Mundo ficciónIniciar sesiónO táxi cheirava a baunilha e tinha um pequeno terço balançando no retrovisor, e Marjory ficou olhando para ele durante boa parte do trajeto de volta como se o movimento pendular fosse resolver alguma coisa.
Louise estava do lado dela no banco traseiro com as pernas cruzadas e os braços abraçados sobre o próprio corpo, porque Dublin à noite em julho ainda pedia casaco, coisa que ela havia ignorado e agora pagava em silêncio. Nenhuma das duas havia falado muito desde saírem da boate. Havia um tipo de silêncio que era conforto e um tipo que era processamento, e esse era claramente o segundo. Foi Marjory quem falou primeiro. — Ele fingiu. Louise se virou para ela. — A ligação — Marjory continuou, com a voz de quem está construindo um caso internamente há vinte minutos e finalmente apresenta a conclusão. — Ele fingiu receber uma ligação. O celular estava virado para baixo na mão dele quando tocou. Quem segura o celular virado para baixo numa boate? Ninguém que está esperando uma ligação de verdade. Louise ficou quieta por um segundo. — Talvez fosse alguém do trabalho — — Louise. — Estou tentando ser otimista. — Você está sendo gentil, que é diferente, e eu não preciso de gentileza agora. — Marjory encostou a cabeça no vidro da janela, que estava frio e ligeiramente úmido de condensação. — Eu preciso entender como cheguei no ponto de ser abandonada duas vezes na mesma semana por dois homens diferentes. — Não é abandono — — Gavin sumiu depois de seis meses sem uma explicação decente e um desconhecido inventou uma ligação para escapar depois de um beijo. — Ela pausou. — Isso tem um nome e o nome é abandono. Louise abriu a boca, fechou, considerou, e abriu de novo. — O desconhecido é um capítulo separado. Você não o conhecia. Não lhe devia nada e você não lhe devia nada. — Eu sei disso. — Então o problema não é ele especificamente. — O problema — disse Marjory, com uma precisão cuidadosa que indicava que estava tentando não levantar a voz dentro de um táxi — é que eu tomei uma tequila, atravessei um bar inteiro, cheguei nele, e o homem inventou uma saída. — Ela se virou para Louise com uma expressão completamente séria. — Eu beijo mal, amiga? Louise demorou exatamente um segundo a mais do que deveria. — Louise. — Não! Não, você não beija mal, meu Deus. — Louise se virou no banco para encará-la com a solenidade de quem vai prestar um depoimento. — Você é linda. Tem um rosto que as pessoas olham duas vezes na rua, tem um sorriso que demora mas quando aparece é a coisa mais disarmante do mundo, e tenho certeza absoluta de que você não beija mal. — Então por que — — Porque ele era um babaca. — Louise disse isso com a finalidade de uma sentença proferida. — Como todos os outros. A diferença é que esse foi mais eficiente, levou menos tempo para revelar o caráter. Marjory ficou olhando para ela. — Isso deveria me fazer sentir melhor? — Deveria te fazer sentir que você não perdeu nada que valesse guardar. O táxi virou numa rua mais estreita e o terço no retrovisor oscilou para o lado. Marjory voltou a olhar para ele. — Eu só queria ter chegado em casa sabendo que pelo menos uma coisa havia funcionado essa semana — disse ela, mais baixo. Não era mais raiva, era outra coisa, o tipo que fica embaixo da raiva depois que ela passa. — Qualquer coisa. Louise colocou a mão sobre o joelho dela por um momento, sem dizer nada. Às vezes Louise sabia quando falar e quando não falar, e era nesses momentos que Marjory se lembrava por que dividiram um apartamento e não só uma faculdade. O táxi parou. O apartamento estava do jeito que haviam deixado: a luminária da sala acesa porque Louise nunca a apagava ao sair, as xícaras da tarde ainda na pia, o corredor com o piso que rangia no segundo tablado da esquerda. Era um apartamento pequeno e honesto, dois quartos com uma sala que funcionava também como área de jantar porque a cozinha não tinha espaço para mesa, e elas haviam transformado nos últimos dois anos num lugar que parecia habitado de verdade, com mantas em cima dos sofás e fotos fixadas com fita adesiva e uma planta que Louise havia nomeado Gerald e que milagrosamente ainda estava viva. Marjory jogou o casaco no gancho perto da porta. — Obrigada por ter ido — disse ela. Louise estava tirando os brincos no corredor, olhando para o espelho pequeno que penduraram torto e nunca corrigiram. — Sempre. — Pausou. — Você vai ficar bem? — Vou dormir. — Isso não é a mesma coisa. — Hoje é. Louise a olhou pelo reflexo do espelho por um momento. Depois se virou e deu um abraço rápido e firme, o tipo sem cerimônia, sem pergunta, e foi para o quarto sem mais nada porque às vezes mais nada é o suficiente. Marjory ficou parada no corredor por um segundo depois que a porta de Louise fechou. O apartamento fazia os barulhos que apartamentos fazem à noite, o frigorífico, o vento pela janela da cozinha que nunca vedava direito, o vizinho do andar de cima com sua caminhada irregular. Ela foi para o quarto, tirou o vestido, vestiu o pijama com os movimentos de quem está no piloto automático, e se jogou na cama com o celular na mão por puro hábito, sem intenção. A intenção veio depois, quando o polegar já estava se movendo. Ela não havia procurado o perfil de Gavin desde o término. Havia se dado esse crédito durante uma semana inteira, havia considerado isso uma vitória pequena mas real. Não sabia o que procurava agora, talvez nada, talvez só a confirmação de que ele existia de verdade e que portanto o que havia acontecido também havia existido de verdade, que seis meses não haviam sido uma história que ela contou para si mesma. A foto estava no topo do perfil. Havia sido publicada duas horas antes. Gavin numa festa, o tipo de festa com luzes coloridas e copos levantados, sorrindo do jeito que sorria quando estava relaxado e confortável, o sorriso que ela havia achado bonito na primeira vez que viu. Do lado dele havia uma garota loira com cabelos lisos e uma blusa vermelha, e eles não estavam só um ao lado do outro da forma que pessoas ficam em fotos de grupo. Ela estava inclinada para ele. Ele havia virado o rosto na direção dela. O ângulo dizia tudo que a legenda não precisava dizer. Good times, estava escrito embaixo. Dois emojis. Quarenta e sete curtidas. Marjory ficou olhando para a foto por mais tempo do que deveria. Havia uma parte pequena e irracional do cérebro dela que estava fazendo cálculos que ela não havia pedido, tentando estabelecer linhas do tempo, determinar quando, quanto antes do término, se havia sobreposição, se os seis meses haviam sido o que ela havia pensado que eram ou outra coisa completamente. Não havia resposta na foto. Havia só a foto. Ela pousou o celular na mesa de cabeceira com a tela para baixo. Ficou olhando para o teto, que era diferente do teto da tarde porque agora estava escuro e só havia a luz fraca da rua entrando pela fresta da cortina, e de alguma forma o escuro tornava o teto mais fácil de encarar do que quando tinha luz demais para pensar. A primeira lágrima foi quase surpresa. A segunda, não. Ela não fez barulho. Não havia nada dramático no jeito que chorou, nenhum soluço, só o rosto molhando devagar contra o travesseiro enquanto Dublin continuava existindo lá fora com toda a indiferença natural das cidades grandes, e em algum ponto entre uma respiração e outra o cansaço foi maior do que tudo e ela dormiu.






