Mundo ficciónIniciar sesiónDuas Ruas e um Menino
A manhã nasce cinza, como se o céu tivesse escolhido combinar com a vida de quem vive abaixo dele. Helena desperta com o peso do corpo de Davi sobre seu peito, o menininho encolhido como um passarinho tentando se aquecer. A respiração dele é leve, quase silenciosa, e por um segundo ela se pergunta se ele ainda está vivo. O susto vem sempre antes da consciência plena. Então ele mexe os dedos, e o coração dela acalma. — Bom dia, pequenininho. Ela sussurra, tocando a bochecha fria do menino. Davi pisca devagar. Ele sempre demora a acordar, como se o mundo fosse ameaçador demais para encarar rápido. — Le… Lena… Ele arrisca, a voz rouca, ainda presa ao sono. Ela sorri, mesmo sabendo que ele não vê completamente a expressão, porque os olhos dele desviam, como se buscassem permissão para existir. — Isso. Helena. —Mas você pode falar só Lena, se quiser. Ele tenta repetir, mas solta apenas um som abafado que se perde no vento que entra pela fresta do abrigo improvisado. É uma estrutura de concreto sem portas, um espaço abandonado que serve de casa para eles há três dias. Nada além de chão frio, paredes descascadas, e a coragem dela segurando tudo no lugar. Helena passa a mão no cabelo do menino, tentando alinhar os fios escuros desgranhados. — Vamos procurar comida. Diz, levantando com ele no colo. Davi se agarra ao pescoço dela, os bracinhos finos tremendo do frio. Eles saem para a rua e o vento corta como navalha. A cidade ainda acorda devagar, alguns comércios abrem, carros passam apressados, e as pessoas olham para eles como se fossem parte da paisagem que ninguém quer enxergar. Helena aperta Davi contra o peito. “Se eu tivesse saído antes… se eu tivesse fugido antes…”. Os pensamentos são facas. Ela tenta afastá-los. Duas ruas adiante, perto da padaria que costuma descartar pães amanhecidos, Helena observa o movimento. Sempre espera o horário exato, quando os funcionários tiram as bandejas cheias para substituir pelas novas. O rapaz de avental branco sai carregando uma cesta grande. Não olha para os lados, apenas despeja tudo no saco preto e o deixa encostado na porta lateral. Assim que ele entra de novo, Helena corre. — Segura firme, Davi. Murmura. Ela abre o saco e encontra pães meio duros, mas ainda bons. Divide um ao meio e entrega um pedaço ao garoto. Davi segura o pão com as duas mãos, como se fosse um tesouro. Morde devagar, as bochechas enchendo de ar, mastigando com cuidado, como alguém acostumado a racionar. Helena observa com o peito apertado. — Devagar, senão engasga. Ele assente, mastigando mais lentamente. Do outro lado da rua, uma mulher para por um instante para observá-los. Tem expressão julgadora, sobrancelhas franzidas. Helena desvia o olhar, envergonhada, mas mantém o queixo erguido por orgulho. Depois de comerem, ela limpa a boca de Davi com a barra da própria blusa. Ele cheira a poeira, rua e inocência. — Vamos tentar conseguir água. Diz ela. Caminham até a construção abandonada onde há uma torneira externa. O jato é fraco, mas suficiente. Helena usa as mãos em concha para molhar os lábios de Davi. Ele bebe e respira fundo, aliviado. — Tá gelada. Ele reclama baixinho, tremendo. — Eu sei, amor. Mas é água. O menino encosta a testa no ombro dela. — Frio. Ela aperta mais o corpo dele. — Eu sei. Vai melhorar quando o sol sair. Não melhora. O sol mal aparece. A manhã se arrasta, e Helena insiste em buscar trabalho. Em alguns semáforos ela limpa para-brisas, em outros vende pequenos panfletos que lhe dão em troca de alguns centavos por dia. Davi sempre ao lado, ou nos braços, quando adormece. No fim da tarde, passam novamente pelo cruzamento onde tudo começou. Onde ela encontrou o menino deitado perto da lixeira, dois dias sem comer, febril, murmurando sons que não faziam sentido. Onde ela decidiu que não o deixaria morrer. E onde, ontem, um homem dentro de um carro preto a observou por tempo demais. Helena sente o estômago contrair ao lembrar dos olhos dele. Não eram olhos cruéis. Mas eram atentos. Intensos. Como se ele estivesse perguntando algo que ela não sabia responder. Ela tenta afastar a sensação, mas o semáforo permanece ali, marcando destino, como se fosse um capítulo à parte em sua história. — Lena? Davi chama, apontando. Ela acompanha o olhar dele. Um cachorro esquelético vasculha uma sacola rasgada. Davi estende a mão, com pena. Helena segura a mãozinha dele. — Não podemos. Ele pode morder. O menino abaixa a cabeça. — Dói. — O quê? Ele aponta para o peito. — Dor… Helena o envolve num abraço imediatamente. Ele raramente verbaliza o que sente. O fato de conseguir articular essa palavra a desestabiliza. — Eu tô aqui. Ela sussurra. À noite, voltam ao abrigo. Helena tenta fazer disso um lar, por mais absurdo que seja. Espalha uma manta fina achada no lixo no chão, ajeita a roupa de Davi, dá o resto do pão para ele. Ela canta baixinho. Uma canção que lembra vagamente sua mãe biológica, um eco distante de algo bom. Davi encosta a cabeça no colo dela. — Le… Lena… Ele tenta. — Diga, meu amor. — Moi…to frio… Ela o envolve com o corpo inteiro. — Eu não vou deixar nada de ruim acontecer com você. Ele respira fundo, como se acreditasse. Helena não sabe se acredita. Quando o menino adormece, ela sai um instante para olhar a rua. Inquieta. Algo no ar parece movê-la, um instinto que aprendeu a respeitar depois de tanto sofrimento. Olha para os carros que passam… E então vê. O carro preto. O mesmo. Estacionado do outro lado da rua. Helena congela. O homem está lá dentro. Janelas fechadas. Motor ligado. E os olhos, ela não sabe como, mas sente, estão sobre ela. “De novo não. Não posso fugir de novo.” Mas o carro não se move. Não se aproxima. Apenas permanece ali por alguns segundos que parecem longos demais. Então segue. Devagar. Sem pressa. Como se estivesse estudando. Helena volta correndo para dentro, pega Davi no colo e se encolhe com ele, o coração batendo em pânico. Mas o pânico não dura para sempre. O cansaço vence. Ela adormece agarrada ao menino, tentando esquecer o carro preto. Horas depois, em outro ponto da cidade, Arthur estaciona o mesmo carro na garagem da empresa. Ele desliga o motor e permanece ali por alguns segundos, os dedos ainda grudados no volante. A imagem dela não sai da cabeça dele. A maneira como segurava o menino. Como regulava a respiração para acalmá-lo. Como olhava para ele como se o mundo inteiro pudesse acabar, mas ela ainda estaria ali protegendo-o. Arthur fecha os olhos. — Eu não devia ter voltado lá hoje… Diz para si mesmo. Mas voltou. E vai voltar amanhã. E ele sabe. Quando abre a porta, encontra Rafael encostado na parede, braços cruzados, olhar irônico. — Você estava lá de novo, não estava? Arthur passa a mão no rosto, cansado. — Eu só queria confirmar se ela estava bem. — Ela e o garoto? Rafael pergunta, arqueando a sobrancelha. — Ou você? Arthur não responde. Porque não sabe. Sabe apenas do peso que sente sempre que olha para Lucca em casa, o bebê que chora sempre que ele se aproxima. E sabe também que, quando olha para aquele menino da rua, sente algo que não consegue explicar. Não é culpa. Não é piedade. É outra coisa. Algo que talvez ele tenha tido, muitos anos atrás, antes de perder completamente a capacidade de se conectar. — Arthur… Rafael chama, mais suave — Você não pode salvar todo mundo. Arthur ergue o olhar. — Eu só não quero que o garoto morra. —Nem ela. Rafael observa por um momento. — E por que isso te afeta tanto? Arthur responde a verdade, pela primeira vez: — Porque ela cuida dele como eu nunca consegui cuidar do meu próprio filho. A frase fica suspensa no ar. E ali, naquela noite, sem saber, Arthur dá o primeiro passo para a escolha que vai mudar tudo. Amanhã, ele voltará ao semáforo. E nada será como antes.






