanhavam o político se aproximaram imediatamente.
Seguranças.
Os olhos deles percorriam o ambiente.
Observando tudo.
Como se procurassem alguém para responsabilizar.
O bar, que segundos antes pulsava com música e movimento, agora parecia respirar com dificuldade.
Ninguém queria chamar atenção.
Ninguém queria falar.
E eu?
Bem...
Eu permaneci atrás do balcão.
Parada.
Tentando parecer completamente invisível.
O problema era que meu coração batia forte demais.
Tão forte que, por alguns segundos, tive certeza de que qualquer pessoa poderia ouvi-lo entre os graves da música.
Não olha para mim.
Não fala comigo.
Não me envolve nisso.
Baixei discretamente o rosto.
Continuei fingindo estar ocupada.
Limpei um copo que já estava limpo.
Depois outro.
E mais outro.
Qualquer coisa.
Menos chamar atenção.
Porque, naquela noite, eu só queria trabalhar.
Receber meu dinheiro.
E voltar para casa.
Era pedir demais?
Aparentemente...
Sim.
Porque, no momento seguinte, um dos seguranças começou a caminhar diretamente em direção ao balcão.
Na minha direção.
E eu tive uma sensação terrível.
Aquela certeza desconfortável que aparece segundos antes de alguma coisa dar completamente errado.
Engoli em seco.
Alícia Ferraiz.
Você conseguiu.
Primeiro dia de trabalho.
E provavelmente já vai ser demitida.
O homem parou diante de mim.
Ergui lentamente os olhos.
E soube que minha noite acabava de mudar.
Para pior.
Ou, considerando a minha sorte...
muito pior.







