Mundo ficciónIniciar sesiónO Temple Bar numa sexta-feira à noite era o tipo de lugar que lembrava a Marjory por que ela normalmente evitava o Temple Bar numa sexta-feira à noite.
A rua de paralelepípedos estava cheia de gente derramando para as calçadas, copos na mão, vozes sobrepostas em camadas que tornavam impossível distinguir qualquer conversa específica. As luzes dos pubs pintavam tudo de âmbar e vermelho, e havia música saindo de pelo menos três lugares ao mesmo tempo em frequências que brigavam entre si no ar frio. Louise caminhou na frente com aquela confiança de quem conhece o caminho e não tem paciência para hesitar, e Marjory a seguiu com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco que havia insistido em trazer mesmo com Louise dizendo que não precisava. Precisava. Sempre precisava. A boate ficava numa rua lateral, descendo uma escada curta que dava para um espaço menor do que o exterior sugeria, mas com um teto alto e uma iluminação que sabia o que estava fazendo — baixa o suficiente para esconder cansaço, alta o suficiente para que você ainda conseguisse ver com quem estava falando. A música era eletrônica mas não agressiva, o tipo que existe como fundo em vez de exigir atenção. Marjory relaxou dois por cento dos ombros. — Gostei — disse Louise, olhando em volta com aprovação. — Você gosta de tudo que envolve sair de casa. — Exatamente. Vem. Conseguiram um espaço no bar depois de alguns minutos de espera, e Louise pediu dois gin tônicas com a naturalidade de quem já havia decidido o que queria antes mesmo de entrar. Marjory ficou de cotovelo no balcão, olhando para o espaço sem olhar para nada específico. — Aquele ali — disse Louise, inclinando levemente a cabeça para a direita. Marjory nem se virou. — Não. — Você nem olhou. — Não preciso. O tom que você usou já me disse tudo. Louise fez uma expressão de quem está sendo injustiçada pela história. — Ele é bonito, cabelo encaracolado, parece simpático — — Simpático. — Marjory girou o copo entre os dedos. — É exatamente o problema. Todos eles parecem simpáticos no início. Gavin parecia simpático. — Gavin era simpático. Só que também era covarde, que é diferente. — Louise. — Estou sendo precisa, não cruel. — Louise bebeu um gole. — Mas tudo bem, o de cabelo encaracolado era uma sugestão. O que você quer, então? Marjory ficou um momento sem responder. Era uma pergunta honesta e merecia uma resposta honesta, mesmo que custasse alguma coisa admitir em voz alta. — Estou cansada de garotos — disse por fim. — De garoto que some depois de seis meses porque não sabe dizer o que quer. De garoto que manda mensagem de madrugada e some de dia. De garoto que parece uma coisa e é outra. — Ela levantou o copo e bebeu. — Quero um homem de verdade. Alguém que já passou por alguma coisa. Que sabe onde está. Louise ficou em silêncio por um segundo. Depois se virou lentamente para o outro lado do bar, como se estivesse cumprindo uma missão com a seriedade que ela merecia. Ficou parada. — Ali — disse ela. Dessa vez havia algo diferente no tom. Marjory se virou. Ele estava encostado num ponto discreto do bar, um pouco afastado da concentração de gente, com um copo escuro na mão e uma postura que não era arrogante mas tampouco era de alguém pedindo permissão para ocupar o espaço. Alto. Ombros largos dentro de uma camisa simples, escura, mangas dobradas até o antebraço. Cabelo castanho, levemente desarrumado do jeito que às vezes é natural e às vezes é uma escolha. Havia uma qualidade no rosto dele que Marjory não conseguiu nomear imediatamente, alguma coisa entre sereno e fechado, como alguém que está no próprio pensamento mas não completamente ausente. Ela calculou mentalmente. Trinta, talvez. Talvez um pouco mais. — Perfeito — disse Louise em voz baixa, com a satisfação de um arquiteto olhando para um projeto concluído. — É exatamente o que você pediu. — Eu não pedi nada específico. — Você pediu um homem de verdade. Esse claramente já pagou aluguel, teve uma relação complicada e aprendeu alguma coisa com isso. Olha para ele. Marjory estava olhando. — Não vou chegar nele assim. — Ninguém disse assim. — Louise sinalizou para o barman sem que Marjory percebesse o momento exato em que havia tomado essa decisão. — Primeiro isso. O shot de tequila apareceu no balcão. Marjory olhou para ele. Olhou para o homem lá no canto. Voltou para a tequila. — Se isso for uma péssima ideia, eu vou te culpar para sempre. — Já fui culpada por coisas piores. — Louise empurrou o copo dois centímetros em direção a ela. — Vai. Ela foi. A tequila desceu com aquele ardor específico que limpa o caminho para as decisões que o bom senso normalmente bloquearia, e Marjory se moveu pelo espaço do bar antes que pudesse mudar de ideia. Chegou perto o suficiente para que ignorar já não fosse uma opção natural, e ele se virou levemente na direção dela, como se tivesse notado o movimento antes de vê-la. De perto ele era mais do que a distância havia sugerido. Tinha uma linha de expressão leve entre as sobrancelhas, o tipo que vem de pensar muito ou de prestar atenção de verdade nas coisas. Olhos escuros. Um canto da boca que parecia ter opinião própria sobre o que estava vendo. — Você estava me olhando — disse ele. Não era uma acusação, era uma observação, e havia uma leveza discreta na voz que Marjory não havia esperado. — Minha amiga estava me olhando olhar para você — ela corrigiu. — É diferente. — É. — Ele virou o copo levemente entre os dedos. — E o que a sua amiga concluiu? — Que você parecia o tipo de pessoa que sabe onde está. Ele considerou isso por um momento com uma seriedade que poderia ter sido ironia mas não era completamente. — Às vezes — disse ele. — Hoje? — Hoje, sim. Marjory não sabia exatamente em que ponto a conversa havia deixado de ser conversa e virado outra coisa, mas havia um momento em que a distância entre os dois era social e depois havia um momento em que não era mais, e ela não havia anotado quando a transição aconteceu. Ele havia se inclinado levemente, ou ela havia se aproximado, ou as duas coisas ao mesmo tempo, e havia música e havia o barulho de todo aquele espaço ao redor, mas era o tipo de barulho que existe em torno de um silêncio específico, não dentro dele. O beijo começou devagar. Não era o beijo de quem está bêbado e impreciso, era o de quem fez uma escolha e está presente nela. A mão dele encontrou o lado do rosto dela com uma firmeza que não era pressa, e Marjory sentiu o ombro relaxar de um jeito que ela não havia autorizado. Por alguns segundos não havia mensagem sem resposta, não havia teto de quarto, não havia nada que pesasse. Então o celular dele vibrou. Ele não ignorou imediatamente, o que já disse alguma coisa. Parou. Olhou para a tela com uma expressão que mudou de um jeito rápido demais para ela ler. — Preciso atender. Ela ficou parada enquanto ele se afastava dois passos e falava baixo demais para que ela ouvisse alguma coisa. A ligação durou menos de um minuto. Quando ele voltou, havia algo diferente na postura, algo que havia fechado. — Preciso ir. Marjory ficou olhando para ele. — Agora? — Sim. — Ele pareceu, por um segundo, genuinamente dividido, o que foi quase pior do que se não parecesse. — Desculpa. E foi. Marjory ficou parada no mesmo ponto por um momento, no meio do barulho de todo aquele espaço que havia continuado existindo sem precisar dela. Depois se virou e caminhou de volta até Louise, que estava esperando com uma expressão que tentava ser neutra e não estava conseguindo. — Como foi? Marjory pegou o gin tônica que havia sobrado no balcão e bebeu um gole longo. — Um fiasco — disse ela.






