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Capítulo 5 — Não Sei do Que Está Falando

Havia uma habilidade específica que Marjory havia desenvolvido ao longo de três anos de faculdade, a de parecer atenta sem estar completamente presente. Era uma questão de postura: corpo levemente inclinado para frente, caneta na mão, olhos na direção certa. Professores liam isso como engajamento. Colegas liam como diligência. Ninguém precisava saber que a cabeça podia estar em outro lugar inteiramente.

Nunca havia precisado dessa habilidade tanto quanto agora.

Ciarán Doyle falava sobre o programa do semestre com a fluência de alguém que havia feito aquilo antes, não de forma mecânica, mas com a segurança de quem conhece o material bem o suficiente para não depender de roteiro. Falou sobre os autores que cobririam, sobre a metodologia de avaliação, sobre a expectativa de participação em sala. A voz era a mesma de sexta-feira, aquela qualidade entre serena e fechada, mas o registro era completamente diferente, era uma voz profissional, calibrada para o espaço, sem nenhuma das inflexões que ela havia memorizado sem querer no bar.

Marjory olhava para o caderno.

Havia escrito o título da disciplina no topo da página e nada mais.

Vinte minutos dentro da aula, Ciarán se moveu até o notebook com uma naturalidade que não anunciava nada, e disse:

— Vou pedir uma atividade rápida agora. Individual, sem consulta. Quero que vocês escrevam um parágrafo, pode ser mais se quiserem, sobre um livro lido nos últimos doze meses que considerem importante, não necessariamente o melhor, mas o mais necessário. Por quê? Porque quero entender como vocês pensam sobre literatura antes de começarmos a trabalhar juntos.

Distribuiu uma folha simples por fileira e voltou para a mesa, onde abriu o notebook e ficou com os olhos na tela, dando à turma o silêncio que a atividade pedia.

O som coletivo de canetas começando a se mover encheu a sala.

Marjory ficou olhando para a folha por três segundos. Depois escreveu um título no topo, escolheu um livro que havia lido em março com genuíno impacto, e começou. Escrever era o tipo de coisa que o corpo dela fazia sem precisar pedir licença ao estado emocional, e foi nisso que ela se concentrou, nas palavras, no argumento, na estrutura do parágrafo.

Durou talvez seis minutos antes de Louise se inclinar discretamente e tocar seu braço com a tampa da caneta.

Marjory se virou um milímetro.

Louise apontou para Ciarán com um movimento quase imperceptível do queixo e arqueou uma sobrancelha, a pergunta inteira contida num gesto.

Marjory respirou pelo nariz.

Inclinou levemente para o lado e escreveu no canto inferior da folha de Louise, letras pequenas: É ele.

Louise olhou para as letras. Olhou para Ciarán. Voltou para Marjory com uma expressão que percorreu rapidamente o espectro entre o espanto e alguma coisa que em outro momento teria sido engraçada.

Do outro lado, Henry havia notado o intercâmbio silencioso com o radar social que tinha para essas coisas e se inclinou também, sobrancelha levantada. Marjory passou a folha de Louise para ele com o mesmo canto visível.

Henry leu.

Olhou para a frente da sala.

Olhou de volta para Marjory.

Abriu a boca.

Ela apontou para ele com a caneta, o gesto inequívoco de não diga nada, e Henry fechou a boca com o esforço visível de alguém engolindo uma reação inteira de uma vez só. Ficou olhando para a própria folha com os olhos ligeiramente arregalados durante alguns segundos, depois se inclinou e escreveu na margem do caderno de Marjory, empurrando de volta: meu deus do céu ele é muito gato.

Marjory fechou o caderno sobre a frase.

Louise, do outro lado, havia se recomposto com aquela eficiência prática que tinha para situações que pediam cabeça fria, e escreveu na própria folha antes de passar de volta: você precisa mudar de turma. fala com a secretaria hoje.

Marjory pegou a caneta e escreveu embaixo: tem outra turma de Contemporary Fiction?

Uma pausa. Louise verificou algo discretamente no celular sob a mesa. Escreveu: não.

Marjory devolveu a folha sem escrever mais nada.

Do lado direito, Henry havia se recuperado o suficiente para voltar à própria atividade, mas continuava olhando para a frente da sala com uma frequência que não era acidental. Depois se inclinou uma última vez, boca perto do ouvido de Marjory, voz abaixo do murmúrio:

— Pode confirmar que metade da turma está olhando para ele como se fosse a última ceia?

Marjory não precisou verificar. Havia notado logo no início, de forma periférica, o tipo de atenção que algumas das colegas estavam dedicando à frente da sala que não tinha nada a ver com o programa do semestre. Havia uma garota duas fileiras à frente que havia refeito o cabelo desde que a aula começou, o que era uma informação.

— Não me ajuda, Henry — sussurrou ela.

— Não estou tentando ajudar, estou sendo jornalístico. — Pausa. — Mas objetivamente ele é gato. Isso é um fato separado e independente da sua situação pessoal.

— Henry.

— Silêncio, sim, certo.

A aula terminou com Ciarán indicando a leitura para quarta-feira, duas páginas de um ensaio que estava na plataforma da faculdade, e dispensando a turma com a economia de palavras de quem não precisava preencher espaço. Cadeiras rasparam no chão, mochilas foram fechadas, o barulho coletivo de uma sala desfazendo-se.

Marjory ficou sentada.

Louise a olhou.

— Vai entregar o trabalho — disse Marjory, mais para si mesma do que para Louise, segurando a folha da atividade que havia preenchido.

— Marjory —

— Vou só entregar e falar uma coisa rápida. Esperem lá fora.

Louise abriu a boca, fechou, e se levantou com Henry, que pela primeira vez em toda a manhã não fez comentário nenhum.

A sala foi esvaziando. Marjory esperou até restar só ela e mais dois colegas que conversavam perto da porta, e quando esses também saíram ela se levantou e foi até a mesa.

Ciarán estava de olhos no notebook, digitando alguma coisa, e não levantou a cabeça imediatamente quando ela chegou. Ela pousou a folha na mesa, ao lado do teclado.

— O trabalho — disse ela.

— Obrigado. — Ele não olhou para cima.

Marjory ficou parada. O coração estava fazendo algo inconveniente no peito, uma frequência elevada que ela não havia autorizado, e havia uma parte dela que queria simplesmente sair e deixar aquilo morrer de morte natural. Mas havia outra parte, a parte que havia ficado plantada no meio de uma boate assistindo ele se afastar, que precisava de alguma coisa. Não uma explicação completa. Só um reconhecimento.

— Sobre aquela noite — começou ela, com uma voz mais firme do que esperava. — No Temple Bar. Sexta-feira passada. Eu só queria dizer que —

— Não sei do que está falando.

A frase saiu sem interrupção no que ela estava dizendo, sem brusquidão, sem volume, mas com uma frieza que não era casual. Era deliberada. Ele continuou com os olhos no notebook enquanto dizia, a postura inalterada, os dedos parando sobre o teclado por exatamente um segundo antes de continuarem.

Marjory ficou olhando para ele.

Ele não levantou a cabeça.

Ela pegou a mochila do chão, virou-se, e saiu da sala com os passos mais regulares que conseguiu manter.

No corredor, Louise e Henry estavam esperando a dois metros da porta, Louise com os braços cruzados e Henry com a expressão de quem conteve a curiosidade até o limite físico do possível.

Marjory passou por eles sem parar.

— Andando — disse ela.

Eles andaram.

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