Mundo de ficçãoIniciar sessãoClara Mendes chegou a Nova Iorque com uma mala, uma licenciatura e a teimosia de quem não volta atrás. Quando aceita o posto de professora particular da filha de Adrian Beckett— bilionário, viúvo, arrogante com classe e controlador por hábito — o combinado era simples: aulas às nove, resultados mensuráveis, distância profissional. Ninguém combinou o resto. Ninguém combinou a Lily, que tem sete anos, os olhos da mãe que não conheceu e uma capacidade assustadora de ver o que os adultos fingem não ver. Ninguém combinou os elevadores que ficam presos, as danças por acidente em festas de escola, os cafés que aparecem sem ser pedidos, os beijos em corredores com a luz baixa. E ninguém, absolutamente ninguém, combinou que Adrian Beckett, que passou quatro anos a gerir a dor como se fosse uma empresa e a guardar tudo dentro de uma arquitectura hermética, ia encontrar na mulher mais desastrada de Nova Iorque a única pessoa capaz de o fazer parar de gerir e começar a sentir. É complicado. É inconveniente. É exactamente o tipo de coisa que não estava no contrato. Mas as melhores coisas nunca estão.
Ler maisHá coisas no universo que existem apenas para me humilhar.
O GPS que decide parar de funcionar exactamente quando eu mais preciso dele. A minha franja, que se comporta impecavelmente em casa e explode numa nuvem de caos logo que saio pela porta. E agora, aparentemente, a chuva de Nova Iorque, que escolheu o dia de hoje, desta manhã específica, para cair com uma intensidade que só vi em filmes de catástrofe. Estou em frente ao número 1147 da Fifth Avenue com o cabelo encharcado, o guarda-chuva virado do avesso (como é que isso acontece? como?), e uma pasta que absorveu tanta água que começa a parecer um pano de cozinha. Dentro dela estão o meu currículo, as minhas referências, e o que resta da minha dignidade. Respiro fundo. Clara Mendes, vinte e sete anos, Lisboa de origem, Nova Iorque por teimosia. Licenciada em Educação com especialização em desenvolvimento infantil, três anos de experiência como professora particular, e neste momento com o aspecto de quem atravessou o Atlântico a nado. Óptimo. O edifício à minha frente não é um prédio normal. É uma daquelas construções de Manhattan que existem para fazer as pessoas sentirem-se pequenas: pedra escura, entradas de bronze, um porteiro de farda que me olha com a expressão serena de quem já viu tudo e está preparado para ver mais. Deve ter pelo menos vinte andares, e aposto que o apartamento de Adrian Beckett ocupa um deles inteiro. Ou dois. Com terraço. Porque Adrian Beckett é o tipo de homem que tem terraço. Não o conheço. Mas conheço o tipo. A Mia enviou-me o link da Wikipedia dele às onze da noite de ontem com a mensagem "Clara tu tens noção do que é isto" e três emojis de fogo. CEO da Beckett Technologies, fundou a empresa aos vinte e quatro anos, está avaliado em... O número tinha tantos zeros que parei de contar. E tem uma filha de sete anos que, segundo a mesma Mia, "precisa de professora particular porque os colégios de Nova Iorque não chegam para o cérebro dela". Lily Beckett. Sete anos. Filha de um bilionário. E eu, Clara Mendes, sou a candidata a ensiná-la. Tenho de manter esse emprego. O porteiro abre a porta antes de eu chegar à escada. Deve ter um sensor para pessoas encharcadas. — Miss Mendes? — pergunta, com aquele sotaque neutro e profissional que os porteiros de Manhattan cultivam como arte. — Sim. — Dou-lhe o meu melhor sorriso. Ou o que sobrou dele depois da chuva. — Tenho uma reunião com o Sr. Beckett. Às dez. Ele confirma numa lista, faz um gesto elegante para o interior. O lobby é de mármore branco e silêncio absoluto. Há flores enormes numa mesa central, o tipo de flores que custam mais do que o meu aluguer mensal. O espelho ao fundo mostra-me o que eu esperava: um desastre completo. Franja colada à testa. Casaco encharcado. Mascara ligeiramente descida pelo lado esquerdo do olho. Passa um minuto enquanto tento reparar os danos com o que tenho disponível, um lenço de papel amassado no bolso e determinação. Não ajuda muito. O elevador abre directamente no que presumo ser o penúltimo andar. Há uma assistente à espera, loira, impecável, com o ar de quem nunca teve um dia mau na vida, que me olha por uma fracção de segundo com aquela expressão que as pessoas bem vestidas têm quando encontram alguém que não está. — Miss Mendes. — Sorri. Profissional. — Sou a Rachel, assistente do Sr. Beckett. Se me acompanhar, por favor. Acompanho. O apartamento é exactamente o que eu esperava e ao mesmo tempo completamente diferente. É enorme, sim, e é rico, sim, mas não é frio. Há livros. Muitos livros, em prateleiras altas que chegam ao tecto. Há um sofá de couro vermelho que parece ter sido muito usado. Há desenhos infantis emoldurados numa parede, pequenas obras de arte coloridas com a assinatura inconfundível de uma criança de sete anos: LILY, em letras grandes e irregulares. Paro um segundo a olhar para eles. Gosto deste sítio. Não era suposto, mas gosto. — O Sr. Beckett está a terminar uma chamada — diz Rachel. — Pode esperar aqui. "Aqui" é uma sala de reuniões com janelas do chão ao tecto e vista para Central Park. A chuva cai lá fora em cortinas densas, e Nova Iorque parece um quadro impressionista. Sento-me, coloco a pasta encharcada sobre a mesa, e espero. * * * Ele entra catorze minutos depois. Catorze. Contei. Adrian Beckett tem quarenta e... Não, espera, a Wikipedia disse trinta e oito. Trinta e oito anos com aquele ar. Alto. Ombros que preenchem o fato como se o fato tivesse sido costurado directamente no corpo. Cabelo escuro, ligeiramente em desalinho da forma que só acontece quando é natural ou quando custa muito dinheiro fazer parecer natural. Maxilar bem definido. Olhos escuros, rápidos, o tipo de olhos que avaliam uma sala inteira em dois segundos e já tomaram decisões sobre tudo o que viram. Olha para mim. Olha para o meu cabelo. Há uma pausa de meio segundo que consigo sentir na pele, infelizmente a minha pele avermelhou. — Miss Mendes. — A voz é grave. Controlada. Estende a mão. — Adrian Beckett. — Clara. — Aperto-lhe a mão. Firme. Seca, graças a Deus, porque as minhas são exactamente o contrário. — Peço desculpa pelo aspecto. A chuva foi... abrangente. Ele não sorri. Mas há qualquer coisa nos olhos que sugere que poderia. — Sente-se. Sento-me. Ele senta-se do outro lado da mesa, abre uma pasta, a pasta dele, que está seca e organizada como o resto do homem, e começa a folhear o meu currículo com a mesma expressão com que imagino que olha para relatórios financeiros. — Licenciatura em Educação pela Universidade de Lisboa — lê. — Especialização em desenvolvimento infantil e pedagogia diferenciada. Três anos de experiência com crianças entre os quatro e os doze anos. — Sim. — Português nativo. Inglês fluente. Francês funcional. — Correcto. Ele levanta os olhos do papel e fixa-os em mim. É o tipo de olhar que foi certamente treinado para fazer as pessoas sentirem que estão a ser lidas por dentro. Funciona. — Porque é que quer este trabalho? — pergunta. Directo. Sem preâmbulo. Respiro. Tenho a resposta preparada, uma boa resposta, honesta, sobre pedagogia e desenvolvimento e a importância das bases educativas nos primeiros anos escolares. É uma resposta inteligente. Profissional. — Porque adoro crianças e sou boa nisto — digo abrindo um curto sorriso, profissional. — E porque o salário que a Rachel me mencionou ao telefone é suficientemente bom para que eu consiga finalmente deixar de partilhar apartamento com uma pessoa que rouba o meu iogurte. Silêncio. Ele pisca. Uma vez. Lenta. — O iogurte. — Sua sobrancelha se ergue. — O iogurte de morango. Todas as semanas. Sem excepção. — Essa minha boca que não cala. Outra pausa. E depois, tão rápido que quase não apanho, um canto da boca que se move. Não chega a ser um sorriso. Mas esteve perto. — Fale-me de Lily — diz, e a voz muda ligeiramente. Fica mais... não sei. Mais real. — O que espera encontrar? Esta pergunta sim, esta sei responder bem. — Uma criança inteligente que provavelmente já está entediada do que a escola lhe oferece. Que testa as pessoas para ver se aguentam. Que vai tentar descobrir os meus limites nos primeiros dez minutos. — Faço uma pausa. — E que provavelmente vai gostar de mim, porque eu não baixo os limites. Só os torno interessantes. Ele olha para mim por um momento longo. Depois fecha a pasta. — Quando pode começar? * * * A reunião acaba quarenta e cinco minutos depois do início. Ficámos a falar, ele fez perguntas, eu respondi, houve duas ou três vezes em que ele contrariou qualquer coisa que eu disse e eu contrariando de volta, e acho que foi aí que a coisa mudou. Não sei para quê. Mas mudou. Na saída, passo pela parede dos desenhos da Lily. Paro, porque não consigo não parar, sou naturalmente curiosa. Há um em particular, uma casa com uma árvore e dois bonequinhos, um grande e um pequeno. Em cima, com letra de criança: EU E O PAPÁ. Algo aperta no peito. Não sei o quê. — É dela — diz uma voz atrás de mim. Viro-me. Adrian Beckett está a pouquíssimos metros, de braços cruzados, a olhar para o desenho com uma expressão que não consigo descrever. Não é tristeza exactamente. É mais... peso. O tipo de peso que as pessoas carregam quando amaram muito e perderam. — Ela tem talento — digo, porque é verdade e porque não sei o que mais dizer. — Tem. — Faz uma pausa. — Ela vai gostar de si, Miss Mendes. — Clara. Ele olha para mim. E desta vez, por meio segundo, os olhos ficam ligeiramente diferentes. Não sei como explicar. Ficam menos controlados. — Clara — repete. A voz grave dá ao meu nome uma textura que não tinha antes. Engulo em seco. Sorrio. Saio. No elevador, encostada à parede, olho para o tecto e respiro fundo. Bem. Isto vai ser completamente normal. Completamente.Às vezes o corpo sabe coisas antes de a mente autorizar.Quando eu tinha vinte e dois anos e conheci Elena numa conferência em Barcelona, ela era tradutora, estava no fundo da sala com um bloco de notas e uma expressão que dizia que estava a ouvir tudo e a guardar o que lhe interessava, o meu corpo soube antes de eu ter formulado um único pensamento consciente sobre ela. Soube na forma como a atenção se deslocou para ela sem eu pedir, na forma como o resto da sala ficou ligeiramente desfocado.Aprendi a reconhecer esse sinal.Aprendi também, nos quatro anos que se seguiram à morte dela, a não precisar de ele aparecer.O elevador demorou cerca seis minutos a ser reparado. Sei o tempo estimado porque o contei, não propositalmente, mas o meu cérebro tem o hábito inconveniente de registar dados mesmo quando não pede para os registar. Seis minutos num espaço fechado com Clara Mendes, que riu do meu argumento sobre o Thomas e dos medos oceânicos que enfrenta pedagogicamente e que ficou
Há uma lei não escrita do universo que diz que as situações mais inconvenientes acontecem exactamente quando menos se está preparada para as gerir.Corolário dessa lei: quanto mais se está a tentar manter uma distância profissional saudável de alguém, mais o universo vai arranjar maneiras criativas de eliminar essa distância.O elevador do edifício Beckett é, aparentemente, um instrumento do universo.É uma segunda-feira de Dezembro, faz frio lá fora, e eu estou a sair mais tarde do que o habitual porque a Lily quis terminar um projecto sobre o sistema circulatório humano e não havia maneira de a convencer a deixar para amanhã quando o coração já estava quase desenhado. Eram seis e meia quando finalmente consegui convencê-la que o coração poderia descansar até terça.Adrian estava ainda no escritório quando me despedi. Como sempre às segundas e às quartas.Entro no elevador. Carrego no R de rés-do-chão. As portas começam a fechar.E uma mão aparece.As portas abrem. Adrian entr
A pizza da Lily é sempre a mesma: queijo, cogumelos, milho. Sem azeitonas, "as azeitonas são o inimigo", declarou ela aos cinco anos numa afirmação que nunca reviu. A ordem é sempre a mesma: ela escolhe o filme, eu escolho a bebida, o Thomas escolhe as guardanapos que têm figuras porque é o único adulto nesta casa que percebe que os guardanapos com figuras são importantes.Esta sexta-feira a ordem é a mesma, mas há uma variável nova.Clara está no sofá.Está descalça, tirou os sapatos na entrada sem cerimónia, o que ninguém faz na minha casa, mas ela fez como se fosse completamente natural. Tem as pernas dobradas sob si, um guardanapo com pinguins no colo, e está a assistir ao filme que a Lily escolheu — "Encanto", pela décima vez, pelo menos — com uma atenção genuína que me diz que não viu o filme antes ou que simplesmente é o tipo de pessoa que consegue estar completamente presente onde está.Lily está encostada a ela.Não sentada ao lado. Encostada. A cabeça no ombro de Clara,
Existe, na minha experiência de professora, um tipo específico de criança que não faz perguntas por acidente.São as crianças que observam primeiro. Que ficam quietas, acumulam informação, constroem um modelo mental completo da situação, e só então, com uma precisão surpreendente que devia ser ilegal em menores de dez anos, fazem a pergunta que vai directamente ao centro de tudo.Lily Beckett é esse tipo de criança.Estamos a fazer um exercício de escrita criativa. Pedi-lhe que inventasse um personagem, nome, idade, o que gosta, o que não gosta, um sonho. É um exercício simples que me diz imenso sobre como uma criança pensa e organiza o mundo.Lily escreve durante doze minutos sem parar, sem hesitar, com aquela concentração total que me faz o coração crescer um bocadinho cada vez que a vejo. Depois pousa o lápis, dobra as mãos em cima do caderno, e olha para mim.— Clara.— Hm? — Estou a escrever notas. Não olho para cima imediatamente.— Achas o meu pai bonito?O lápis para.





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