Mundo de ficçãoIniciar sessãoA cantina da UCD tinha o barulho específico de um lugar que serve muita gente em pouco tempo e não pede desculpas por isso. Bandejas, cadeiras, conversas sobrepostas, o cheiro de comida quente misturado com café passado há tempo demais. Às onze da manhã estava na metade da capacidade, o que significava que dava para encontrar mesa sem negociação, mas não dava para ter uma conversa sem consciência do entorno.
Marjory escolheu uma mesa no canto com a automaticidade de quem não quer estar no centro de nada. Jogou a mochila na cadeira, sentou, e ficou olhando para a superfície da mesa por um momento como se estivesse verificando se era real. Louise trouxe três cafés do balcão sem perguntar se alguém queria. Henry trouxe um pacote de biscoitos que ninguém havia pedido e que todos precisavam. Sentaram. Silêncio de três segundos, o tipo que precede uma conversa que nenhuma das partes sabe exatamente como começar. Foi Henry quem abriu. — Conta. Marjory pegou o café. Contou. Não foi longo porque não havia muito a contar, que era precisamente o problema. Havia chegado à mesa. Havia pousado o trabalho. Havia dito sobre aquela noite e ele havia respondido não sei do que está falando sem sequer levantar os olhos do notebook, com a mesma entonação que se usaria para comentar o tempo. Quando terminou, Louise estava com a boca levemente apertada, a expressão de quem está processando uma raiva que ainda não decidiu como expressar. Henry ficou quieto por um momento, o que era suficientemente incomum para ser notável. — Não sei do que está falando — Louise repetiu, devagar, como se precisasse ouvir em voz alta para acreditar. — Assim. Com essas palavras. — Com essas palavras. — Sem olhar para você. — Sem olhar para mim. Louise pousou o copo com um cuidado que era mais controlado do que natural. — Que homem desprezível. — Louise — disse Henry. — Não começa. — Não estou defendendo. Estou sendo racional por dois minutos, que é o que ela precisa agora. — Henry se inclinou ligeiramente sobre a mesa, os cotovelos apoiados, a voz num registro mais baixo e mais sério do que o habitual. — Pensa bem no que aconteceu. Ele entrou numa sala de aula numa segunda-feira de manhã e do outro lado estava uma pessoa com quem tinha estado numa boate três dias antes. Isso é uma situação objetivamente catastrófica para ele. Marjory o olhou. — Estou do lado dele agora? — disse Louise. — Não estou do lado dele. Estou dizendo que a reação dele tem uma lógica, mesmo que tenha sido grossa. — Henry abriu o pacote de biscoitos com calma. — Ele é professor. Novo, pelo jeito, o que significa que ainda está estabelecendo reputação. Se aquela história tivesse saído, se alguém tivesse ouvido, se tivesse virado comentário nos corredores, ele teria um problema real. A universidade tem políticas sobre esse tipo de coisa. — Ele não sabia que eu estava na turma dele — disse Marjory. — Não tinha como saber. — Exato. Então quando você apareceu na sala, deve ter sido um choque considerável, e quando você chegou na mesa ele entrou no único modo que provavelmente achou seguro, que foi negar completamente. — Para mim — disse Marjory. — Ele negou para mim. Que estava lá. Que aconteceu alguma coisa. — Sim. O que foi covarde e desnecessário, e eu não estou dizendo que foi certo. — Henry comeu um biscoito. — Estou dizendo que provavelmente não era sobre você especificamente. Era sobre ele tentando conter uma situação que não esperava. Silêncio. Louise estava olhando para Henry com uma expressão que avaliava a argumentação contra a vontade de discordar. — Ainda foi uma coisa horrível de fazer — disse ela, por fim. — Completamente — concordou Henry, sem hesitar. — Mas horrível por razões diferentes de simplesmente ser cruel. Tem uma diferença. Marjory ficou olhando para o café. A diferença não mudava o que havia sentido saindo daquela sala com os passos mais regulares que conseguiu manter, mas havia algo no enquadramento de Henry que tornava a coisa ligeiramente menos pessoal. Ou pelo menos pessoal de outro jeito. — Vai ser um semestre longo — disse ela. — Vai — concordou Louise. — Noventa minutos, duas vezes por semana, olhando para o rosto de um homem que fingiu não me conhecer. — Você pode sentar no fundo — sugeriu Henry. — E usar o cabelo na frente assim. — Ele fez um gesto vago em torno do próprio rosto. — Muito útil, obrigada. — Faço o que posso. Foi Louise quem viu primeiro, porque Louise sempre via essas coisas primeiro, tinha um radar para presenças inconvenientes que Marjory havia invejado em outras circunstâncias. Não disse nada. Só ficou levemente mais quieta, o tipo de quietude que tinha textura própria, e Marjory a notou da mesma forma que se nota uma mudança de pressão antes da chuva. Virou a cabeça. Do outro lado da cantina, a umas quatro mesas de distância, Gavin estava sentado com um grupo que ela reconheceu como sendo do time de rugby, aquelas jaquetas idênticas e aquele jeito de ocupar espaço em grupo que homens em times desenvolvem como segunda natureza. Havia conversas acontecendo, alguém estava rindo alto de alguma coisa, bandejas com comida que ninguém comia completamente. E do lado de Gavin, com o ombro encostado no dele com a familiaridade de quem já estabeleceu território, estava uma garota de cabelos louros lisos. Petra. Tinha um rosto que Marjory processou num segundo e não quis processar mais: bonita, com aquela beleza sem esforço aparente que era provavelmente muito trabalhosa na prática, rindo de alguma coisa que alguém do grupo havia dito. Gavin estava rindo também. E então Gavin olhou up. Foi rápido, o tipo de coisa que os olhos fazem sozinhos quando percebem movimento ou presença no campo periférico. Os olhos dele encontraram os dela por menos de dois segundos, tempo suficiente para que Marjory visse o reconhecimento, e alguma coisa depois do reconhecimento que ela não conseguiu nomear porque não quis se demorar nisso. Ela virou a cabeça de volta para a mesa. Henry e Louise estavam olhando para ela. — Estou bem — disse ela, antes que qualquer um perguntasse. — Não disse nada — disse Henry. — Estavam prestes a. Louise envolveu as mãos em torno do copo. — Você quer ir embora daqui? — Não. E era verdade, não no sentido de que estava confortável, mas no sentido de que levantar e sair seria um gesto que significaria alguma coisa, e ela não queria que nada do que fazia agora significasse alguma coisa em relação a Gavin. Não porque havia esquecido. Não porque havia perdoado, ou processado, ou chegado a qualquer tipo de paz com o que havia acontecido. Mas porque havia uma raiva instalada nela naquela semana que era diferente da dor, que ficava abaixo da dor como uma base, e a raiva dizia que ele não merecia que ela se movesse. Então ela não se moveu. Pegou um biscoito do pacote de Henry. Comeu. Olhou para Louise e perguntou sobre a leitura de quarta-feira como se a cantina tivesse só eles três e as mesas ao redor fossem cenário. Louise entendeu na hora, porque Louise sempre entendia, e entrou na conversa com a naturalidade de quem aceita a direção sem questionar. Henry levou três segundos a mais, porque Henry sempre precisava de três segundos a mais para resistir ao comentário, mas também entrou. Do outro lado da cantina, Gavin existia com a Petra e os amigos do time e a jaqueta e o sorriso que ela havia achado bonito na primeira vez. Marjory não olhou de novo. Não porque havia superado. Mas porque havia decidido, naquele momento, que a raiva era mais útil do que a saudade, e que às vezes escolher onde colocar os olhos é a única forma de controle que se tem.






