Mundo ficciónIniciar sesiónENTRE O FRIO E A FÚRIA
O vento daquela madrugada corta como lâmina. A cidade inteira parece segurar a respiração, mergulhada naquele silêncio úmido que só existe depois de uma chuva fraca. As calçadas ainda estão escuras, refletindo o brilho dos postes como se o mundo fosse um grande espelho partido. Helena se acomoda sob a marquise de uma loja fechada, abraçando Davi contra o peito. Ele dorme enroscado nela, respirando de forma rápida, quente, como se fosse um passarinho assustado que nunca encontrou um ninho de verdade. Ela tenta fechar os olhos, mas não consegue. O corpo dói. O passado grita. A noite é o lugar onde tudo volta. E dessa vez volta com força demais. O cheiro do quarto do padrasto invade a memória, cigarro, suor, cerveja barata. O timbre áspero da voz dele chamando seu nome ainda vibra dentro de seu peito, como se fosse um eco eterno que se recusa a morrer. Às vezes, ela sente que ainda está lá… Naquele corredor estreito, com a mão dele prendendo seu braço… com a porta que nunca parecia abrir. Helena afasta essas imagens com uma respiração entrecortada, beijando de leve a testa de Davi. — Tá tudo bem, eu tô aqui… Mas a frase sai quebrada. Ela não está convencida. Ela só repete porque é a única coisa que aprendeu a dizer. Ela deita a cabeça na parede fria e observa a avenida quase vazia. Apenas alguns carros passam, sempre apressados, sempre indiferentes. Mas ela sabe que em algum momento daquela manhã, um deles será o carro de Arthur Menezes. E isso… Isso a deixa nervosa de um jeito estranho. Ela não entende o motivo, mas sente. Como se fosse uma força puxando seu destino para algum lugar que ela não pediu. Não sabe se é bom, não sabe se é ruim, só sabe que é inevitável. Arthur, naquele mesmo instante, está acordado em sua cobertura, sentado no sofá da sala, o rosto coberto de sombras projetadas pela luminosidade azulada das câmeras do monitor do quarto de Luca. Ele não dormiu. Não consegue. Luca chorou a madrugada inteira, e mesmo agora, dormindo, parece inquieto, remexendo as mãozinhas como se estivesse tentando agarrar alguém que nunca conheceu. A culpa dói tanto quanto a raiva e o luto. Ele leva as mãos ao rosto, esfregando-o com força. O silêncio da casa parece zombar dele, amplo demais, vazio demais, cheio de fantasmas demais. A imagem volta como sempre volta: Júlia rindo no sofá uma semana antes de tudo desabar. Ele se lembra do brilho no olhar dela, tão convincente, tão doce, tão falso. E depois… O momento em que o médico entregou o exame de DNA. O momento em que tudo que ele acreditava desabou com violência brutal. O filho não era dele. Nunca foi. Ele ainda sente aquela dor rasgando o peito como se tivesse sido ontem. Ele olha para o monitor de novo, observando Lucca de um jeito que mistura amor, medo, rejeição. e ódio. Ódio profundo. Ódio de si mesmo por não conseguir sentir o que deveria. “Eu deveria ser melhor que isso”, ele pensa. Mas não é. Ele se levanta com um suspiro pesado, pega a chave do carro e decide que precisa dirigir. Dirigir até o coração do caos, até o único semáforo onde o mundo dele parece parar por alguns segundos. O semáforo onde ela está. O dia amanhece devagar, e Helena desperta antes do sol tocar a calçada. O frio ainda está ali, mas Davi segue dormindo, cansado. Ela ajeita os cabelos desgrenhados, limpa o rosto como pode, dá uma olhada rápida em volta, sempre alerta, sempre pronta para fugir. Uma mulher que já foi caçada nunca mais aprende a relaxar. Ela pega a garrafa de água que conseguiu ontem e dá alguns goles. Depois, separa os doces que ainda tinha guardado e os coloca na pequena caixa improvisada. Quando o primeiro fluxo de carros começa a surgir, ela levanta, coloca Davi no colo e caminha até o semáforo. — Vamos, meu amor… o dia começa agora. Sussurra, mesmo sabendo que ele ainda está meio adormecido. Os carros diminuem, o sinal fica vermelho. Ela entra na faixa, andando com passos cuidadosos, oferecendo os doces. Alguns aceitam. Outros fingem que ela não existe. Dois motoristas fecham o vidro assim que a veem. Um terceiro balança a cabeça com desprezo. Ela ignora. Já aprendeu a engolir o mundo sem fazer careta. Até que vê o carro preto. Aquele mesmo. Aquele que sempre para no mesmo lugar. Aquele que sempre observa. Ela sente o coração acelerar. Arthur estaciona no semáforo sem desviar o olhar. Pela primeira vez, Helena percebe que a expressão dele não é de frieza, é de dor. Uma dor funda, silenciosa, bem escondida atrás de um rosto treinado para não demonstrar nada. Ela se aproxima. Respira fundo. E b**e no vidro. Arthur abre. O cheiro do vento invade o carro junto com o olhar dela. Ela está pálida, cansada, mas há algo nos olhos, uma chama. Um tipo de força que só quem já teve tudo arrancado de si pode carregar. — Bom dia, senhor… quer um doce? Ela pergunta com a voz baixa, mas firme. Arthur não responde de imediato. Ele olha para ela. Depois olha para Davi, aninhado contra seu peito. E naquele instante, algo dentro dele se parte um pouco. Ou se abre. Ele não sabe. — Você cuida dele sozinha? Pergunta, sem pensar. Helena confirma com a cabeça. — É… só a nós dois no mundo. O sinal fecha. Ônibus buzina. O tempo exige pressa. Mas Arthur não consegue desviar. Ele se vê refletido nela, não pela vida, mas pela perda. Pela luta. Pelo peso de carregar alguém mesmo quando tudo dói. Ele respira fundo, abre a carteira e entrega uma nota alta. — Não quero o troco. Diz apenas. — Moço é muito… Helena tenta devolver, assustada. — Aceite. É só um dia difícil. Ela olha para a nota, depois para o homem. E algo na postura dele, talvez os olhos, talvez a maneira sutil como ele segura o volante com força faz Helena perceber que ele também tem dias difíceis demais. — Obrigada. De verdade. O sinal abre. Ele vai. Mas não vai embora. Fica com ela ocupando toda sua mente. Quando Arthur chega ao escritório, Rafael está à porta, com a jaqueta jogada no ombro e uma expressão de quem já sabe mais do que deveria. — Não dormiu de novo. Afirma, e não pergunta. Arthur revira os olhos. — Não começa, por favor. — Só vou dizer uma coisa. Rafael cruza os braços —Você está indo naquele semáforo todos os dias. —Tá vendo aquela menina. E isso tá mexendo com você. —Você acha que eu não percebo? Arthur passa a mão pelos cabelos, irritado. — Rafael eu só… não sei explicar. — Não precisa explicar. Só não finja que não está vendo o óbvio. Arthur respira fundo. — O choro do Luca não para, Rafa. —Eu não consigo me aproximar. Já tentei. CÉ comor tocar numa ferida aberta. Ver aquela menina com o menino… —Não sei… —É como se ela soubesse fazer o que eu não sei. Rafael o encara com sinceridade rara. — Talvez porque ela saiba o que é precisar de alguém e não ter. Arthur fecha os olhos, atingido. Rafael continua: — Se você acha que ela pode ajudar o Luca, faça alguma coisa. —Porque do jeito que você tá não vai aguentar muito tempo. Arthur sente o peso da verdade e respira fundo. — Eu vou falar com ela. Decide. No semáforo, Helena segura Davi com força quando o vê. O carro preto. O vidro abaixando. O destino abrindo um espaço.






