Mundo de ficçãoIniciar sessão"Quando as palavras da Dona Guiomar terminaram de flutuar no ar, o silêncio que se seguiu foi pesado. Eu senti o meu rosto esquentar e uma vontade de recuar. Eu, que sempre andei de cabeça erguida, que nunca escondi uma moeda sequer naquela casa, estava sendo convidada a montar um teatro.
— Não, Dona Guiomar. Eu não posso — respondi, com a voz firme, embora o coração estivesse dando saltos. — Eu sou uma moça simples, mas minha palavra é a única coisa que eu realmente possuo. Meus pais me criaram com princípios, me ensinaram que a mentira tem pernas curtas e que o caráter de uma pessoa vale mais do que qualquer teto de luxo. Olhei para o rapaz e depois para a senhora que eu tanto admirava. — Eu gosto muito de vocês, faria qualquer coisa para ajudar no trabalho, para cuidar da casa ou do bem-estar de vocês. Mas mentir assim? Fingir algo que não existe? Isso vai contra tudo o que eu acredito. Se eu perder a minha verdade, o que sobra de mim aqui dentro? Dona Guiomar baixou os olhos, e o neto dela apenas suspirou, um som carregado de uma tristeza tão profunda que me fez estremecer. Eu vi que eles não estavam tentando me corromper, eles estavam desesperados. Mas, naquele momento, o meu 'não' era a única coisa que me mantinha inteira. sair correndo deli Fechei a porta do meu quarto e me sentei na beira da cama. O silêncio ali era diferente do resto da mansão; era o silêncio de quem precisava se encontrar. Eu olhava para as minhas mãos, calejadas pelo serviço, e pensava em tudo o que vi naqueles anos. Eu conhecia cada canto daquela casa, cada humor da Dona Guiomar e, principalmente, cada olhar de tristeza que o neto dela tentava esconder. Minha cabeça latejava. De um lado, estavam os valores que meu pai me ensinou: 'Lena, a verdade é o único chão firme onde a gente pode pisar'. Do outro, estava a imagem do rapaz. Ele nunca me tratou como 'a empregada'; ele me via como gente. Quantas vezes ele não me trouxe um doce ou me perguntou da minha família com um interesse real? Eu sabia o que aconteceria se a mãe dele descobrisse a verdade. Aquela mulher, que amava com mãos de ferro, era capaz de transformar a vida dele em cinzas em nome dos seus 'princípios'. Eu via o rapaz como um passarinho tentando voar dentro de uma gaiola de ouro, e a Dona Guiomar, coitada, tentando desesperadamente cobrir a gaiola para que ninguém visse o que havia dentro. Por gostar tanto dele, por sentir que ele era uma alma boa em um mundo tão rígido, meu coração começou a apertar. Será que manter a minha 'verdade' intacta valia o sacrifício da felicidade de alguém que sempre foi bom para mim? Às vezes, a gente precisa sujar as mãos para salvar alguém de um incêndio. E aquela casa, apesar de todo o luxo, estava prestes a pegar fogo.






