Mundo de ficçãoIniciar sessãoA Mansão Diamond não sussurrava poder.
Ela gritava.
Tudo naquele lugar existia para lembrar quem entrava e quem trabalhava ali exatamente onde estava.
Nem mesmo os empregados escapavam daquele símbolo.
Os uniformes eram discretos, elegantes e impecavelmente alinhados. Sobre o peito, porém, havia um detalhe impossível de ignorar.
Um broche dourado.
Uma serpente entrelaçada entre rosas.
O selo da Família Diamond.
Na Itália, aquele símbolo significava muito mais do que riqueza ou influência.
Era proteção.
E também um aviso.
Quem trabalhava sob o nome Diamond estava sob a proteção da família.
Ninguém ousava tocar em uma pessoa marcada por aquele emblema.
Não era boato.
Não era uma ameaça vazia.
Era uma regra silenciosa que até os homens mais inconsequentes conheciam.
Mexer com alguém protegido pelos Diamond significava comprar uma guerra que dificilmente terminaria bem.
Minha família não era conhecida por esquecer ofensas.
Muito menos por perdoá-las facilmente.
Na mansão, todos conheciam as regras.
E sabiam exatamente onde estava a linha que não deveria ser ultrapassada.
Não havia espaço para insolência.
Nem para traições.
Erros aconteciam.
Mas alguns erros custavam caro demais.
Os funcionários eram bem treinados.
Bem pagos.
Bem alimentados.
E sabiam que trabalhavam para uma família que poderia oferecer proteção, estabilidade e oportunidades que dificilmente encontrariam em outro lugar.
Eu não confiava facilmente nas pessoas.
Nunca confiei.
Talvez fosse consequência do cargo.
Ou talvez estivesse simplesmente no sangue que carregava.
Mas uma coisa era não confiar.
Outra completamente diferente era ser injusto.
Eu não tinha interesse em transformar a vida de quem trabalhava para mim em um inferno.
Aqueles que serviam à Mansão Diamond viviam bem.
Tinham acesso a boa comida, bons salários e condições que eu fazia questão de manter.
Em troca, exigia respeito.
Privacidade.
E lealdade.
Uma linha simples.
Clara.
Inquebrável.
Nunca me importei que consumissem a comida que sobrava da mesa ou aproveitassem aquilo que seria desperdiçado.
Mas ninguém tocava nas minhas coisas sem permissão.
Muito menos invadia meu espaço.
Era assim que funcionávamos.
Talvez por isso muitos me respeitassem.
Alguns até gostassem de mim.
Outros certamente me temiam.
Eu não fazia questão de descobrir qual dos três sentimentos era mais forte.
O café da manhã foi servido como sempre.
Com tranquilidade.
E fartura suficiente para alimentar uma pequena família.
A enorme mesa de carvalho polido refletia a luz do lustre acima. Os pratos estavam organizados com uma precisão quase militar, enquanto os funcionários se moviam silenciosamente pelo ambiente.
Sentei-me à mesa.
Comi devagar.
Em silêncio.
Pensativo.
Porque, naquela manhã, havia apenas uma coisa que realmente conseguia me incomodar.
A convocação da minha mãe.
Donatella Diamond não mandava chamar alguém sem um motivo.
E, quando o assunto era comigo, normalmente existiam duas possibilidades.
Negócios.
Ou minha vida pessoal.
A segunda era sempre pior.
Enquanto tomava café, minha mente começou a trabalhar sozinha.
Talvez fosse novamente aquele velho assunto.
Eu tinha vinte e sete anos.
Nenhuma esposa.
Nenhum parceiro oficial.
Nenhum herdeiro.
Na Família Diamond, minha orientação sexual jamais havia sido tratada como um problema.
Amar um homem ou uma mulher nunca foi a questão.
O problema era outro.
A perfeição.
Para os Diamond, tudo precisava parecer perfeito.
Você podia viver como quisesse.
Desde que mantivesse o nome da família no topo.
Desde que entregasse resultados.
Desde que não transformasse sua vida em um espetáculo público capaz de comprometer a imagem construída durante gerações.
A excelência era obrigatória.
A perfeição, uma expectativa constante.
E as cobranças?
Bem...
Elas sempre vinham acompanhadas de sorrisos.
Conselhos.
Frases aparentemente inocentes.
Minha mãe nunca precisava dizer diretamente aquilo que queria.
Ela plantava uma ideia.
Esperava.
E assistia enquanto você acreditava que tinha chegado sozinho à conclusão.
Minha avó era ainda pior.
Por isso, terminei meu café com a calma de um homem prestes a entrar em uma guerra.
Quando finalmente me levantei, agradeci discretamente.
Os funcionários se dispersaram quase imediatamente, retornando às suas atividades.
Do lado de fora, meu motorista particular já me esperava.
Postura impecável.
Mãos cruzadas à frente do corpo.
Nenhuma pergunta.
Nenhuma curiosidade.
Gostava disso.
Informei o destino.
Ele apenas assentiu.
Seguimos até o carro que seria usado naquela manhã.
Uma Ferrari preta aguardava diante da entrada principal.
Luxuosa.
Rápida.
Discreta o suficiente para alguém que, ironicamente, passava boa parte da vida tentando não chamar atenção demais.
Assim que entrei, meus seguranças assumiram suas posições.
O motor ganhou vida.
E deixamos a propriedade.
No portão principal, o símbolo LD brilhava em aço sob a luz da manhã.
Leonardo Diamond.
Meu nome.
Meu brasão.
Minha responsabilidade.
Quatro homens permaneciam responsáveis pela segurança da entrada.
Discretos.
Treinados.
Atentos.
As armas não estavam visíveis.
Mas isso não significava que não existissem.
Na minha família, segurança não era um detalhe.
Era sobrevivência.
Desde pequeno, aprendi que poder não significava estar protegido.
Às vezes, significava exatamente o contrário.
Quanto mais alto você estava, mais pessoas existiam esperando para vê-lo cair.
Olhei pela janela.
A cidade começava a se movimentar.
Pessoas indo trabalhar.
Carros ocupando as ruas.
Uma rotina comum acontecendo diante dos meus olhos.
Eu poderia até viver entre elas.
Mas dificilmente seria como elas.
A Família Diamond tinha influência demais.
Negócios.
Política.
Comunicação.
Pessoas em lugares estratégicos.
Contatos que não apareciam em fotografias.
Informações que chegavam antes mesmo de se tornarem públicas.
Não era necessário controlar tudo.
Bastava saber o suficiente.
E, quando necessário, saber antes dos outros.
Apoiei a cabeça contra o banco.
Mais um dia.
Mais uma reunião.
Mais um teatro social.
Mas, por alguma razão, naquela manhã eu tinha a sensação de que algo seria diferente.
Cerca de meia hora depois, o carro finalmente estacionou diante do prédio da Star Produções.
Observei a fachada espelhada através da janela.
O império televisivo da minha mãe.
Donatella Diamond administrava aquele lugar com a mesma eficiência com que administrava qualquer outra coisa em sua vida.
Controle.
Estratégia.
Resultados.
Ajeitei os punhos do terno.
Respirei profundamente.
Então saí do carro.
Meus seguranças assumiram suas posições naturalmente.
Dois à frente.
Dois atrás.
Nenhuma distração.
Nenhum olhar perdido.
As regras da família eram claras.
O herdeiro Diamond nunca andava sozinho.
Nem mesmo em território próprio.
Caminhei pelo enorme saguão.
Meus passos ecoavam discretamente sobre o mármore.
Foi quando virei em direção ao corredor lateral que levava à recepção principal.
E esbarrei em alguém.
Parei imediatamente.
O impacto não foi forte.
Ainda assim, a pessoa à minha frente recuou alguns passos.
Por um instante, tudo ficou em silêncio.
Ergui os olhos.
E a reconheci.
Era ela.
A jovem que havia cruzado meu caminho dias antes.
Ou, pelo menos, era a sensação que tive no instante em que meus olhos encontraram os dela.
Havia algo familiar.
O mesmo olhar determinado.
O mesmo nervosismo tentando se esconder atrás de uma postura firme.
Troquei poucas palavras com ela.
Ela parecia apressada.
Talvez nervosa.
Talvez as duas coisas.
Por isso, não prolonguei o encontro.
Mas a observei por alguns segundos.
Mais tempo do que deveria.
Era bonita.
Jovem.
Mas não era apenas isso que chamava minha atenção.
Era o contraste.
A maneira como parecia deslocada naquele ambiente e, ao mesmo tempo, determinada a não demonstrar isso.
Como alguém tentando provar ao mundo que pertencia àquele lugar.
A pergunta surgiu naturalmente.
O que alguém como ela fazia ali?
A curiosidade durou pouco.
Não era da minha conta.
E eu nunca tive o hábito de me envolver na vida de desconhecidos.
Não sem um motivo.
Desviei o olhar.
Deixei aquele encontro escorregar para o fundo da minha mente.
Ou, pelo menos, tentei.
Segui em direção ao elevador.
Meus seguranças vieram atrás de mim, silenciosos como sombras.
As portas se abriram.
Entrei.
E, quando elas começaram a se fechar, olhei uma última vez para o corredor.
Ela já estava se afastando.
Não sabia o nome dela.
Não sabia de onde tinha vindo.
Nem por que aquela imagem permanecia na minha mente.
Mas alguma coisa me dizia que aquele não seria o último encontro.
E, pela primeira vez naquela manhã, a convocação da minha mãe deixou de ser o único assunto ocupando meus pensamentos.
Porque, sem perceber, eu tinha acabado de encontrar alguém que despertou algo raro em mim.
Curiosidade.
E eu aprenderia, mais tarde, que algumas curiosidades deveriam ser ignoradas.
Especialmente quando tinham olhos determinados, um sorriso discreto...
E o estranho poder de permanecer na cabeça de um homem mesmo depois de desaparecer de sua vista.







