Mundo ficciónIniciar sesión
O teto do quarto não tinha nada de interessante. Marjory sabia disso com a certeza de quem o encarava há três horas seguidas, deitada de costas no colchão com o celular pousado no peito como se fosse um peso e não um aparelho. As mensagens continuavam lá, azuis e entregues, cada uma delas uma evidência pequena e humilhante de que ela havia perdido o controle sobre o próprio bom senso.
Precisamos conversar sobre o que aconteceu. Pode me ligar quando puder? Tudo bem, entendo que você precisa de espaço. Essa última era a pior. Ela não entendia nada. Tinha escrito porque achou que soava madura, razoável, o tipo de coisa que uma pessoa equilibrada diria, mas a verdade era que não entendia absolutamente nada do que havia acontecido. Gavin havia terminado por mensagem. Não uma ligação, não um café, não uma conversa difícil num banco de parque sob a chuva de Dublin, como seria justo. Uma mensagem. Duas frases e meia. E sumiu. Marjory tinha vinte e dois anos, cabelos castanhos escuros que chegavam um pouco abaixo dos ombros e sempre escapavam de qualquer penteado que ela tentasse, olhos cor de mel que a mãe chamava de bonitos e ela chamava de indefinidos, e uma expressão que professores desde sempre descreviam como atenta, mas que na verdade era só o jeito que o rosto dela ficava quando estava tentando não demonstrar o que sentia. Era alta o suficiente para incomodar com salto, curvas que existiam mas não ocupavam muito espaço, e um guarda-roupa composto majoritariamente por jaquetas largas e meias grossas porque Dublin no verão ainda era Dublin. Agora estava de pijama. Cabelo preso de qualquer jeito. Uma meia só no pé direito porque a esquerda havia caído em algum momento da tarde e ela não havia se movido para procurar. O celular não vibrou. Ela o virou de cabeça para baixo. A porta do quarto abriu sem aviso — Louise nunca batia, alegava que bater era coisa de hóspede e ela pagava metade do aluguel — e Marjory ouviu o barulho antes de ver qualquer coisa. Passos, a janela do corredor rangendo com a brisa, o cheiro vago de alguma coisa doce que Louise havia feito na cozinha mais cedo. — Continua aí deitada? — Louise apareceu no vão da porta com uma sobrancelha levantada e os braços cruzados sobre o peito. Era impossível não notar Louise quando ela entrava em qualquer cômodo. Tinha um tipo de presença física que não dependia de esforço: pele morena, cabelos ruivos naturais que ela usava curtos, na altura do queixo, olhos castanhos claros que pareciam sempre ligeiramente divertidos com tudo ao redor. Era mais baixa do que Marjory, o que não a intimidava em absolutamente nada. Vestia calça preta e uma blusa vermelha que Marjory reconheceu como sendo própria. — Essa blusa é minha — disse Marjory. — Era sua. Agora é minha porque você está de pijama às oito da noite e não precisa dela. — Louise caminhou até a cama e sentou na beira sem pedir licença. — Como você está? — Bem. — Você respondeu rápido demais. Pessoas que estão bem levam um segundo para pensar antes de responder. Marjory virou o rosto para o lado. Pela janela do quarto dava para ver um pedaço do céu de Dublin que nunca ficava totalmente escuro no verão, um cinza-azulado suspenso entre o dia e a noite que ela normalmente achava bonito. Agora parecia só úmido. — Ele não respondeu nenhuma — disse ela depois de um momento. Louise não disse nada imediatamente. Era uma das coisas que Marjory gostava nela: o silêncio não era desconforto, era consideração. — Quantas você mandou? — Cinco. — Marjory. — Eu sei. — Dá o celular. — Não vou mandar mais. — Não estou preocupada com o que você vai mandar. Estou preocupada com você ficando aqui esperando vibrar. — Louise estendeu a mão, palma para cima, com uma paciência que era quase irritante. Marjory pegou o celular de debaixo de si mesma e entregou sem olhar. — Obrigada. Agora vai tomar banho. — Não quero sair. — Não perguntei se você queria. Marjory fechou os olhos. O teto continuava lá, mas agora ela não estava olhando para ele, e de alguma forma isso era ligeiramente melhor. — Louise. — Hm. — Por que ele nem ligou? Seis meses. Não merecia nem uma ligação? O silêncio que veio depois era de tipo diferente. Louise se deitou de lado na cama, de frente para ela, e Marjory abriu os olhos para encontrar aquele olhar castanho-claro que significava que a resposta honesta estava sendo pesada contra a resposta gentil. — Não sei — disse Louise por fim. — Mas eu sei que a resposta para isso não está no teto do seu quarto. Marjory ficou parada mais um momento. Depois, devagar, como alguém que decide acordar de um sonho ruim em vez de esperar que ele acabe sozinho, sentou na cama. — Onde a gente vai? Louise sorriu. Era um sorriso pequeno, do tipo que não precisava mostrar os dentes para significar alguma coisa. — Tem uma boate no Temple Bar que uma amiga minha indicou. Música boa, sem gente chata, e eles fazem um gin tônica decente. — Não quero beber. — Você não precisa beber. Você precisa sair desse quarto antes que você comece a fazer parte da decoração. — Louise se levantou e foi até o guarda-roupa de Marjory, abrindo as portas com a familiaridade de quem conhece cada peça dentro. — Veste essa. — Jogou um vestido preto simples na cama. — E o cabelo solto. Marjory olhou para o vestido. Depois para Louise. — Você é mandona. — Você me deixa ser mandona porque no fundo sabe que eu tenho razão. — Louise foi até a porta e parou no vão, como havia chegado. — Quinze minutos. Marjory ficou olhando para o vestido depois que ela saiu. Levantou.






