Mundo de ficçãoIniciar sessãoO ar sumiu dos meus pulmões por um instante. Eu esperava olhares trocados e mentiras contadas a meia-voz, mas o que Dona Guiomar colocou sobre a mesa era muito mais profundo. Ela falou em segurança, em um contrato assinado em cartório que me protegeria para o resto da vida, mas o preço... o preço era a minha própria existência.
— Um casamento, Dona Guiomar? — minha voz saiu quase como um sussurro. Ela assentiu, com o rosto sério de quem planeja uma sucessão dinástica. Não bastava fingir. Para a mãe dele acreditar, e para que o segredo ficasse enterrado sob camadas de normalidade, eu teria que me tornar a esposa oficial. Mas o choque maior veio depois: eles precisavam de herdeiros. A linhagem daquela família não podia acabar, e a mãe dele jamais aceitaria um casamento sem netos. — Eu seria... uma barriga de aluguel? — perguntei, sentindo o peso daquela palavra. O rapaz me olhou com uma dor imensa, mas não negou. O plano era que eu desse a ele os filhos que a mãe tanto cobrava, garantindo que ninguém nunca desconfiasse da sua natureza. Em troca, eu teria uma vida de rainha, o nome da família e a garantia de que, acontecesse o que acontecesse, eu e minha família de sangue nunca passaríamos necessidade. Minha cabeça girava. Eu teria que entregar meu corpo, meu tempo e meu futuro para gerar crianças que seriam criadas naquela mansão, sob os olhos severos daquela avó e daquela mãe. Como funcionaria isso na prática? Como eu explicaria isso para o meu coração? Eu seria uma esposa de papel, uma mãe de aluguel, mas aos olhos do mundo, a Cinderela que conquistou o príncipe Eu me levantei da cadeira, sentindo o peso do uniforme que eu usava. Olhei fixamente para o rapaz e depois para a Dona Guiomar. Minha voz não tremeu, porque o assunto era sério demais para ter medo. — Vamos parar um pouco — eu disse, fazendo um sinal com a mão. — Casamento no papel, morar aqui, fingir para a sociedade... tudo isso eu consigo entender. Mas vocês falaram em filhos. Falaram que eu seria a mãe dos herdeiros desta casa. Respirei fundo e encarei o rapaz, que não conseguia sustentar meu olhar por muito tempo. — Eu quero saber como isso vai funcionar. Porque eu sou uma moça de princípios, e meu corpo não é um objeto que se aluga sem perguntas. Como vocês pretendem que essa criança venha ao mundo? — Minha pergunta ficou suspensa no ar, carregada de significado. — Vai ser da forma natural, com a gente fingindo uma intimidade que não existe e que não seria verdadeira nem para mim, nem para você? Ou vocês pretendem fazer isso de um jeito médico, em uma clínica, sem que a gente precise ultrapassar os limites do respeito que temos um pelo outro? Eu precisava saber. Se eu aceitasse, eu estaria entregando o meu ventre para o sonho de outra pessoa. — E tem mais — continuei, sentindo as lágrimas arderem, mas sem deixá-las cair. — Quando essa criança nascer, ela vai ser minha? Eu vou poder ser mãe dela de verdade, dar o meu amor, ou serei apenas a 'mulher que deu à luz' e depois será descartada ou deixada de lado pelos cantos desta mansão? Eu não sou uma máquina, Dona Guiomar. Se eu colocar um filho no mundo, o meu sangue vai correr nas veias dele






