A reunião tinha sido um desastre. Arthur saiu da sala de vidro com o maxilar rígido, o telefone ainda pressionado contra a orelha enquanto respondia a perguntas que se repetiam com variações mínimas e paciência cada vez menor. Investidores, conselheiros, expectativas. Tudo exigia decisões rápidas, respostas firmes, nenhuma margem para hesitação. Era assim que ele funcionava ou costumava funcionar.
Quando entrou no carro, desligou o telefone e apoiou a cabeça no encosto por um segundo mais longo do que o normal. Pensou em Sofia. Pensou na última vez que a filha havia desenhado durante o café da manhã, concentrada, tranquila. Pensou em Helena. Irritou-se consigo mesmo. Misturar esses pensamentos era um erro.
Chegou em casa mais cedo do que o habitual naquela tarde. Não por escolha consciente — apenas seguiu o impulso, algo que raramente se permitia fazer. Ao abrir a porta, encontrou risadas vindas da cozinha. Risadas de Sofia. Arthur parou no hall, em silêncio, como se invadir aquele som fosse uma falta de educação.
— Se você colocar muito alto, ele cai! — dizia Helena, divertida.
— Não cai! — Sofia respondeu, com convicção.
Arthur entrou devagar. Sobre a mesa da cozinha, havia uma torre improvisada de blocos coloridos, muito mais alta do que parecia segura. Helena estava agachada ao lado da filha, as mãos próximas o suficiente para amparar, mas sem interferir.
A torre caiu segundos depois, espalhando peças pelo chão. Sofia arregalou os olhos, surpresa. Depois… riu. Arthur não lembrava da última vez que tinha ouvido aquele riso tão solto.
— Papai! — Sofia o viu e correu até ele — Você chegou cedo!
— Cheguei. — respondeu, abaixando-se para abraçá-la.
Helena se levantou imediatamente.
— Boa tarde.
— Boa tarde! — ele respondeu, mas havia algo diferente em seu tom. Menos rígido, menos distante.
— Posso terminar o lanche? — perguntou ela, recuando um passo.
Arthur assentiu, ainda observando a filha juntar os blocos no chão.
— Você se divertiu hoje? — perguntou a Sofia.
— Muito. A Helena deixou eu escolher a música.
Arthur lançou um olhar rápido para Helena. Ela sorriu, de forma contida.
— Música baixa. — acrescentou — Enquanto ela desenhava.
— Regras respeitadas. — ele concluiu.
— Sempre.
Houve uma pausa breve, densa. Arthur sentiu a necessidade de reafirmar limites, mesmo sem saber exatamente por quê.
— Sofia, vá lavar as mãos! — disse, firme — O lanche já vai sair.
A menina obedeceu, deixando os dois sozinhos por um instante.
— Não quero que confunda liberdade com intimidade, minha filha gosta de você. Isso é bom. Mas precisa manter a distância certa. — disse, com a voz baixa.
Helena o encarou, surpresa apenas por um segundo.
— Distância emocional não significa frieza. — respondeu, solene — Crianças percebem quando alguém está presente de verdade.
— Não estou falando de Sofia. — ele disse, firme.
O silêncio caiu entre eles, Helena entendeu imediatamente.
— Arthur… — começou, mas se conteve, respirou fundo — Não ultrapassei nenhum limite.
— Ainda. — ele respondeu, talvez mais seco do que pretendia.
O olhar dela se fechou um pouco, não em raiva, mas em cuidado.
— Eu sei exatamente onde piso e sei por que estou aqui.
Arthur assentiu, mas a inquietação permaneceu, porque ele não estava tão certo de saber.
-
Naquela noite, depois que Sofia dormiu, Helena se recolheu mais cedo do que de costume. Não por cansaço físico — mas emocional, o tom da conversa ainda ecoava em sua mente. Ela entendia o medo dele, mas também conhecia o próprio limite.
No quarto, sentou-se na cama e pegou o celular. Uma mensagem não enviada piscava na tela: uma antiga colega perguntando se ela estava feliz no novo emprego. Helena apagou a resposta que havia escrito, felicidade era uma palavra grande demais.
Do outro lado da casa, Arthur caminhava pela sala em passos curtos, repetitivos. Pegou um copo d’água, largou sobre a bancada sem beber, passou pela porta do quarto de hóspedes e hesitou. Bateu.
— Helena?
Houve alguns segundos de silêncio antes da resposta.
— Sim?
— Podemos conversar um minuto?
Ela abriu a porta, mantendo uma distância respeitosa.
— Claro.
Arthur respirou fundo.
— Fui ríspido mais cedo. — disse, pausadamente — Não era minha intenção.
Helena sustentou o olhar dele.
— Entendo a sua preocupação.
— Mas isso não me dá o direito de projetar medos em você. — completou, sincero — Nem de ultrapassar o tom. — ela assentiu, em silêncio — Só preciso ter certeza de que tudo aqui… — fez um gesto vago com a mão — …permaneça sob controle.
— Controle não impede sentimentos, Arthur. Só os adia. — disse, suavemente.
Ele a encarou por longos segundos.
— Boa noite, Helena.
— Boa noite.
A porta se fechou devagar. Arthur se afastou sentindo algo perigoso crescer dentro de si: a certeza de que aquele terreno já não era neutro. Era sensível e qualquer passo em falso poderia mudar tudo.