Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu ainda estava com o coração dividido quando saí do quarto para buscar um copo d’água. Foi então que parei, estática, ao ouvir a voz firme da mãe dele vindo da sala de jantar. Ela estava ao telefone, com aquele tom de quem comanda um exército, mas falava de flores, vinhos e de uma 'moça de família impecável'.
— Vai ser na sexta-feira — dizia ela, com uma satisfação que me deu náuseas. — Um jantar íntimo. Meu filho precisa de uma mulher à altura dele, alguém que finalmente o faça assentar a cabeça e seguir o destino que eu tracei. Ele não sabe de nada ainda, vai ser uma surpresa. Ouvi o som dela desligando o telefone e o silêncio que se seguiu pareceu um ultimato. Naquele momento, a imagem do rapaz sendo jogado aos leões, obrigado a sorrir para uma desconhecida enquanto seu coração gritava por outra coisa, passou pela minha mente. Meus princípios de honestidade eram fortes, mas o meu princípio de humanidade falou mais alto. Eu não podia deixar aquela mãe devorar o próprio filho em nome de uma perfeição que não existia. Respirei fundo, ajeitei o avental e caminhei até o quarto da Dona Guiomar. Bati na porta da Dona Guiomar e entrei. O rapaz estava sentado aos pés da cama, com a cabeça entre as mãos. Quando me viu, ele se levantou num salto. O olhar dos dois era de um desespero que eu nunca vou esquecer. — Eu aceito — disse, sem rodeios. — Mas não vou entrar nisso no escuro. Se é para eu ser o escudo dele, eu preciso saber exatamente como isso vai funcionar. Quais são os detalhes? O que eu vou ter que fazer? Dona Guiomar me olhou com um alívio que parecia ter tirado dez anos de suas costas. — Lena — o rapaz começou, com a voz embargada — minha mãe está organizando um jantar. Ela quer me empurrar para uma vida que não é minha. O plano da minha avó é que a gente crie uma dúvida na cabeça dela. Não vamos anunciar nada aos quatro ventos, mas vamos deixar pistas. — Que tipo de pistas? — perguntei, cruzando os braços. Eu precisava saber até onde aquela 'atuação' iria. — Olhares, Lena — ele explicou. — Gestos. Coisas que uma mãe detalhista como a minha não deixaria passar. Eu vou começar a recusar os encontros que ela marca dizendo que 'meu coração já tem dona'. E quando ela perguntar quem é, eu vou dizer que é alguém que está mais perto do que ela imagina. Dona Guiomar falou Você passará a ser vista como a razão do brilho nos olhos dele. Vamos fingir que vocês se encontram escondidos nos jardins ou na biblioteca. Quando o jantar de sexta chegar, você não será apenas a moça que serve a mesa... você será a pessoa por quem ele vai enfrentar a mãe.' Senti um frio na barriga. Eles queriam que eu fosse o motivo da rebeldia dele. — E se ela me expulsar daqui? — questionei, pensando no meu sustento. O rapaz segurou minha mão com respeito. — Eu e minha avó garantimos o seu futuro, Lena. Mas a questão agora é o agora. Você está pronta para ser vista como a 'moça simples que roubou o coração do herdeiro.






