O FAROL E AS FERIDAS

 O FAROL E AS FERIDAS

O farol da Avenida Monte Real sempre foi uma pausa incômoda no trajeto de Arthur.

Não gostava de parar.

Não gostava do tempo que isso lhe dava para pensar.

Para sentir.

A cada manhã, às 7h12, o mesmo semáforo ficava vermelho.

E, desde algumas semanas, a mesma visão atravessava sua linha de foco com a força de um estalo involuntário.

Helena.

Ele não sabia seu nome, mas sabia seus gestos.

Ela caminhava entre os carros com passos curtos, cuidadosos, com Davi,  aquele menino pequeno, magro, de olhos imensos e curiosos,  sempre apoiado no quadril ou agarrado ao pescoço dela.

O menino parecia confiar nela com uma fé absoluta.

Arthur observava isso com desconforto crescente.

Não porque se incomodasse com a presença deles.

Mas porque algo ali quebrava o próprio silêncio interno dele, aquele silêncio pesado que ele vinha construindo ao redor do coração.

Naquele dia, especialmente cinza, o farol ficou vermelho, e Helena surgiu entre os carros como sempre.

A mochila velha nas costas, duas garrafas de água numa sacola improvisada, e Davi com um casaco desbotado, o zíper falhando.

Arthur inclinou levemente a cabeça, quase sem perceber.

Helena ajeitava o casaco do menino antes de se aproximar do primeiro carro.

Com dedos rápidos, puxava o tecido até o queixo dele e beijava sua testa com cuidado.

Um beijo simples, mas carregado de uma ternura que atravessava qualquer barreira.

Ela falava baixo com a criança, Arthur não ouvia, mas via os movimentos dos lábios dela e a forma como o menino sorria, mesmo cansado.

Ele apertou o volante.

Era involuntário, incômodo, doloroso.

Vê-la cuidar de uma criança que não era sua fazia surgir uma pergunta que ele passava dois anos tentando calar:

Por que eu não consigo fazer isso por Luca?

Por que meu corpo recusa algo que meu coração, lentamente, tenta aceitar?

Mas antes que a pergunta terminasse, Helena se aproximou do carro dele.

Ela não bateu no vidro.

Nunca batia.

Apenas mostrava a garrafa d’água com um sorriso curto, tímido.

Davi repousava a cabeça no ombro dela, os olhos semicerrados de sono.

Arthur hesitou.

Seu bolso tinha dinheiro.

Mas sua mente tinha conflitos demais.

Ainda assim, baixou o vidro e pegou uma garrafa.

Helena agradeceu com a cabeça, sempre educada, sempre discreta.

Mas naquele instante, algo diferente aconteceu.

Um vento frio passou pela avenida.

Davi tremeu.

E Helena o apertou ainda mais contra si.

Arthur sentiu seu peito contrair.

Nunca tinha visto alguém segurar uma criança daquele jeito… 

Daquele jeito que ele queria ter sido capaz de segurar Luca.

O farol ficou verde.

E ele acelerou antes que pudesse pensar muito.

Luca chorava quando Arthur chegou em casa, como acontecia quase todas as manhãs.

O choro era fino, insistente, quebrado.

O tipo de choro que perfurava qualquer parede emocional.

A enfermeira, Carla, balançava o bebê de três meses nos braços, tentando acalmá-lo.

Luca era pequeno, frágil, parecia sempre perdido dentro das próprias roupinhas.

— Ele está com cólica. Disse ela. 

— Não dormiu direito a madrugada inteira.

Arthur deixou a pasta no sofá, mas não se aproximou.

Era instintivo.

Era automático.

A cada tentativa de chegar perto, seu corpo travava.

O rosto de Luca parecia uma mistura impossível de alguém que ele não conhecia e de alguém que ele amou e que o destruiu.

— Você quer tentar balançá-lo um pouco? Perguntou Carla com cuidado.

Ele fechou os olhos.

A resposta martelou por dentro.

Quero. Mas não consigo.

— Melhor deixá-lo com você. Disse, recuando um passo.

Foi Rafael quem apareceu segundos depois, como se adivinhasse a tempestade silenciosa do amigo.

— Problemas com o pequeno? Perguntou ele, encostando na porta da sala.

— Não é sobre ele. Respondeu Arthur, passando a mão nos cabelos. 

— É sobre mim.

Rafael olhou para a enfermeira, que entendeu o recado e saiu com Luca no colo.

Quando ficaram sozinhos, Rafael suspirou.

— Você está pior nas últimas semanas.  Ele cruzou os braços. 

— Não come, não dorme, trabalha até a exaustão. 

—Isso não vai resolver a sua relação com o Luca.

— Não tenho relação com ele. Disse Arthur, amargo. 

— Ele não é meu filho.

— Ele também não é culpado. Retrucou Rafael. 

— Nem pelo que a Júlia fez, nem pelos seus medos.

Arthur jogou o peso do corpo no sofá, sem forças.

— Eu sei. Disse num sussurro. 

— Mas sei também que ele merece alguém que o acalme, que o acolha. 

—E eu não consigo nem chegar perto sem sentir tudo… 

—Tudo o que ela fez… 

—Tudo o que perdi…

Rafael se sentou ao lado dele.

— Talvez esteja na hora de contratar alguém. 

—Uma babá real, estável. Alguém que fique em tempo integral. 

—Alguém que o Luca reconheça como porto seguro.

Arthur não respondeu imediatamente.

A imagem de Helena veio à mente como uma porrada silenciosa.

Ela segurando Davi.

Ela sorrindo, mesmo cansada.

Ela ajeitando o casaco da criança antes de vender água no frio.

E um pensamento atravessou a mente dele sem pedir permissão:

Ela conseguiria acalmar o Luca.

Arthur se endireitou, surpreso com a clareza repentina.

— Rafael…

Começou devagar. 

— Hoje, no farol, eu vi uma jovem. 

—Uma garota que cuida de uma criança como… 

—Como eu nunca consegui cuidar do meu próprio filho.

Rafael franziu a testa.

— Está falando daquela menina que vive nos sinais? 

—A que sempre está com o menino?

Arthur assentiu.

— Ela tem algo. Algo real. Ela… 

—Ela olha para aquele menino como se fosse tudo o que ela tem no mundo. E talvez seja mesmo. 

—Mas é o tipo de olhar que acalma. Que protege.

Rafael permaneceu alguns segundos em silêncio.

— Você está pensando em oferecer emprego a ela? Perguntou, surpreso.

— Estou pensando que Luca precisa disso. Respondeu Arthur, firme. 

— De alguém que saiba amar sem hesitar. 

—De alguém cujos instintos não estejam quebrados como os meus.

— Arthur, ela é uma moradora de rua. Não sabemos nada sobre ela…

— Eu sei o suficiente. Interrompeu ele, com uma convicção que nem sabia que tinha. 

— Vejo nos olhos dela. Vejo na forma como ela segura o menino. 

—Vejo na forma como ele confia nela. 

—É… 

—É genuíno.

Rafael respirou fundo, ponderando.

— E você acha que ela aceitaria?

Arthur sabia que as chances eram pequenas.

Mas também sabia o que vira no rosto dela: 

Fome, frio, medo, coragem, e uma determinação feroz em proteger aquele garoto.

— Acho que ela aceitaria qualquer chance de dar uma vida melhor a criança. Respondeu. 

— E eu posso oferecer mais do que isso. 

—Posso oferecer segurança. Casa. Comida. 

—Um salário. 

—Cuidados para ela e para o menino.

Rafael inclinou a cabeça.

— Você sabe que está movido por emoção, não sabe?

— Sei.  Arthur sorriu, pequeno, cansado. 

— Mas é a primeira vez em dois anos que sinto alguma coisa boa. 

—Qualquer coisa boa.

Silêncio.

Até que Rafael deu um leve sorriso de canto.

— Então vamos encontrá-la.

No dia seguinte, Arthur saiu mais cedo.

Queria encontrá-la antes que o farol ficasse cheio.

Queria vê-la de perto, não do conforto do carro.

Quando estacionou alguns metros antes do semáforo, o coração bateu rápido demais, uma reação que ele não estava acostumado a sentir.

Helena estava lá.

Cabelos presos de maneira improvisada.

Casaco ralo.

Olheiras profundas.

Mas os olhos… 

Havia algo incandescente ali.

Davi estava no colo dela, brincando com uma tampinha de garrafa.

Arthur deu dois passos, depois três.

Helena percebeu.

Os olhos dela ficaram alertas, defensivos.

Ela puxou Davi para mais perto, como se o mundo fosse ameaça.

Arthur ergueu as mãos, devagar.

— Não quero machucar vocês.

Ela não respondeu.

— Eu só preciso falar com você.

Ela hesitou.

O menino a olhou, depois olhou Arthur, com aquela curiosidade inocente que não sabe temer.

— É sobre trabalho. Disse ele, respirando fundo.

Os olhos dela tremularam.

E pela primeira vez, Arthur viu algo que reconhecia muito bem:

esperança misturada com medo.

O mesmo olhar que ele viu refletido em si mesmo quando Luca nasceu.

Ali, no farol vermelho, duas vidas feridas deram o primeiro passo em direção uma à outra, sem saber que aquele encontro mudaria tudo.

Para sempre.

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