O preço do afeto

O preço do afeto

Rocco Mancini

O gosto amargo da recusa ainda estava na minha boca, eu tinha deixado claro que não podia amar meu próprio filho.

O silêncio do escritório pareceu rugir nos meus ouvidos. Scarlett disse tão abertamente sobre o amor por uma criança que nem era sua. Olhando para mim com o rosto banhado por lágrimas, como se eu fosse capaz de ser diferente com aquelas palavras.

— Eu não posso, Scarlett... Eu não podia fazer isso... — Minha voz saiu como um rosnado quebrado. - Não posso fazer do meu filho um alvo.

Meus dedos apertaram a madeira com tanta força que os nós das mãos ficaram brancos.

O mantra que meu pai, Francesco, gravou na minha mente com ferro e fogo desde que eu era um garoto, ecoou: "O amor é uma corda, Rocco. E nesta família, as cordas servem apenas para enforcar os fracos."

Fechei os olhos e, por um segundo, não estava mais no escritório. O cheiro de mogno e couro foi substituído pelo odor acre de pólvora e o mofo de um porão úmido em Palermo. Eu tinha doze anos.

À minha frente, amarrado a uma cadeira de metal, estava Lorenzo. Ele não era um soldado, nem um traidor; era o filho do jardineiro, o único garoto que ousava rir comigo quando as sombras da "família" ficavam pesadas demais. Ele era o meu segredo, a minha humanidade.

Meu pai estava atrás de mim, a mão pesada como uma lápide no meu ombro.

— Ele ouviu o que não devia, Rocco — a voz de Francesco era um sussurro gélido, desprovido de qualquer raiva. A indiferença era o que mais assustava. — E você permitiu que ele se aproximasse. O erro foi seu. O afeto cegou sua vigilância.

— Ele não vai falar nada, pai! Eu juro! — Minha voz de criança falhou, aguda e desesperada.

Francesco contornou a cadeira, parando diante de Lorenzo, que tremia tanto que o metal da cadeira tilintava no chão de cimento. Meu pai tirou a pistola do coldre e, em um movimento lento e cerimonial, forçou o cano frio contra a palma da minha mão, fechando meus dedos sobre a coronha.

— Você tem duas escolhas hoje, meu filho. Ou você corta essa corda que o prende à fraqueza, ou eu a usarei para pendurar vocês dois.

— Por favor... — solucei.

— Escolha — rugiu Francesco, o rosto colado ao meu, os olhos vazios como abismos. — O herdeiro ou o cadáver. Se você não for capaz de eliminar o que ama para proteger o que é, então você já está morto para mim.

O som do tiro não foi o pior. O pior foi o silêncio que veio depois, e a forma como Francesco simplesmente limpou uma gota de sangue do meu rosto com o lenço, como se estivesse removendo uma mancha de sujeira de um móvel caro.

— Viu? — ele disse, enquanto eu caía de joelhos, o mundo perdendo a cor para sempre. — Agora você está livre. O amor não pode mais ser usado contra você.

Abri os olhos bruscamente, a respiração vindo em rasgos curtos. A imagem de Scarlett, com sua pureza e sua dor, borrou diante de mim. Ela falava de amor como se fosse uma salvação, mas para mim, o amor era apenas o prelúdio de um velório.

Eu olhava para meu filho e não via um bebê; via o rosto de Lorenzo. Via o alvo pintado em suas costas pela minha própria linhagem.

— Se eu o amar, Scarlett... — minha voz mal passava de um sussurro, carregada pelo veneno de Francesco. — Eu o condeno à morte. E eu já carreguei fantasmas demais por uma vida inteira.

— Cazzo! — Gritei para as paredes vazias, derrubando a garrafa de whisky com um movimento violento. O cristal se estilhaçou, o líquido âmbar espalhando-se como sangue pelo tapete.

Eu tinha uma fraqueza. Eu, Rocco Mancini, o homem que estava prestes a governar, estava aterrorizado por uma babá de olhos castanhos que amava sem querer nada em troca meu filho. Eu tinha medo de que a maldição da minha família se repetisse. Medo de que, ao sentir, eu estivesse apenas preparando o cenário para o seu funeral.

Caminhei até a janela, observando as luzes da cidade. A lembrança de Lorenzo sem vida na minha frente nunca saiu da minha cabeça.

Por isso sou tão rigoroso em me manter distante, em não querer me aproximar muito.

Eu queria proteger. Queria manter eles naquela ala isolada, não como prisioneiros, mas como um tesouro que o mundo nunca poderia tocar. Mas eu sabia que a coroação estava chegando. Logo a pressão de um casamento vantajoso iria começar. E a pressão para ser o Dom implacável seria esmagadora.

O suor frio escorria pelas minhas têmporas, misturando-se ao eco do disparo que nunca deixava de ressoar na minha mente. Eu tinha apagado sobre a mesa do escritório, um erro imperdoável para um homem na minha posição. Acordei com o meu próprio grito morrendo na garganta, o nome de Lorenzo ainda queimando na ponta da língua.

— Rocco?

A voz dela foi como um corte de seda na escuridão.

Virei-me bruscamente, a mão tateando instintivamente a lateral da mesa em busca de uma arma que não estava ali. Eu estava sem camisa; o calor sufocante do pesadelo me fez arrancar o paletó e a camisa horas atrás. Scarlett estava parada à porta, segurando uma prancheta contra o peito, usando apenas um vestido simples que revelava mais do que escondia sob a luz fraca do abajur.

Seus olhos se arregalaram, percorrendo as cicatrizes nas minhas costas e o desenho rígido dos meus músculos tensos. Ela parecia dividida entre o medo e algo muito mais perigoso: compaixão.

— Eu vim trazer o relatório do monitoramento noturno do seu filho... eu ouvi você gritar — ela sussurrou, dando um passo hesitante para dentro do cômodo.

— Saia, Scarlett — minha voz saiu como o estalar de um chicote, mas eu não me movi.

Eu deveria mandar embora, deveria ser o monstro que meu pai treinou, mas o perfume dela — baunilha e algo puramente feminino — estava invadindo meu espaço, combatendo o cheiro de pólvora da minha memória.

Ela ignorou meu comando. Aproximou-se até que a distância entre nós fosse curta o suficiente para eu sentir o calor que emanava de sua pele. Scarlett estendeu a mão, os dedos trêmulos roçando o ombro onde a marca do passado era mais profunda. O toque dela era como fogo sobre gelo.

— Você estava sofrendo — ela disse, os olhos fixos nos meus, uma tempestade de azul e preocupação.

Minha mão disparou, envolvendo o pulso dela com força, mas não para afastá-la. Eu a puxei para mais perto, sentindo a maciez do seu corpo contra a dureza do meu peito desnudo. A respiração dela falhou, e eu vi o pulsar acelerado em sua garganta.

— Você não tem ideia do que acontece nesta sala quando as luzes se apagam, Scarlett — rosnei, meu rosto a centímetros do dela. — O amor que você tanto defende... ele morre aqui.

Eu queria lhe assustar. Queria que ela corresse para longe de mim e do destino que eu carregava. Mas o modo como ela me olhava, sem desviar, desafiando a minha própria escuridão com aquele desejo latente, me fez perceber que a corda que meu pai mencionou estava, finalmente, se apertando no meu próprio pescoço.

Desta vez, porém, eu não tinha certeza se queria soltar, mas soltei.

- Vá Scarlett, vá cuidar das suas coisas.

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