Mundo ficciónIniciar sesiónUma semana tem sete dias e Marjory havia contado cada um deles.
Não de forma dramática — ela havia ido ao mercado, havia lavado roupa, havia terminado uma leitura atrasada do verão e começado outra que abandonou no terceiro capítulo porque a protagonista tomava decisões que a irritavam de um jeito pessoal. Havia tomado café com Louise numa manhã de chuva fina e assistido a dois filmes que não conseguia lembrar do título já no dia seguinte. A vida havia continuado com aquela teimosia específica que a vida tem, indiferente ao estado interno de quem a vive. Mas havia sido uma semana. E agora era segunda-feira de manhã e a University College Dublin acordava do verão com o barulho coletivo de quem reuniu energia para fingir que estava pronta. O campus da UCD ficava no sul de Dublin, em Belfield, e tinha uma qualidade que Marjory havia demorado um semestre inteiro para apreciar: era grande o suficiente para que você nunca sentisse que estava num lugar pequeno, mas organizado o suficiente para que a imensidão não fosse desorientante. Havia árvores altas nos caminhos entre os edifícios, um lago no centro que ninguém usava para nada mas cuja existência tornava tudo ligeiramente mais suportável, e arquitetura dos anos setenta que era feia com consistência suficiente para ter virado característica. Marjory atravessou o campus com a mochila no ombro e o casaco abotoado até o segundo botão, cabelos presos sem cerimônia, olhos ainda com aquele peso específico de quem dormiu mas não descansou completamente. A manhã estava nublada — estava sempre nublada, esse era o acordo tácito com Dublin — e havia aquele cheiro de início de semestre no ar, papel novo e café de garrafa térmica e a ansiedade coletiva de duzentas pessoas tentando lembrar onde ficava cada sala. Louise a havia esperado na entrada do edifício de Humanidades com dois cafés de papel e uma expressão de solidariedade prática. — Pronta? — Não — disse Marjory, pegando o café. — Perfeito. Vamos. As duas cursavam Literatura Inglesa na UCD, terceiro ano, o que significava que já conheciam os corredores do edifício Flynn o suficiente para caminhar neles sem olhar para cima e ainda assim chegarem onde precisavam. A grade do semestre havia chegado por e-mail na semana anterior, e a primeira aula da manhã era Contemporary Fiction, que ocupava um slot de noventa minutos nas segundas e quartas e era ministrada, segundo o sistema da faculdade, por um professor novo cujo nome Marjory havia lido sem prestar atenção suficiente para reter. A Sala 14 ficava no segundo andar, no corredor que sempre cheirava levemente a tinta porque o estúdio de artes ficava na porta ao lado. Já havia gente do lado de fora quando chegaram, os costumeiros pequenos agrupamentos de início de semestre, pessoas que não se viam desde junho reunindo o fio das conversas deixadas no ar. — Marjory! Ela se virou. Henry estava encostado na parede com os braços cruzados e um sorriso que ocupava mais espaço do que o normal, o tipo de sorriso que ele usava quando estava particularmente satisfeito com a própria entrada em cena. Tinha um metro e oitenta de altura, cabelos negros cortados rente nas laterais e um pouco mais compridos no topo, pele clara com sardas leves no nariz, e naquele dia usava um blazer verde-musgo sobre uma camiseta branca que em qualquer outra pessoa teria parecido exagero para uma segunda-feira de manhã e nele parecia simplesmente inevitável. — Henry. — Marjory sorriu de verdade pela primeira vez na manhã. Ele a abraçou com a força desproporcional que sempre usava, como se abraçar pela metade fosse desperdício de energia. — Você sumiu o verão inteiro — ele disse, sem soltar completamente, apenas recuando o suficiente para olhá-la. — E parece que dormiu pouco. O que aconteceu? — Gavin terminou. A expressão de Henry fez uma sequência rápida de movimentos, do espanto para a indignação, antes de se estabelecer numa espécie de furor contido. — Esse homem — começou ele. — Henry — — Não. Deixa eu ter um segundo. — Ele levantou uma mão. — Esse homem passou o verão inteiro com você, foi ao casamento da sua prima, comeu o jantar de domingo da sua mãe três vezes, e terminou como? — Por mensagem. Henry fechou os olhos por um momento. — Por mensagem — repetiu, com o tom de quem está catalogando uma injustiça histórica. — Tudo bem. Estou bem. Como você está? — Estou bem também. — Você está usando o mesmo tom que usa quando não está bem mas não quer elaborar. — Estou usando o tom de segunda-feira de manhã com sono. Louise havia cumprimentado Henry por cima do ombro de Marjory e agora estava ao lado deles com o café na mão, observando a conversa com o distanciamento divertido de quem já conhecia o roteiro. Henry olhou para ela, depois para Marjory, depois de volta para Louise com a expressão de quem acaba de receber informação por osmose. — Tem mais alguma coisa — disse ele. — Teve uma saída na sexta — disse Louise. — Louise — — Ele vai perguntar até você contar, você sabe disso. Henry cruzou os braços com expectativa educada. Marjory bebeu um gole do café. — Fomos a uma boate. Cheguei num homem. Ele foi embora no meio. Foi péssimo. Fim. — Chegou num homem — Henry repetiu, e havia algo no jeito que disse que não era julgamento, era admiração calibrada. — Bom para você. O babaca não merecia lealdade nem psicológica. — Obrigada, Henry. — É um elogio genuíno. — Ele descruzou os braços e ficou parado por um momento com a expressão de quem está decidindo sobre o peso de uma informação. Marjory o conhecia há dois anos e reconhecia aquela pausa. — O que foi? — disse ela. — Nada. — Henry. Ele olhou para Louise brevemente, o tipo de olhar que pergunta ela deve saber? e recebe de volta um não faço ideia, decide você. — Vi uma coisa no I*******m do Gavin — disse ele por fim, com aquela delicadeza específica que ele reservava para notícias que não queria dar mas sabia que omitir seria pior. — Parece que ele está namorando oficialmente. Alguém chamada Petra. Loira. Marjory não disse nada. — Postou hoje de manhã — Henry continuou. — Com legenda e tudo. Esse nível de publicidade em rede social significa que não é novo, você entende o que estou dizendo. Ela entendia. Significava que não havia começado na semana passada. Significava que as linhas do tempo que ela havia tentado não calcular na noite da boate provavelmente tinham uma resposta, e a resposta não era a que ela teria escolhido. — Petra — disse Marjory, experimentando o nome em voz alta sem nenhuma razão específica. — Um nome horrível — disse Henry, com convicção total e imediata. — É um nome perfeitamente normal — disse Louise. — Neste contexto específico é um nome horrível. Estou sendo contextual, não linguístico. A porta da Sala 14 abriu por dentro, o que significava que o professor já estava lá e que era hora de entrar. Gente começou a se mover ao redor deles, mochilas sendo ajustadas, conversas suspensas em meia frase. Marjory respirou. Petra. Namorando oficialmente. Loira. Tudo bem. Era uma informação. Informações não matavam ninguém. Ela entrou na sala. Havia fileiras de mesas em semicírculo, o tipo de configuração que sinalizava discussão em vez de palestra, e o espaço estava enchendo rapidamente com gente escolhendo lugares com aquela estratégia silenciosa e universal de quem quer ficar perto dos conhecidos mas não na primeira fila. Marjory foi para o meio, Louise do lado, Henry do outro lado com a mochila jogada na cadeira como se estivesse reclamando território. Na frente da sala havia um quadro branco com o título da disciplina escrito em letras simples, uma mesa com um notebook aberto, e um homem de costas para a turma que estava conectando um cabo ao projetor com a concentração de quem preferia resolver isso antes de virar para uma sala cheia de olhos. Marjory tirou o caderno da mochila. O homem na frente se virou. Ela olhou para cima. O caderno escorregou dois centímetros das mãos antes de ela segurar de novo. Era ele. O mesmo rosto, a mesma linha entre as sobrancelhas, os mesmos olhos escuros que na boate haviam tido uma qualidade específica de presença e que agora, sob a luz branca e honesta de uma sala de aula na segunda-feira de manhã, reconheceram-na exatamente no mesmo instante em que ela o reconheceu. Ciarán Doyle não demonstrou nada. Absolutamente nada. — Bom dia — disse ele, para a sala inteira, com uma voz que era a mesma de sexta-feira mas num registro completamente diferente. — Meu nome é Ciarán Doyle. Serei o responsável por Contemporary Fiction este semestre. Marjory ficou olhando para ele. Henry se inclinou levemente para o lado e sussurrou: — Você está bem? Ficou branca. Ela não respondeu. Na frente da sala, Ciarán Doyle abriu o notebook e começou a falar sobre o programa do semestre como se o mundo fosse completamente ordenado.






