Capítulo 08 - Arianna

Eram 02h17 da madrugada quando Arianna acordou sobressaltada com o choro do bebê.

Não era um choro qualquer: era aquele choro fino, de dorzinha, que sobe devagar e depois explode. Ela se sentou na cama tão rápido que quase derrubou Ava, que dormia encostadinha no seu peito, protegida por dois travesseiros nas costas, formando um ninho.

— Calma, meu amor… calma… — sussurrou, já pegando a bebê no colo por reflexo. Os olhos ainda embaçados pelo sono.

A luz do abajur estava baixa, só o suficiente pra ver o rostinho vermelho e as lágrimas grossas escorrendo pela face de Ava. Arianna cheirou rápido: fralda limpa. Colocou a mão na testa: quentinha, mas não febril. Mamadeira?Não, ela tinha mamado a pouco tempo.

— Tá com dorzinha na barriga, né, princesa? — Arianna perguntou baixinho, já levantando da cama com a bebê colada no ombro. Começou a andar pelo quarto em círculos, batendo levemente nas costinhas. — Shhh… a titia tá aqui… vai passar…

Passaram-se dez minutos. Quinze. O choro não diminuía. E ela já não sabia mais o que fazer. A primeira noite estava sendo difícil. Mais difícil do que ela imaginou.

Arianna abriu a porta do quarto devagarinho olhando de um lado para o outro e saiu pelo corredor escuro. O apartamento estava gelado; o ar-condicionado central não perdoava. Arianna tremia de frio dentro da camiseta velha e do short de pijama, mas não parou. Desceu o corredor até a cozinha ampla, acendeu só a luz de dentro do armário (aquelas luzinhas de LED que não ofuscam) e começou a massagear a barriguinha de Ava com a palma da mão, em movimentos circulares, como a mãe dela ensinara quando era bebê.

Procurou por chás, aqueles de camomila ou erva doce, mas não tinha nada disso para que ela fizesse. Então continuou a massagem, se Ava não melhorasse teria de levar ao médico.

— Vai, meu amor… solta esse gasesinho… vai…

Ava choramingou mais forte, depois soltou um arroto alto e molhado que sujou o ombro inteiro da camiseta de Arianna. Em seguida, silêncio. Um silêncio tão perfeito que ela quase chorou de alívio.

Foi aí que ouviu a voz atrás dela, rouca de sono:

— Tá tudo bem?

Arianna virou de repente e viu David. Ele estava encostado no batente da porta da cozinha, de calça de moletom, sem camisa, cabelo todo bagunçado, olhos inchados de quem também tinha sido acordado pelo choro. A luz fraca desenhava cada músculo do peito e do abdômen dele. Arianna sentiu o coração parar e depois disparar.

O homem era lindo demais, aquela tatuagem tribal chamava sua atenção que tinha vontade de passar o dedo a desenhando, vendo de perto os detalhes.

— Tá… tá sim — gaguejou, meio sem graça — Era só gases. Já passou.

David esfregou o rosto, deu dois passos e parou bem perto. Aquele rosto sonolento a fez engolir seco.

— Eu ouvi o choro e… não consegui voltar a dormir — confessou, com a voz baixa. — Pensei que você ia precisar de ajuda.

Arianna prendeu o ar. Ele estava tão perto que dava pra sentir o cheiro do seu hálito pós sono.

— Eu… consegui. Mas se quiser ficar com ela um pouco…

David estendeu os braços sem pensar duas vezes. Quando Ava viu o pai, abriu um sorrisinho mole de sono e praticamente se jogou no peito dele. A pequena estava se acostumando com o homem que tinha acabado de conhecer, talvez pudesse sentir que era seu pai, lá no íntimo.

— Ei, minha pequena… — ele murmurou, encaixando a filha nos braços com uma naturalidade que crescia a cada hora. Beijou a testa dela, cheirou o cabelinho. — Tava dodói neném?

Ava respondeu com um suspiro e encostou o rostinho no pescoço dele. Parecia entender e talvez realmente entendesse.

Arianna ficou parada, sem saber o que fazer com as mãos. A camiseta suja de leite regurgitado, o cabelo embolado, pernas de fora, senhor ela se lembrou que o short do pijama era curto o suficiente para mostrar a poupa da bunda… e o chefe seminu na sua frente piorava a vergonha que a atingia.

— Quer que eu prepare outra mamadeira? — perguntou, só pra fazer alguma coisa.

— Acho que ela só queria colo mesmo — David respondeu, balançando a filha devagar. Depois olhou pra Arianna e viu a mancha no ombro. — Ela te sujou.

— Tudo bem. Acontece. — ela deu um meio sorriso nervoso. — Vou pegar um pano.

— Deixa que eu pego.

Ele foi até a pia com Ava no colo como se já tivesse feito isso a vida inteira, pegou um pano úmido e voltou. Em vez de entregar, ele mesmo limpou o ombro dela com cuidado, o pano gelado na pele quente. Os olhos dele fixos nos movimentos.

— Pronto — ele disse, com a voz tão baixa que quase não saiu.

Os dois ficaram ali, parados no meio da cozinha iluminada só pelas luzinhas internas do armário, Ava já quase dormindo de novo no colo do pai, o silêncio tão denso que dava pra ouvir os corações batendo.

100 mil, multa. Ela se lembrou.

— Obrigada — Arianna conseguiu sussurrar.

— Eu que agradeço — David respondeu, sem desviar o olhar. — Você… você é boa nisso. Muito boa.

Ela baixou os olhos, sentindo o rosto pegar fogo. Esse trabalho estava sendo realmente difícil demais.

— É só prática.

— Não é só prática — ele insistiu, sério. — É… coração. Ela sentiu que você faz com amor. Eu também sinto.

Arianna levantou o olhar de volta. Os olhos verdes dele estavam fixos nos dela, e por um segundo nenhum dos dois se mexeu.

Ava soltou um suspiro profundo e se aconchegou mais no peito do pai. O encanto quebrou e Arianna agradeceu mentalmente.

— Acho melhor a gente voltar a dormir — ela disse rápido, dando um passo pra trás.

— Sim… claro.

David entregou a bebê com cuidado, os dedos dele roçando os dela por um segundo a mais do que o necessário.

— Se precisar de qualquer coisa… qualquer coisa mesmo… meu quarto é logo ali — ele apontou com a cabeça pro fim do corredor.

— Tá bem. Boa noite, senhor Martel.

— David — ele corrigiu, quase sem querer. — Aqui em casa… pode me chamar de David.

Arianna só conseguiu assentir, o coração na garganta.

Não era certo. Ela sabia disso. Nem a Dona Lúcia o chamava assim, então muito menos ela chamaria.

Voltou pro quarto com Ava dormindo no colo, deitou com todo cuidado, puxou o cobertor até o queixo das duas.

Mas o sono não veio mais.

Ela ficou olhando o teto, ouvindo a respiração ritmada da bebê, sentindo ainda o toque do pano úmido no ombro, o calor do corpo dele tão perto, a voz grave dizendo “eu também sinto”.

E soube, com uma certeza que assustava, que aquela noite tinha sido só o começo.

Regra número 35 já estava tremendo nas bases.

E ainda nem era madrugada inteira.

Ela não podia vacilar, precisava do emprego e não perderia por causa de um erro bobo de menina ingênua.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App