Mundo ficciónIniciar sesiónEram sete da manhã na Mansão Diamond.
Um horário criminosamente cedo.
O silêncio luxuoso daquele lugar costumava permanecer intacto até, pelo menos, às dez. E, sinceramente, essa era uma das poucas regras não escritas da casa que eu fazia questão de respeitar.
Eu odiava ser acordado cedo.
Principalmente depois da noite que tinha tido.
Na noite anterior, precisei resolver uma crise dentro da organização.
Informações sigilosas haviam vazado.
Carregamentos tinham desaparecido.
E algum idiota tinha acreditado, por alguns minutos, que poderia brincar com o nome da família Diamond e continuar vivendo tranquilamente depois disso.
O problema foi resolvido pouco antes das cinco da manhã.
E o responsável?
Bem...
Ele não causaria mais problemas.
No quarto amplo e escuro, cercado por móveis caros demais para terem qualquer utilidade além de lembrar ao mundo quanto dinheiro minha família possuía, eu finalmente dormia.
Usava apenas uma cueca preta, enquanto o lençol de linho permanecia amassado sobre parte do meu corpo. O perfume amadeirado do banho que tomei antes de apagar ainda permanecia no ar.
Eu precisava descansar.
Meu celular, aparentemente, tinha outros planos.
Uma vibração.
Depois outra.
E mais uma.
Abri os olhos devagar.
Não porque estivesse tranquilo.
Mas porque ainda estava tentando decidir se realmente valia a pena levantar da cama para descobrir quem tinha cometido o erro de interromper meu sono.
Meu corpo se moveu lentamente enquanto alcancei o aparelho sobre o criado-mudo.
Atendi sem sequer olhar o nome na tela.
— Fala.
Do outro lado, alguém ficou em silêncio por tempo demais.
Péssima decisão.
— Chefe... me desculpe. Eu achei melhor ligar porque—
— Você ficou maluco?
Minha voz saiu rouca.
Carregada de sono.
E, principalmente, de irritação.
— Você me acordou às sete da manhã depois do inferno que resolvi ontem à noite. Você realmente tem noção da merda que está fazendo?
Silêncio.
Quase consegui imaginar o homem do outro lado tentando decidir se respirava ou se permanecia imóvel até eu desligar.
Passei uma mão pelo rosto e me sentei na beirada da cama.
Meu cabelo estava completamente bagunçado.
Meu humor estava pior.
E, naquele momento, qualquer pessoa com um mínimo de inteligência saberia manter distância.
Uma movimentação perto da porta chamou minha atenção.
Zeus entrou primeiro.
Meu pastor alemão atravessou o quarto com a tranquilidade de quem sabia que aquele território também era dele.
Apolo veio logo atrás.
O rottweiler caminhou lentamente antes de se deitar próximo à cama, soltando um suspiro pesado.
Pelo menos eles sabiam respeitar meu horário de descanso.
Passei a mão pelo rosto mais uma vez.
— Fala logo. Já estou acordado. Agora termina de estragar a minha manhã.
A voz do homem voltou.
Dessa vez, ainda mais cuidadosa.
— Sua mãe pediu que o senhor fosse pessoalmente até a emissora de televisão.
Fechei os olhos.
Claro.
Minha mãe.
De todos os problemas que poderiam ter aparecido naquela manhã, aquele talvez fosse o único capaz de me fazer reconsiderar voltar para a cama e fingir que estava morto.
— Disse que é um assunto sério — ele continuou.
Permaneci em silêncio.
— Ela...
O homem hesitou.
— Ela ordenou.
Abri os olhos lentamente.
Do outro lado da linha, ninguém disse mais nada.
Provavelmente porque o pobre coitado tinha acabado de perceber que jogar aquela informação sobre mim às sete da manhã talvez não tivesse sido a melhor escolha profissional de sua vida.
Levantei da cama.
Meu corpo estava tenso, mas minha expressão permaneceu completamente neutra.
Poderoso.
Imponente.
Cruel quando necessário.
Eu era tudo aquilo que esperavam de mim.
Leonardo Diamond.
Filho único.
Herdeiro da Família Diamond.
O homem que, um dia, assumiria completamente um império construído sobre poder, estratégia e medo.
Uma coroa que eu nunca pedi.
Mas que carregava mesmo assim.
E, como se lidar com tudo isso não fosse suficiente, ainda existiam as mulheres Diamond.
Minha mãe, Donatella Diamond, era uma força silenciosa.
Não precisava levantar a voz para conseguir aquilo que queria.
Minha avó, Giovanna, por outro lado, era um furacão elegantemente vestido.
As duas tinham algo em comum.
A capacidade assustadora de manipular qualquer situação com um sorriso.
Você acreditava que estava tomando uma decisão.
Quando percebia...
Já estava obedecendo.
Muitos homens subestimavam as duas.
Eu não.
Jamais.
— Certo — respondi finalmente. — Estou indo.
Desliguei.
Sem perguntas.
Sem discussões.
O que quer que estivesse acontecendo, eu descobriria pessoalmente.
Olhei para baixo.
Zeus já estava sentado diante de mim.
Apolo permanecia deitado, mas seus olhos acompanhavam cada movimento meu.
Ajoelhei-me e passei as mãos pelos pelos escuros dos dois.
Com eles, eu era diferente.
Não precisava fingir.
Não precisava ser Leonardo Diamond.
Não precisava ser o herdeiro.
Muito menos o homem que todos temiam.
Zeus lambeu o dorso da minha mão.
Apolo apoiou o focinho pesado contra minha perna.
Eles sabiam.
Sempre sabiam quando eu estava prestes a sair.
Filhos de coração.
Companheiros leais.
E, provavelmente, as únicas criaturas naquele mundo que nunca esperariam algo de mim além de carinho e comida.
Uma batida suave interrompeu o momento.
Nem precisei olhar para a porta.
Já sabia quem era.
— Zeus! Apolo!
A voz feminina atravessou o quarto.
— Finalmente achei vocês!
A porta se abriu.
Miranda entrou apressada, com os cabelos presos de qualquer jeito e uma expressão cansada que denunciava uma noite mal dormida.
Os dois cães imediatamente demonstraram insatisfação.
Zeus soltou um rosnado baixo.
Apolo ergueu a cabeça.
Nenhum dos dois queria sair dali.
Muito menos com ela.
— Obedeçam à Miranda — ordenei.
Os dois me encararam.
— Ela vai cuidar de vocês até eu voltar.
Fiz uma breve pausa.
— E se comportem. Ou os dois vão ficar de castigo.
Zeus inclinou levemente a cabeça.
Apolo pareceu profundamente ofendido.
Quase sorri.
Quase.
Depois de alguns segundos, ambos caminharam lentamente até Miranda.
Ainda desconfiados.
A jovem soltou o ar que parecia estar prendendo havia alguns minutos.
Então abriu a porta e fez uma reverência exagerada.
Como se eu fosse alguma espécie de divindade.
Revirei os olhos.
Detestava aquilo.
Detestava ser tratado como uma entidade inalcançável apenas porque minha família era poderosa.
Porque eu era temido.
Porque carregava o sobrenome Diamond.
Eu não era um rei.
Nunca quis ser.
Só queria que as pessoas parassem de mentir para mim.
E, talvez, que o mundo parasse de exigir que eu fosse algo que nunca escolhi ser.
A porta se fechou.
E fiquei sozinho novamente.
Depois de um banho rápido, vesti um terno escuro feito sob medida.
A roupa se ajustava perfeitamente ao meu corpo.
Uma armadura.
Só que feita de tecido caro.
Desci as enormes escadas da Mansão Diamond em silêncio.
O mármore negro refletia parte da iluminação dourada que preenchia o ambiente.
A mansão inteira parecia existir para lembrar qualquer visitante de quem aquela família era.
Poder.
Dinheiro.
Tradição.
E medo.
As paredes exibiam retratos de gerações passadas.
Homens e mulheres que construíram o nome Diamond através de decisões que jamais apareceriam em livros de história.
Tudo ali carregava um pedaço da nossa herança.
As maçanetas eram esculpidas à mão.
Os corrimãos possuíam detalhes de serpentes entrelaçadas com rosas.
Tapeçarias antigas ocupavam algumas paredes.
Fios dourados brilhavam sob a iluminação.
Até as cortinas pareciam ostentar riqueza.
Minha família tinha uma maneira particularmente irritante de transformar absolutamente tudo em uma demonstração de poder.
E eu tinha crescido no meio daquilo.
Cercado por luxo.
Cercado por pessoas.
E, ainda assim, quase sempre sozinho.
Continuei descendo as escadas.
Porque minha mãe havia ordenado que eu fosse até a emissora.
E, por mais que eu fosse capaz de enfrentar organizações inteiras sem hesitar...
Existiam batalhas que até Leonardo Diamond sabia que não valia a pena comprar.
Principalmente quando envolviam Donatella Diamond.
Eu ainda não sabia qual era o assunto sério.
Não fazia ideia de quem encontraria naquela emissora.
E muito menos imaginava que, naquele mesmo lugar, o destino colocaria novamente no meu caminho a mulher em quem eu havia esbarrado dias antes.
Alícia Ferraiz.
A mulher de olhos determinados.
Sorriso discreto.
E uma presença estranhamente impossível de ignorar.
Naquele momento, eu ainda não sabia.
Mas algumas pessoas entram em nossas vidas sem pedir permissão.
E, quando você percebe...
Já mudaram tudo.
Inclusive você.







