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SOB O SINAL VERMELHO.
SOB O SINAL VERMELHO.
Por: Morgana Ávalon
O SILÊNCIO QUÊ NUNCA FOI OUVIDO.

 O SILÊNCIO QUE NUNCA FOI OUVIDO

Helena sempre soube quando o terror começava.

Não era com gritos,  era com silêncio.

O silêncio que vinha logo depois do portão bater.

O silêncio carregado do cheiro de álcool.

O silêncio entre os passos do padrasto, Rubens, ecoando pelos corredores.

Era nesse intervalo que seu coração disparava tão rápido que doía.

Que as mãos suavam.

Que a nuca formigava.

Que seu corpo começava a tremer antes mesmo de ser tocado.

A morte da mãe havia transformado tudo.

A casa ficou mais escura, menor, sufocante.

E Rubens deixou de ser apenas violento com palavras.

Helena tinha quinze anos quando ele entrou em seu quarto pela primeira vez sem pedir permissão.

E aos poucos, foi roubando pedaços dela.

O toque agressivo.

A voz carregada de insultos.

A promessa constante de que ninguém acreditaria nela se contasse algo.

Helena aprendeu a desaparecer por dentro.

Quando ele puxava seu cabelo, o couro cabeludo ardia.

Quando apertava seus braços, roxos surgiam por dias.

E quando a empurrava na cama, ela deixava a alma fugir, como se observar de fora fosse menos doloroso.

E depois que ele saía, ela chorava sem emitir um som.

As lágrimas escorriam, mas a garganta continuava fechada.

Era como se seu corpo tivesse aprendido que qualquer ruído podia significar mais violência.

Ela suportou até o dia em que quase não conseguiu respirar.

Rubens estava completamente bêbado.

O tapa veio rápido, deixando um gosto metálico na boca dela.

Depois, a mão enorme dele apertou seu pescoço com tanta força que pontos pretos surgiram na visão.

Foi ali, no instante em que o ar faltou, que o instinto falou mais alto.

A força que ela não sabia que tinha explodiu.

Um empurrão, um tropeço dele, uma queda desajeitada sobre a quina da mesa.

Helena não esperou para ver o que aconteceria quando ele se levantasse.

Pegou a mochila da escola.

Enfiou dentro dela uma blusa, uma garrafa d’água e algumas moedas que guardara em segredo.

E correu.

O vento frio cortou seu rosto quente de lágrimas.

A rua escura parecia um novo universo.

Seu peito ardia, mas era o preço de respirar.

Quando parou, ofegante, entendeu:

Qualquer lugar era melhor que voltar.

Ela dormiu em praças.

Passou fome.

Aprendeu a desconfiar de todos.

Mas também aprendeu a sobreviver.

Até o dia em que ouviu um choro fraco atrás de um container.

Helena sabia que era um choro de fome,  ela reconhecia o som porque o próprio estômago o fazia todas as noites.

Quando empurrou o saco de lixo ao lado, encontrou um menino.

Pequeno, sujo, tremendo.

Dois anos, talvez.

Olhos cheios de medo e uma chupeta caída ao lado.

Ele levantou os bracinhos para ela.

E algo dentro de Helena, algo que o padrasto não conseguiu destruir,  se acendeu.

Ela o pegou no colo.

Ele se encaixou no peito dela como se tivesse esperado por aquilo.

— Você vai comigo… 

Sussurrou.

A voz saiu rouca, pequena, mas verdadeira.

Assim, ela deu a ele um nome: 

Davi.

Porque queria que ele tivesse aquilo que ela nunca teve:

um recomeço.

ARTHUR — O AMOR QUE MORREU NO MESMO MINUTO EM QUE NASCEU

Arthur Menezes nunca imaginou que a maior dor de sua vida viria disfarçada de milagre.

Júlia, sua esposa, sempre foi o amor arrebatador que virou um casamento rápido.

Ela tinha sorriso fácil, leveza, brilho.

E Arthur literalmente reconstruiria o mundo por ela.

Quando descobriram a gravidez, ele chorou.

O mundo dele ganhou propósito.

Mas com três meses, a primeira fissura surgiu.

Um exame simples.

Um detalhe impossível de ignorar:

o tipo sanguíneo de Júlia, o dele e o do bebê não eram compatíveis.

O médico tentou amenizar.

Júlia tentou negar.

Arthur tentou acreditar.

Mas a verdade chegou antes do perdão.

Ela o tinha traído.

E o bebê não era dele.

O chão desapareceu.

Arthur desmoronou em silêncio, porque sempre fora assim, contido, estável, o que carregava tudo nas costas.

A dor da traição queimava.

Mas a dor de deixar de ser pai… 

Partia sua alma em dois.

No sétimo mês de gestação, Júlia começou a passar mal.

Uma madrugada de desespero.

Ambulância.

Gritos.

Sangue.

E então…

 um bebê.

Pequeno.

Prematuro.

Frágil demais para respirar sozinho.

Luca.

E quase ao mesmo tempo…

A morte de Júlia.

Arthur teve que escolher entre tocar o caixão dela ou a incubadora dele.

Escolheu nenhum.

Ficou parado no corredor frio, com os olhos vazios, enquanto Rafael Duarte, seu amigo de infância, sócio e o único que sabia da verdade, segurava seus ombros para que ele não caísse.

Arthur não conseguia amar aquele bebê.

Não conseguia olhar para ele sem lembrar da traição.

Não conseguia aceitar que a última coisa que Júlia deixou no mundo fosse fruto de outro homem.

Mesmo assim,  toda manhã, ele ia ao hospital.

E toda manhã, ficava parado pela janela de vidro, observando Luca lutar pela vida.

Era impossível admitir.

Mas…

Seu coração, mesmo quebrado, já estava começando a ceder.

DUAS VIDAS DESFEITAS, RUMO À MESMA ESQUINA

Helena, agora com dezoito anos, carregando Davi no colo, vende água nos faróis.

Arthur cruza exatamente aquele cruzamento todas as semanas.

Luca cresce devagar, em casa, cercado por enfermeiras que não conseguem preencher a ausência do pai.

E um dia, no sinal vermelho, Arthur vê Helena pela primeira vez.

Vê a forma como ela ajeita o casaco de Davi.

Como limpa o nariz dele com carinho.

Como sorri para acalmá-lo, mesmo com os olhos cansados e o corpo exausto.

E algo nele,  algo que estava morto, reage.

Um fio puxa outro.

Um destino encontra o outro.

E o resto… 

Começa ali.

No mesmo instante em que o sinal fica vermelho.

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